Este Pequeno Peixe Consegue Reconhecer-se ao Espelho.

O bodião-limpador junta-se ao Homem, ao chimpanzé e ao golfinho e a um universo seleto e restrito de animais, que passaram num teste de inteligência de longa-duração. terça-feira, 18 de setembro de 2018

É quase automático. Se repararmos numa mancha quando nos olhamos ao espelho, apressamo-nos a limpá-la quase de imediato. Parece simples, mas apenas algumas espécies particularmente inteligentes, tais como os orangotangos e os golfinhos, partilham desta capacidade com os humanos, sendo que os humanos não se reconhecem a si mesmos ao espelho até às primeiras fases da infância.

Mas hoje, surpreendentemente, uma nova investigação sugere que o bodião-limpador, um pequeno peixe tropical de recife, consegue reconhecer-se a si mesmo, sendo o primeiro peixe capaz de o fazer.

Os cientistas usam desde há muito um teste de espelho para avaliar se um animal tem capacidade de autorreconhecimento visual e eventualmente autoconsciência. A consciência de si mesmo implica um conhecimento funcional dos próprios estados mentais, como pensamentos e emoções, juntamente com uma perceção do próprio aspeto físico. O autorreconhecimento, pelo contrário, está limitado a esta última perceção. Não é ainda claro em que medida o autorreconhecimento implica a autoconsciência.  

Ao fazer um ponto ou uma mancha num animal e ao colocá-lo, posteriormente, diante de um espelho, os investigadores podem observar se esse animal investiga ou interage com a mancha no seu próprio corpo. Passar no teste sugere que esse animal compreende que o reflexo da mancha é uma representação da mancha feita no seu próprio corpo e não apenas outro indivíduo da sua espécie.

Apenas as espécies não humanas consideradas mais cerebrais passaram no teste do espelho: grandes primatas, golfinhos, elefantes e pegas-rabudas. Mas o novo estudo, publicado recentemente online em BioRxiv.org, desafia a ideia de que a autoconsciência é apanágio de uma elite de mamíferos e aves de sangue quente, intelectualmente dotada.

O estudo mantém-se ainda numa fase preliminar e não foi objeto de revisão por outros cientistas, mas, a confirmarem-se as descobertas, levanta-se a possibilidade da consciência avançada do eu ter uma amplitude muito maior no reino animal do que aquela que os cientistas supunham.

A equipa de investigação, coordenada por Masanori Kohda, um biólogo da Universidade da Cidade de Osaka, no Japão, já tinha feito o teste do espelho com espécimes da família de peixes de água doce Cichlidae, que se pensa compartirem algumas das bases de inteligência observadas noutros animais que passaram no teste do espelho.

“Alguns peixes da família Cichlidae são tão inteligentes que distinguem os indivíduos de uma família, à semelhança dos primatas. Um verdadeiro reconhecimento individualizado”, afirma Kohda.

Mas os peixes não se reconheceram a si mesmos diante do espelho.

A equipa dirigiu então as atenções para outro candidato: o bodião-limpador, Labroides dimidiatus. Este peixe, cujo comprimento não excede o de um dedo humano, habita as águas quentes e pouco profundas dos recifes do Indo-Pacífico e deve o seu nome ao papel singular que tem no recife: limpar o corpo de outros peixes, geralmente de maior dimensão, removendo pele morta, muco e parasitas, dos quais se alimenta.

O bodião-limpador tem fama de pensador sofisticado entre os seus irmãos de barbatana, fazendo uso de vários expedientes para manipular os seus clientes e maximizar o aporte de nutrientes, enquanto contribui para a felicidade dos outros peixes. O bodião-limpador parece seguir o rasto de centenas de animais diferentes e manter as relações que desenvolve com cada um. Esta pequena criatura contribui até para melhorar a inteligência de outros peixes através dos seus serviços de limpeza, ao remover parasitas incómodos ou nocivos.

UM PRIMEIRO VISLUMBRE

Como é que estes peixes inteligentes se sairiam no teste do espelho?

Para o descobrir, Kohda e a sua equipa colocaram dez bodiões-limpadores selvagens em tanques individuais onde foi instalado um espelho. Ao início, muitos dos peixes reagiram com agressividade ao reflexo da sua própria imagem, envolvendo-se numa espécie de luta com a boca, aparentemente por percecionarem esse reflexo como sendo outro bodião-limpador a invadir o seu espaço.

Mas, eventualmente, este comportamento deu origem a algo ainda mais interessante. Os peixes começaram a comportar-se de forma estranha, aproximando-se dos seus reflexos de cabeça para baixo ou avançando rapidamente em direção ao espelho, detendo-se no preciso momento antes de o tocar. Nesta altura e segundo os investigadores, os bodiões-limpadores estavam em fase de “testes de emergência”, interagindo diretamente com os seus reflexos e talvez começando a perceber de que estavam a olhar para si mesmos e não para outros bodiões-limpadores.

Quando os peixes começaram a mostrar-se à-vontade com os espelhos, os investigadores injetaram um gel castanho inócuo sob a pele de oito dos peixes. Mais importante ainda, algumas das injeções foram feitas em zonas sobre as quais os bodiões-limpadores não tinham alcance de visão sem um espelho, como por exemplo na zona da garganta. Quando os peixes viram os seus reflexos e as manchas na pele, pareciam querer raspá-las das superfícies afetadas, provavelmente identificando a mancha como um parasita.

Surpreendentemente, os bodiões-limpadores rasparam as gargantas apenas na presença de um espelho e quando a mancha era denunciada pela presença de cor. Os peixes injetados com gel incolor não tentaram raspar a mancha, nem tão-pouco tentaram fazê-lo aqueles que tinham sido injetados com gel colorido, mas que não dispunham de espelho. Estes últimos só tentaram raspar a mancha, quando foram colocados diante de um espelho, sugerindo que identificaram os seus reflexos como os do seu próprio corpo.

Quando Kohda observou este comportamento, ficou perplexo.

“Quando observei pela primeira vez este comportamento nas imagens de vídeo, fiquei tão estupefacto que caí da cadeira”, afirma.

Os bodiões-limpadores viam-se ao espelho antes e depois de rasparem a mancha, como se inclinassem os corpos para ver melhor e quisessem ter a certeza de que tinham retirado o parasita.

UMA APROVAÇÃO PROVISÓRIA

Redouan Bshary, um biólogo da Universidade de Neuchâtel, na Suíça, que estuda o comportamento e a capacidade cognitiva do bodião-limpador, ficou impressionado com as descobertas e assevera que os movimentos dos bodiões-limpadores em frente ao espelho são verdadeiramente únicos.

“Eu nunca vi um bodião-limpador a nadar de costas, assim como nunca vi um bodião-limpador a raspar a garganta”, afirma Bshary, que não participou no estudo. “Estes comportamentos são inéditos e, aparentemente, estarão ligados ao espelho.”

Bshary também elogia o trabalho dos investigadores por estudarem os bodiões-limpadores durante um período tão alargado no tempo, sublinhando já ter observado o comportamento de luta com a boca que os bodiões-limpadores travam com os espelhos numa primeira abordagem, e que terminar as observações naquela fase é efetivamente redutor.

Mas Gordon Gallup, um psicólogo evolutivo da Universidade Estatal de Nova Iorque, em Albany, e inventor do teste do espelho, não está assim tão convencido. Gallup defende que a preocupação inerente dos bodiões-limpadores com a presença de ectoparasitas nos corpos dos outros peixes, uma consequência dos seus hábitos de limpeza, pode explicar parte do comportamento.

“Não deveria causar surpresa que estes peixes se detenham durante mais tempo a observar as manchas escuras parecidas com ectoparasitas naquilo que aparenta ser outro peixe, que só pode ser visto num espelho”, diz Gallup.

Gallup acrescenta que as posturas bizarras em frente ao espelho podem ser explicadas pela forma como os bodiões-limpadores aprenderam a manipular aquilo que pensam ser outro peixe no espelho, para que possam ver melhor a mancha.

“Raspar a garganta na zona da mancha pode ser simplesmente uma tentativa de alertar o outro peixe no espelho para a presença de um suposto ectoparasita na sua garganta”, afirma Gallup.

Kohda rebate este argumento alternativo, sublinhando que ele não explica a razão por que os bodiões-limpadores se olharam ao espelho depois de terem raspado a garganta para retirar a mancha.

“Apenas a hipótese de que o bodião-limpador reconhece o reflexo no espelho como sendo o seu próprio corpo poderá explicar todas as nossas conclusões”, afirma Kohda.

CONSCIÊNCIA DE SI MESMO OU ALGO MAIS SIMPLES?

Se o bodião-limpador passou efetivamente no teste do espelho, isso significa que tem consciência de si mesmo? Possivelmente, sim. No entanto, também pode significar que o próprio teste não nos revela aquilo que supomos que revela.

Para Michael Platt, um neurocientista cognitivo da Universidade de Pensilvânia, que não esteve envolvido no estudo, o trabalho é “fascinante e foi muito bem conduzido”.

Platt afirma que o estudo prova ou que o número de animais com consciência de si mesmo é maior do que supúnhamos, ou que o teste do espelho tem pouco a ver com o reconhecimento do eu. Talvez aprender a usar um espelho seja apenas uma forma de ajudar os animais a conhecer os limites do seu próprio corpo.

“É impossível saber quais destas duas conclusões está correta, dado que nenhum animal não humano pode dar um testemunho na primeira pessoa ou partilhar connosco as suas próprias experiências”, afirma Platt.

E se o teste revela realmente esta noção abstrata de autoconsciência? Tal significaria que os peixes – e eventualmente tantos outros animais que raramente supomos que possam ter vidas interiores –, podem ter mentes surpreendentemente semelhantes às nossas.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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