Encontrados Químicos do Plástico em Golfinhos Selvagens

Estudos antigos associaram substâncias químicas do plástico, conhecidas por ftalatos, a certas formas de cancro e dificuldades reprodutivas.quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Os golfinhos-roazes da baía de Sarasota, nos Estados Unidos, são conhecidos pelo seu trato amigável e personalidade curiosa e atraem inúmeros turistas. Mas estudos recentes revelam que os golfinhos não conseguem manter-se a salvo dos compostos químicos produzidos pelo Homem, que se acumulam no seu organismo, com eventuais impactos na sua saúde.

Um estudo publicado na semana passada na revista American Geophysical Union revelou a presença de ftalatos no organismo dos golfinhos-roazes. Os ftalatos são uma classe comum de aditivos químicos que integram a composição de muitos dos objetos que preenchem as nossas casas, como por exemplo plásticos, cosméticos e tintas.

Entre 2016 e 2017, os investigadores da Faculdade de Charleston e da Sociedade Zoológica de Chicago recolheram amostras de urina de 17 golfinhos-roazes encontrados na baía de Sarasota. A análise à urina permitiu aos investigadores verificar que as substâncias químicas ainda se mantinham no interior do organismo destes animais três a seis meses depois de terem contactado com estas substâncias.

Esta é a primeira vez que é detetada a presença destas substâncias químicas em golfinhos selvagens. Os animais nesta zona tornaram-se conhecidos dos investigadores, que estudam estas criaturas há mais de 40 anos.

“Não nos surpreendeu a exposição destes golfinhos à presença de ftalatos, mas surpreendeu-nos, sim, os níveis identificados”, afirma a coordenadora do estudo Leslie Hart.

Pelo menos uma forma de ftalato foi identificada em 71 por cento do conjunto de golfinhos analisados.

Dado que esta foi a primeira vez que os investigadores usaram testes de urina, Hart refere que a equipa ainda está a definir o que pode ser entendido como normal ou anormal. Mas alguns dos golfinhos apresentavam metabolitos de ftalato comparáveis a concentrações identificadas nos seres humanos, afirma Hart, o que é surpreendente, tendo em conta que os humanos contactam presumivelmente de forma mais assídua com objetos, tais como plásticos e cosméticos, que integram ftalatos na respetiva composição.

Embora os cientistas tenham hoje uma noção mais clara do tipo de substâncias químicas presentes nos golfinhos, o estudo levanta questões inquietantes sobre a forma de contacto destes animais com os ftalatos e os eventuais impactos na sua saúde.

FTALATOS NO AMBIENTE

Os ftalatos são usados para tornar o plástico e o vinil mais macios e flexíveis e, por conseguinte, a presença destas substâncias químicas estende-se à maioria dos bens de consumo comercializados à escala mundial. Antes de 1999, os ftalatos estavam presentes em objetos da primeira infância, como as chuchas e as tetinas, tendo sido posteriormente banidos da composição de alguns brinquedos infantis. A Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos sublinha que ainda se sabe muito pouco sobre o impacto dos ftalatos na saúde, embora a sua presença tenha sido identificada na água, no solo e na atmosfera.

Segundo Tara Cox, especialista em golfinhos da Universidade Estatal de Savannah, que não participou neste estudo, os golfinhos são geralmente “ótimas sentinelas do ecossistema”, pela posição elevada que ocupam na cadeia alimentar, pela sua longa esperança média de vida e por nadarem habitualmente ao largo da costa de áreas urbanas.

“Estas criaturas dão-nos informações sobre aquilo que se passa no ambiente e que é passível de afetar os humanos”, sublinha.

Um estudo sobre um composto químico de ftalato revelou que a exposição de longa-duração de um grupo de ratazanas a uma variante específica de ftalato conduziu ao desenvolvimento de um tipo de cancro do fígado e a dificuldades reprodutivas.

O trabalho de Hart faz parte de um projeto em curso para estudar os impactos dos ftalatos na saúde e a forma como estes se disseminam no ambiente. Hart também desenvolveu estudos com estudantes universitários para compreender os comportamentos que aumentam o risco de exposição.

Em alguns dos ensaios efetuados, a alteração dos hábitos de consumo dos estudantes, que abdicaram, a pedido, do uso de champôs e geles com ftalatos na sua composição, revelou uma diminuição mensurável dos vestígios químicos encontrados nos corpos desses mesmos estudantes.

Embora os cientistas ainda tenham muito para aprender sobre os riscos dos ftalatos, Hart espera que a identificação das principais fontes destas substâncias químicas possa permitir reduzir a exposição e os riscos associados à saúde.

“É possível observar um efeito em cascada no ambiente”, diz Hart relativamente à necessidade de diminuir a procura dos consumidores.

COMO É QUE OS GOLFINHOS ACUMULAM ESTAS SUBSTÂNCIAS QUÍMICAS?

A próxima fase do estudo centrar-se-á na identificação dos processos de metabolização dos ftalatos nos golfinhos da baía de Sarasota. Os cientistas tentam também perceber de que forma estas substâncias químicas se infiltram no corpo dos golfinhos. Foram detetados vestígios de ftalatos em determinados organismos aquáticos, nomeadamente em algas, alguns peixes e alguns invertebrados, pelo que é possível que os golfinhos se alimentem de animais que contenham estas substâncias no organismo.

À medida que se deteriora, o plástico também liberta ftalatos, contaminando a água, e as águas que escoam dos centros urbanos podem conter vestígios de químicos que se infiltram no oceano.

Na ausência de testes a animais noutras regiões, Hart não pode afirmar que estejamos perante um problema generalizado, mas refere que é expectável que outras populações de golfinhos apresentem vestígios de substâncias químicas análogas.

Tara Cox concorda e reitera que é muito provável que o problema não se circunscreva à Flórida. “Qualquer lugar que tenha seres humanos nas suas imediações, será afetado pelo escoamento de águas”, afirma.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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