Castores Ajudam a Combater as Alterações Climáticas

Os lagos dos castores ajudam a manter o caudal dos rios e ribeiros durante todo o ano, compensando a diminuição do volume de neve e o degelo. Basta que não os perturbemos.quinta-feira, 13 de setembro de 2018

A língua inglesa é fértil em expressões idiomáticas sobre castores, desde “beaver away” ou “busy as a beaver”, que remetem para o engenho e o trabalho árduo. No seu mais recente livro, Ben Goldfarb leva-nos numa viagem ao mundo maravilhoso do mais notável engenheiro civil da natureza, capaz de erguer barragens com cerca de 800 metros, e revela-nos a razão pela qual a reabilitação de uma espécie levada quase ao limiar da extinção está a surtir efeitos positivos, com grande alcance, nas nossas paisagens, ecologia e até mesmo na nossa economia.

Quando a National Geographic entrevistou Goldfarb por telefone em Nova Iorque, o escritor explicou o papel essencial que os castores desempenham no ocidente americano; como um castor chamado Jose assentou casa no rio Bronx, em tempos considerado tóxico; e ainda por que a única forma de identificar o sexo de um castor é cheirar-lhe o rabo.

Diz que os castores são autênticos “canivetes suíços da ecologia e hidrologia” e “uma das histórias com maior sucesso da vida selvagem”. Explique-nos o que pretende dizer com estas duas afirmações e dê-nos exemplos de alguns dos benefícios económicos e até mesmo clínicos da reabilitação das populações de castores.

O comportamento clássico dos castores, que qualquer aluno do terceiro ano consegue identificar, é construir barragens. Ao fazê-lo, os castores criam lagos e zonas húmidas que se tornam importantes por muitas razões.  A primeira é a biodiversidade de habitats, criando espaços que podem ser habitados por peixes e outros animais selvagens. Na costa ocidental americana, onde o tempo é seco, as zonas húmidas cobrem apenas dois por cento da área total de terra, mas acolhem cerca de 80 por cento de biodiversidade. Qualquer criatura capaz de criar zonas húmidas adquire uma importância essencial. Imagine uma rã que se reproduz num lago, ou um juvenil do salmão que cresce noutro, ou um pato que nidifica nas proximidades de um lago. O número de espécies que depende dos habitats dos castores é virtualmente ilimitado.

Os castores criam infraestruturas que nos beneficiam a nós, humanos. Os lagos dos castores filtram a poluição, armazenam água que pode ser usada em quintas e ranchos, abrandam as inundações e atuam como corta-fogos ou diminuem a erosão. Um estudo no Utah revelou que a reabilitação da população de castores numa única bacia hidrográfica gerou, num ano, dezenas de milhões de dólares em benefícios económicos.

Na América do Norte, quando chegaram os primeiros comerciantes e caçadores de peles, existiam cerca de 400 milhões de castores. No início do século XX, estima-se que existissem cerca de uns 100 000 indivíduos. Durante três séculos, os castores eram vítimas de armadilhas pelas suas peles. O seu pelo era muito procurado para chapéus. Depois, no início do século XX, acordámos e apercebemo-nos de que colocar armadilhas para capturar incessantemente estes animais não era sustentável e de que eles são realmente importantes e, como tal, era essencial que voltassem às nossas paisagens. A reabilitação das populações de castores é a prova de que os esforços de conservação podem ser realmente eficazes!

Um dos projetos mais ambiciosos da reabilitação da população de castores foi implementado em Methow Valley, no estado de Washington. Descreva-nos o objetivo deste projeto.

O Methow Valley situa-se no centro de Washington, na zona este de Cascada Range. É uma região bastante seca, assolada por incêndios. A escassez de neve e a diminuição do degelo em Cascades têm vindo a acentuar-se nos últimos anos, pelo que a água é um recurso crítico nesta zona do território americano. É uma das maiores regiões de produção de maçã e lúpulo, sendo uma zona agrícola cerealífera com importância crítica no meio do estado de Washington. Inevitavelmente, são inúmeros os conflitos com a população de castores. Normalmente, a primeira reação é colocar armadilhas para os apanhar. Mas o projeto de Methow apanha os castores e realoja-os em linhas de água localizadas a montante, em terrenos públicos, nas zonas altas das montanhas, afastando-os assim das propriedades privadas. Ao erguer barragens e criar lagos, os castores ajudam a manter os caudais dos rios e ribeiros da região central de Washington ao longo de todo o ano. Por isso, os castores funcionam como uma espécie de estratégia de adaptação climática, compensando a diminuição do volume de neve e do degelo.

Em Puget Sound, os castores estão a ser reintroduzidos para aumentar a população de salmões. Como é que isso funciona?

O projeto é fantástico! Os juvenis do salmão não querem viver no canal principal ou arriscam-se a ser levados rio abaixo. Os juvenis querem um ambiente menos agitado, um habitat de águas tranquilas, como uma piscina natural ou um remanso, onde seja possível manterem-se afastados da corrente e encontrarem alimento sem despender muita energia. Ao abrandar a movimentação das águas, os castores criam estes habitats fantásticos para os juvenis do salmão.

Isto é particularmente importante para as tribos nativas que habitam a região noroeste dos Estados Unidos, sob a linha do Pacífico, que dependeram, desde sempre, das populações de salmão. A movimentação dos salmões em todo o território americano decresceu como consequência das barragens, da sobrepesca e da perda de habitat. Com a reintrodução de castores para recriar o habitat dos salmões, tribos como a Tulalip podem recuperar alguns dos peixes dos quais sempre dependeram e que são parte integrante das respetivas culturas.

Pode-se dizer que pôs as mãos na massa ao fazer pesquisa para o seu livro. Fale-nos sobre essa sua aventura de andar a cheirar os rabos dos castores.

[Ri] No projeto de Methow Beaver, eles tentam encontrar pares compatíveis de castores para realojar enquanto família. Desta forma, a adaptação dos castores é agilizada, e eles começam a erguer barragens exatamente como pretendem os coordenadores do projeto. Muitas vezes, quando um castor é realojado sozinho, acontece ele começar a deambular pela zona à procura de uma parceira, e o mais certo é acabar comido por um urso ou um puma. O projeto de Methow Beaver procura encontrar pares de castores compatíveis, tipo um serviço de encontros personalizado para castores. [ri]

Mas os castores não facilitam nada a tarefa de distinção de sexos. Os machos não têm órgãos genitais externos, o que faz todo sentido. Quando se leva a vida a nadar entre pilhas de troncos e ramos, não dá muito jeito ter umas quantas partes penduradas, correndo o risco de serem repuxadas ou ficarem presas. [ri] E, a menos que a fêmea esteja a amamentar, não se consegue afirmar com segurança qual o sexo de um castor.

A única forma de distinguir os sexos é usar os dedos para puxar para fora a glândula anal das partes inferiores do castor, espremer umas gotas da secreção que usam para marcar o território e cheirar. Se o odor se assemelhar ao óleo do motor, é um macho; se cheirar a queijo, é fêmea. [ri] Eu cheirei dois castores, mas não consegui identificar com segurança os respetivos sexos. O pessoal do projeto de Methow fazem-no sem qualquer dúvida e hesitação e usam este método para formar casais de castores compatíveis.

Conheceu um conjunto de pessoas fascinantes ao longo do processo. Fale-nos sobre Heidi Perryman e a sua organização Worth a Dam.

Heidi é uma pessoa fascinante, uma psicóloga infantil que não sabia muito sobre castores até estes aparecerem, em 2007, na baixa da cidade de Martinez, na Califórnia, onde vive. Martinez situa-se na área da Baía de San Francisco, a antiga casa de John Muir, e, quando os castores apareceram na cidade, a primeira reação da comunidade foi eliminá-los, porque os proprietários da zona baixa temiam que os animais provocassem danos por inundações. Não existiam quaisquer elementos que suportassem este receio, mas a reação imediata foi livrarem-se dos castores.

Heidi passou bastante tempo em deslocações aos ribeiros de Alhambra Creek, onde os castores viviam. Heidi filmou e criou um movimento para os salvar. Ao fazê-lo, esta psicóloga tornou-se numa das defensoras dos castores com maior conhecimento e crédito na matéria a nível nacional. Atualmente, Heidi organiza um festival anual dedicado aos castores na baixa de Martinez. Como consequência do seu movimento, a cidade rendeu-se aos castores e deixou-os viver, a par das várias gerações de descendentes, e hoje a cidade de Martinez é vista como um modelo de sã coexistência entre humanos e castores.

Muitas das principais autoridades que se preocupam com os castores são pessoas autodidatas, como Heidi. Conheci antigos agentes imobiliários e médicos que se ocupavam de questões relacionadas com os castores, todo o género de pessoas que não tinham qualquer formação em biologia, mas que contactaram com estas criaturas extraordinárias e ficaram fascinados. Há inclusive um grupo chamado The Beaver Believers, uma designação informal que os admiradores dos castores gostam de dar a si mesmos. Não é preciso ser-se um biólogo especialista na vida selvagem para se admirar os castores. Basta apenas que seja uma pessoa que passa tempo com estes animais e que admira a sua capacidade para transformar paisagens.

Outra figura carismática é Dave Rosgen, também conhecido por The Restoration Cowboy. Fale-nos sobre esta pessoa e o seu trabalho.

Dave Rosgen é talvez o profissional mais conhecido na área da recuperação e valorização ecológica e paisagística das linhas de água a nível nacional. Rosgen usa um chapéu enorme e um cinto com fivela e é esse indivíduo conhecido do público em geral, muito seguro de si mesmo, que organiza workshops em todo o país, frequentados por milhares de profissionais do setor. Em certas regiões, Rosgen é uma figura controversa, por recorrer, por vezes, a maquinaria pesada, como buldózeres, para redefinir o traçado das linhas de água.

Creio que todos os profissionais do setor têm um enorme respeito pelo trabalho de Rosgen, mas há alguns que veem nos castores uma alternativa às técnicas deste profissional. Em vez de usar maquinaria pesada, é possível erguer barragens artificiais, semelhantes às dos castores, mais leves e menos onerosas, colocando uns quantos troncos sobre uma linha de água, atraindo os castores ao local e levando-os a assumir o controlo. Rosgen é também ele um admirador de castores e, no seu estilo muito próprio, replica o engenho destes animais com recurso a maquinaria pesada. As abordagens das intervenções nas linhas de água sucedem-se, mas os castores estão cada vez mais na linha da frente da reabilitação de linhas de água degradadas na costa ocidental dos Estados Unidos.

A Grã-Bretanha também está a dar os primeiros passos na recuperação das linhas de água com o auxílio de castores. Fale-nos sobre a sua viagem às Terras Altas da Escócia e sobre o Scottish Beaver Trial.

Os castores foram dizimados até à extinção na Grã-Bretanha no final do século XVIII, mas nos últimos anos têm sido vários os esforços para reintroduzir os castores em Inglaterra e na Escócia, deslocando espécimes da Alemanha e da Noruega. Alguns destes esforços, como o projeto de parcerias The Scottish Beaver Trial, atuam sob o aval e apoio das entidades governamentais. Outros são menos transparentes.

Fui a Inglaterra no âmbito da divulgação do meu livro e vi ambos os comunicados oficiais, assim como as reintroduções não oficiais, e a imagem é bastante elucidativa! Na Escócia, há ainda alguma resistência entre os agricultores relativamente aos castores, mas o governo escocês reconheceu que se trata de uma espécie autóctone e está a tomar medidas para assegurar a proteção destes animais, pelo que os castores começam novamente e de forma gradual a ser uma parte integrante da paisagem escocesa.

Trata-se de uma questão importante para a Grã-Bretanha, porque é uma região com elevada precipitação e registo de inundações. Existe um trabalho notável de investigação sobre as colónias de castores que foram reintroduzidas em Devon, no sudoeste de Inglaterra, e que revela que os lagos e as zonas húmidas são essenciais na mitigação dos danos provocados por inundações. À medida que as inundações avançam rio abaixo, a água fica retida nos lagos, distribuindo-se para o exterior para as zonas húmidas circundantes. A equipa de investigação de Exeter, em Devon, revelou que os castores engolem cerca de 30 por cento da água durante um forte aguaceiro típico na região. Por isso, muitas das reintroduções de castores no Reino Unido são hoje motivadas pela prevenção de danos provocados por inundações, que é uma função fantástica dos castores.

Diga-nos, Ben, em breves palavras o que adora nos castores e aquilo que, no seu entender, lhes reserva o futuro.

Uma das coisas que adoro nos castores é que são animais pelos quais é fácil sentir empatia. Nós, humanos, adoramos reorganizar a paisagem em nosso redor para maximizar o nosso próprio sentido de proteção, e os castores fazem precisamente o mesmo! Eles são extraordinariamente engenhosos e empreendedores, e eu revejo-me nesse espírito.

Quanto àquilo que o futuro lhes reserva, creio que será muito positivo em vários aspetos. Eu cresci a montante da cidade de Nova Iorque, que foi em tempos um habitat de castores notável. Times Square foi outrora um pântano habitado por castores. Mas, no início do século XX, a população destes animais foi completamente dizimada por caçadores de peles, pela poluição e pelo desenvolvimento urbanístico. Até que, em 2006, um castor regressou ao rio Bronx, que se tinha revelado incapaz de acolher qualquer forma de vida. O castor chamava-se Jose, em honra do congressista Jose Serrano, o político local responsável pela recuperação do rio Bronx. Desde então, os castores têm descido até ao rio, e isso é um fator de esperança para muitas pessoas. É um sinal de que somos capazes de reparar alguns dos nossos maiores erros ambientais.  

Nas minhas viagens, vi castores em áreas selvagens, como Yellowstone. Mas também vi muitos castores em lugares como a baixa da cidade de Martinez, na Califórnia. Visitei inclusive uma colónia de castores perto do parque de estacionamento de um Wal-Mart, no estado de Utah! [ri] Os castores são animais que vivem muito bem na proximidade de humanos, e, se não interferirmos com a sua natureza, eles podem facilitar-nos a vida em muitos aspetos. Fazendo uso das palavras de um cientista especialista em castores: “Temos de deixar os castores fazerem o seu trabalho, para que nos possam ajudar a resolver alguns dos nossos problemas ambientais mais graves.”

Esta entrevista foi editada por motivos de extensão e clareza.

Simon Worrall é responsável pelo Book Talk. Siga-o no Twitter ou em simonworrallauthor.com.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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