Como a Atividade Humana Afeta a Capacidade Reprodutiva das Abelhas

Dos pesticidas ao desenvolvimento urbanístico e à poluição eletromagnética, a atividade humana afeta a capacidade reprodutiva das abelhas melíferas.

Thursday, September 20, 2018,
Por Elizabeth Anne Brown
Abelha obreira.
Esta abelha obreira, Apis mellifera, nunca se reproduzirá, mas, pelo menos, está viva. O sexo é fatal para os machos.
Fotografia de Anand Varma, National Geographic Creative

Voar depressa e morrer jovem: essa é a filosofia de vida do macho da abelha melífera. Com menos de um por cento de hipóteses de se reproduzir com sucesso e 100 por cento de possibilidades de morrer depois de acasalar, os machos da abelha melífera não têm a vida facilitada.

Mas indícios recentes sugerem que a atividade humana, incluindo o desenvolvimento urbanístico, a poluição eletromagnética e a utilização de pesticidas neonicotinoides, acentua a dificuldade de reprodução das abelhas melíferas, colocando a espécie em perigo.

Todas as primaveras, os machos da abelha melífera, também conhecidos por zângãos, convergem para zonas de congregação, uma espécie de salões de baile em pleno ar, onde milhares de abelhas jovens se concentram vindas de longe para mostrar os seus atributos.

Cada zângão tenta acasalar com uma abelha-mestra virgem, uma fêmea, de uma semana de vida, destinada desde o nascimento a fundar a sua própria colmeia. Nestes eventos, durante os voos nupciais destas fêmeas, as abelhas-mestras acumulam o material genético, que irão usar para fecundar os ovos ao longo das suas vidas. As abelhas-mestras podem pôr cerca de 2000 ovos num dia produtivo.

Cada abelha-mestra acasalará com 12 dos seus pretendentes, menos do que um por cento dos machos que acorrem à zona de concentração. Os machos mais aguerridos precipitam-se do céu atrás de uma abelha-mestra virgem, num voo picado, disputando a melhor posição.

Quando um zângão afortunado alcança uma das abelhas-mestras, ele monta-a e flete os abdominais para projetar o endófalo, o órgão genital da abelha equivalente ao pénis, no interior da câmara do ferrão da abelha-mestra. O sémen é libertado com uma velocidade e força de tal forma explosivas, que se diz ser audível ao ouvido humano.  

Este é o momento áureo da vida de um zângão e, a partir daí, é sempre em decrescendo. O endófalo rompe-se e fica preso no corpo da abelha-mestra. O zângão cai no solo paralisado, à espera do seu fim.

“Não será provavelmente uma forma muito agradável para morrer”, diz Geoff Williams, um entomólogo da Universidade de Auburn e um especialista na reprodução das abelhas melíferas. “Mas espera-se que, com sorte, tenha transmitido os seus genes.”

Os solteirões sobreviventes voam de congregação em congregação até morrerem às cerca de seis semanas de vida ou até à chegada do outono, quando os recursos se tornam mais escassos e as abelhas obreiras decidem ver-se livres dos irmãos inertes. Os corpos dos zângãos atulham o solo no exterior da colmeia.

PROBLEMAS COM OS PESTICIDAS

Mas os pesticidas agrícolas podem estar a dificultar esta vida aparentemente sombria. Em 2016, Williams e a sua equipa publicaram um estudo na revista Proceedings of the Royal Society B, que revelava que os neonicotinoides, a classe de pesticidas agrícolas mais comum em todo o mundo, podiam atuar como um contracetivo no universo das abelhas. Segundo Williams, os zângãos expostos a campos com verdadeiras concentrações de neonicotinoides produziram menos 39 por cento de esperma viável, e é cada vez maior a frequência com que depositam esperma morto nas abelhas-mestras.

Durante os seus voos nupciais, a abelha-mestra melífera acumula esperma numa câmara especial no seu abdómen, conhecido por espermatoteca. A abelha-mestra irá usar esse material genético ao longo da sua vida para produzir abelhas obreiras, sendo que os ovos fecundados evoluem para fêmeas, e os ovos não fecundados dão origem a zângãos. A diminuição da quantidade de esperma saudável pode alterar o rácio de géneros da descendência da abelha-mestra e reduzir o número de abelhas obreiras na colónia, enfraquecendo a colmeia.

A Bayer, a maior produtora de neonicotinoides, assevera que os pesticidas não representam qualquer ameaça às abelhas melíferas, quando aplicados corretamente nas culturas, afirma Utz Klages, responsável pela comunicação externa da empresa.

Mas, curiosamente, um estudo conduzido no terreno, financiado pela Bayer e por outro fabricante de pesticidas líder de mercado, concluiu que os neonicotinoides aparentam, efetivamente, “ter um impacto negativo no potencial reprodutivo interanual das abelhas selvagens e das de criação”, embora tivessem sido registadas variações de país para país.

Os autores do estudo, publicado no ano passado na revista Science, determinaram que a exposição a estes químicos “reduz a capacidade das abelhas para superar o inverno e a reprodução das colónias quer das abelhas melíferas, quer das abelhas selvagens”, confirmando que os pesticidas neonicotinoides “afetam negativamente a saúde destes insetos polinizadores em condições agrícolas reais”.

O uso de neonicotinoides foi restringido em alguns lugares. A União Europeia decretou a interdição total de três destes químicos no início de 2018, e o Canadá pretende interditar o seu uso de forma faseada.

Os substitutos destes pesticidas também podem levantar problemas. Um estudo publicado no mês passado na revista Nature revelou que as colónias de abelhões expostas ao sulfoxaflor, o pesticida que será provavelmente introduzido como alternativa aos neonicotinoides, produziu em média menos 54 por cento de abelhas reprodutivas. Tal pressupõe, obviamente, “um número menor de abelhas na geração seguinte”, afirma Harry Siviter, um dos autores do estudo da Universidade Royal Holloway de Londres, e o químico pode afetar as abelhas melíferas de forma idêntica.

FLORES BOAS SÃO DIFÍCEIS DE ENCONTRAR

Para sobreviver o tempo suficiente para ter a possibilidade de acasalar, os zângãos confiam no “serviço de quarto de pólen” das suas incansáveis irmãs.

“As abelhas, tal como nós, requerem dietas diversificadas para se manterem saudáveis”, explica Christina Grozinger da Universidade Estatal da Pensilvânia. Mas entre os campos de milho industrial e as paisagens urbanas em expansão, uma boa flor pode ser difícil de encontrar.

“A perda de plantas com flor, quer em termos de abundância, quer em termos de diversidade, reduz os recursos nutricionais ao dispor não só das abelhas melíferas, como das demais”, afirmou Grozinger.

As colmeias das abelhas melíferas situadas em zonas de campo não cultivadas, como os prados em flor, desenvolvem-se de uma forma muito mais saudável do que as colmeias situadas em áreas de plantação de milho ou soja, segundo um estudo recente conduzido pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos.

Após analisar 864 colónias de abelhas melíferas em Great Plains, os cientistas federais determinaram que as colmeias alojadas nas áreas com condições mais favoráveis registavam verdadeiros baby booms estivais, produzindo, em média, mais 2000 a 4000 indivíduos do que as colmeias situadas em zonas menos favoráveis.

Os machos da abelha melífera, como este zângão, têm menos de um por cento de hipóteses de fecundar uma abelha-mestra. Os poucos que têm essa sorte veem-se obrigados a deixar para trás o endófalo, o órgão genital da abelha equivalente ao pénis, ditando, por fim, a sua morte.
Fotografia de Anand Varma, National Geographic Creative

Para além de reduzir a população reprodutora no geral, uma nutrição deficitária implica que cada zângão tenha menos tempo de vida. As abelhas doentes são mais suscetíveis a vírus e parasitas, tais como a infame varroa, e não estão fisicamente aptas. Uma dieta alimentar pobre pode dar origem a uma geração de zângãos pequenos e fracos, sem possibilidades de acasalar.

E uma abelha-mestra com menos parceiros significa uma colmeia geneticamente menos diversificada, com reflexo na capacidade de resiliência da família à doença e aos fatores de stress ambiental.

UMA BÚSSOLA SOBRESSELENTE

Os cientistas não sabem ao certo como é que as abelhas de poucas semanas de vida encontram o caminho em direção às mesmas zonas de congregação que os seus antepassados usaram durante gerações.

Uma teoria é que as zonas de congregação surgem em lugares “de horizonte aberto, dominados por uma luz intensa”, explica Williams. Outros cientistas referem a proximidade de cursos de água ou pontos de referência numa área de arvoredo como fatores determinantes para as zonas de congregação.

Mas como é que os zângãos identificam, a quilómetros de distância, as áreas de arvoredo e os céus abertos que acolhem as zonas de concentração? As abelhas melíferas podem-se fazer valer de “uma bússola sobresselente” situada na extremidade posterior do seu corpo.

O abdómen da abelha melífera integra uma bolsa de cristais magnéticos, que são, na verdade, partículas de ferro que podem detetar mudanças nos campos eletromagnéticos, como aquele gerado pela Terra.  Desde os anos 70 que vários estudos demonstraram que as abelhas melíferas podem usar os campos magnéticos para se orientar no espaço, e experiências mais recentes associam os campos elétricos a tudo, desde a seleção de flores a rituais de navegação, como a famosa dança das abelhas. Admite-se que as abelhas possam ser atraídas por um sinal eletromagnético específico nas zonas de congregação.

A maioria das tecnologias humanas que emitem campos eletromagnéticos são apenas um ligeiro piscar de luz no radar de uma abelha melífera, sendo, ao que parece, muito difícil de detetar, mas o entomólogo Sebastian Shepherd teme que as linhas de tensão elétrica sejam uma exceção à regra, manifestando preocupação.

Esta abelha-mestra melífera, Apis mellifera, põe diariamente cerca de 2000 ovos. Enquanto as filhas, à semelhança do séquito de abelhas obreiras em seu redor, têm pais, os filhos desenvolvem-se a partir de ovos não fecundados. À esquerda da abelha-mestra, larvas brancas repousam no fundo de favos individuais.
Fotografia de Konrad Wothe, Minden Pictures/National Geographic Creative

Shepherd e a equipa da Universidade de Southampton efetuaram experiências iniciais para estudar as repercussões possíveis na aprendizagem, memória e movimentação das abelhas melíferas. Os resultados, divulgados este verão na revista Scientific Reports, são preocupantes. As abelhas melíferas expostas a campos eletromagnéticos de baixa frequência, como aqueles produzidos pelas linhas de tensão elétrica, são recoletoras menos eficientes e voam de forma mais errática.

Embora Shepherd advirta que estes resultados estão longe de ser conclusivos, eles indicam que a poluição eletromagnética por ação humana pode dificultar a saída das abelhas da colmeia. As notícias não são, pois, animadoras para as abelhas obreiras que têm a responsabilidade de alimentar os irmãos esfomeados e os zângãos à procura das zonas de congregação.

A vida de solteiro de um zângão pode parecer trágica, mas os machos desta célebre espécie matriarcal são vitais para a sobrevivência da colmeia.

A abelha-mestra tem um papel cimeiro no nosso estudo sobre as abelhas melíferas, de tal forma que os machos da abelha melífera são cientificamente designados pelo “sexo negligenciado”, refere Williams. Os entomólogos concentram cada vez mais as atenções nos zângãos para ajudar a explicar os impactos dos vários fatores de stress ambiental nas colónias de abelhas melíferas.

Embora perca o seu endófalo, o zângão pode encerrar o segredo para salvar a abelha melífera. Claro que ajudaria se os humanos fossem melhores companheiros.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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