Encontrada Uma Nova Espécie de Peixe de Cores Néon

O pequeno peixe de cores vibrantes foi encontrado numa ilha de recife do Brasil e foi batizado com o nome da deusa grega do amor.sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Em pleno Oceano Atlântico, a centenas de metros de profundidade, a deusa grega do amor vive no corpo de um deslumbrante peixe de coral.

Num novo estudo publicado na terça-feira em ZooKeys, os investigadores da Academia de Ciências da Califórnia descreveram uma nova espécie de Anthias, um tipo de peixe de recife muito comum, batizado Tosanoides aphrodite ou Aphrodite anthias. A criatura marinha, de tons rosa e amarelo, deixou os investigadores de tal forma inebriados, ao descobrirem-na durante um mergulho em águas profundas, que nem sequer se aperceberam da presença de um tubarão-albafar, que avançava na sua direção acima das suas cabeças.

“Esta criatura é, sem dúvida, o peixe colorido mais espetacular que alguma vez descrevi”, afirma num email Luiz Rocha, um ictiólogo da Academia de Ciências da Califórnia.

O Aphrodite anthias é também o único peixe do género encontrado no Atlântico. Todos os outros peixes do género Tosanoides, incluindo o peixe havaiano batizado com o nome presidencial de Tosanoides obama, vivem no Oceano Pacífico.

UM AMOR DIFÍCIL

Até ao momento, o Aphrodite anthias foi encontrado apenas nas águas que banham o arquipélago de São Pedro e São Paulo, o qual integra um conjunto de ilhas inóspitas e isoladas perto da zona cêntrica do Oceano Atlântico, a cerca de 930 quilómetros nordeste da costa do Brasil.

No verão de 2017, Rocha e o seu colega Hudson Pinheiro deslocaram-se às ilhas e mergulharam a quase 120 metros de profundidade para estudar um recife. Num desses mergulhos, no final de junho, os dois homens aperceberam-se de um brilho em tons de rosa e amarelo no cantos e fendas do recife. Um olhar mais atento revelou um peixe impressionante, com cerca de sete centímetros de comprimento, que os observava. Durante o resto do dia, a dupla multiplicou-se em esforços para capturar espécimes do peixe colorido, com o palpite de que tinham descoberto uma nova espécie de peixe.

No total, Pinheiro e Rocha capturaram três machos e duas fêmeas adultos, bem como duas fêmeas juvenis. As diferenças entre machos e fêmeas eram evidentes: o rosa-choque dominava nos machos.

Pela sua pequena dimensão, isolamento e localização relativamente às principais correntes oceânicas do Atlântico, as ilhas eram o laboratório natural perfeito para estudar a expansão da vida em terra e no mar. Desde 1799 que o arquipélago de São Pedro e São Paulo era visitado, regularmente, por cientistas, incluindo Charles Darwin, que fez nota da biodiversidade marinha, na visita que fez aos arquipélagos em 1832. “Os tubarões e os homens do mar debatiam-se constantemente para ver quem ficava com a maior fatia da presa apanhada nas linhas de pesca”, escreveu mais tarde em A Viagem do Beagle.

Desde 1998 que o Brasil mantém um pequeno centro de pesquisa nas ilhas, dando aos cientistas mais oportunidades para estudar os recifes de coral mesofóticos, que habitam em águas com profundidades entre cerca de 30 a 150 metros. Apesar de se situarem na zona crepuscular do oceano, estes recifes são notavelmente diversos, à semelhança dos seus parentes mais conhecidos que vivem em águas pouco profundas. Estudos anteriores revelaram que sete das espécies de peixes de recifes, que habitam nas águas do arquipélago de São Pedro e São Paulo, não se encontram em nenhum outro canto do planeta. O Aphrodite anthias é a oitava espécie.

“A beleza do Aphrodite anthias encantou-nos quando o descobrimos, tal como a beleza de Afrodite encantou os antigos deuses gregos”, escreveu a dupla de investigadores.

Pinheiro, o autor principal do estudo, afirma que espera que o Aphrodite anthias atraia mais atenção para os recifes mesofóticos. No início deste ano, um grupo de cientistas marinhos, no qual se incluíam Pinheiro e Rocha, sublinharam na revista Science que, apesar de se encontrarem a grandes profundidades, estes recifes enfrentam várias ameaças que decorrem da ação humana, incluindo a poluição de lixo, a sobrepesca e as alterações climáticas. Quando mergulharam no arquipélago de São Pedro e São Paulo em 2017, Rocha e Pinheiro confrontaram-se, a grande profundidade, com lixo e equipamento de pesca que repousavam sobre os recifes, que são o refúgio do Aphrodite anthias.

“Há uma biodiversidade completamente diferente, que se esconde naqueles recifes, e em muitas regiões do planeta existem registos de que estamos a destruir estes habitats”, afirma Pinheiro.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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