Pode o Oceano Alimentar Uma População em Crescimento?

As populações de peixes saudáveis podem ser a chave para alimentar 10 mil milhões de pessoas, se a sua gestão for feita de forma adequada.terça-feira, 11 de setembro de 2018

Se a tendência de crescimento da população se mantiver, os especialistas estimam que o mundo necessitará do dobro da produção de alimentos em 2050, e esses mesmos especialistas defendem que a solução está no peixe.

“Estamos a esgotar as nossas opções em terra”, afirma Vera Agostini da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, na sigla inglesa FAO. “Não há muito mais recursos que possamos obter do planeta, pelo que a atividade piscatória e a aquicultura terão uma importância crítica no futuro.”

Em 2016, a indústria de pesca gerou cerca de 171 milhões de toneladas de peixe para consumo. Em 2030, estima-se que esse número atinja os 201 milhões de toneladas.

Para alcançar esse número, a indústria da pesca enfrenta um vasto conjunto de questões ambientais e interesses económicos, e os defensores afirmam que nem toda a pesca pode compensar o esforço.

QUAL É O PANORAMA ATUAL DA INDÚSTRIA DA PESCA?

No início deste verão, a FAO divulgou um documento exaustivo sobre o panorama atual da indústria da pesca, sob o título A Situação Atual da Atividade Piscatória e da Aquicultura. O documento traça a narrativa de uma indústria que se espera que venha a ter um papel crítico na satisfação das necessidades de consumo alimentar.  

Enquanto alimento, os peixes podem ser uma fonte essencial de proteínas. Bastam 150 gramas de peixe por dia para assegurar o aporte proteico necessário ao adulto médio. Nos países em desenvolvimento, com economias e fortunas pessoais em franco crescimento, como a China, o consumo de peixe disparou. Em 2016, a Europa, o Japão e os Estados Unidos consumiram ligeiramente abaixo da metade do volume de peixe capturado à escala mundial. Em 2015, a Ásia consumiu dois terços do volume de peixe capturado no planeta.

Uma população em crescimento e cada vez mais endinheirada justificam o aumento da procura de alimentos ricos em proteínas e nutrientes. Um estudo de 2015 publicado na revista Food Security revelou que o peixe representava 10 por cento da segurança alimentar ao nível mundial.

Os autores do estudo, alguns deles antigos analistas da FAO, defendem que o peixe deve ser cada vez mais “incluído no debate geral e nas políticas futuras em matéria de segurança alimentar e nutrição”.

PESCAR PEIXE EM ALTO MAR

Outros investigadores revelaram algum ceticismo relativamente à forma como o peixe se pode tornar numa fonte abundante de alimento, em particular o peixe capturado em alto mar.

Um estudo publicado na segunda semana de agosto na revista Science Advances revelou que o volume de pesca em alto mar – e por alto mar deve entender-se qualquer região situada a 320 quilómetros de qualquer costa –, não tem expressão, quando se trata de assegurar a segurança alimentar à escala planetária.

“A maioria do peixe é vendido como um produto alimentar de luxo”, afirma Enric Sala, ecologista e explorador da National Geographic, que assinou a autoria do estudo. “Os pequenos operadores locais não pescam em alto mar. Este tipo de pesca é desenvolvido por frotas industriais de pesca.”

Isto porque, entre o combustível e o custo da mão-de-obra, a pesca em alto mar é onerosa. Num outro estudo publicado por Sala em Science Advances, em junho último, uma equipa de investigadores descobriu que cerca de 54 por cento da pesca em alto mar não seria rentável, se não fosse subsidiada por dinheiros públicos.

Os navios de pesca são geralmente oriundos de países com capacidade financeira para custear frotas habilitadas para percorrer vastas extensões de mar. Cerca de 85 por cento da pesca em alto mar é assegurada pela China, Espanha, Taiwan, Japão e Coreia do Sul.  

TRÊS PARQUES MARINHOS PROTEGEM UMA BIODIVERSIDADE FASCINANTE

Não é apenas o alto mar que é dominado pelos países ricos. No primeiro dia deste mês, um outro estudo publicado na Science Advances confirmou que, até mesmo fora do contexto do alto mar, estes cinco países dominam a pesca industrial no seu conjunto.

Os críticos da pesca industrial, como Sala, defendem que a FAO deveria colocar o enfoque na atividade piscatória de pequena escala e não na pesca industrial, quando se trata de definir estratégias para alimentar a população mundial.

UM INTERESSE CRESCENTE NA AQUICULTURA

Ao contrário do peixe selvagem, o peixe de aquicultura é criado em tanques de água doce ou salgada.

Em 2014, o Banco Mundial divulgou um relatório, no qual se afirmava que, em 2030, cerca de 62 por cento do peixe para consumo será produzido em aquicultura.

No relatório de 2016, a FAO revelou que a aquicultura representa já 47 por cento do volume de peixe consumido.

Um estudo da revista Nature, publicado em agosto do ano passado, descreveu um panorama ambicioso que apontava o aumento da atividade aquícola como resposta à crescente procura mundial de peixe, sem depauperar as populações de peixes que habitam os oceanos.

Em certas zonas do oceano, o estudo identificou áreas com cerca de 200 metros de profundidade, que poderiam ser aproveitadas para criar determinados tipos de peixes. Por via da otimização das áreas disponíveis estimadas, os autores do estudo concluíram que poderiam ser produzidas, anualmente, cerca de 15 mil milhões de toneladas métricas de peixe.

TERÁ IMPACTO NO AMBIENTE?

As perspetivas de apostas estratégicas, mais ou menos realistas, que recaem sobre o setor da pesca preocupam alguns ativistas ambientais.

No mar, o aumento do número de peixes selvagens capturados conduziu, em certos casos, à sobrepesca, tendo noutros depauperado unidades populacionais completas. A aplicação de leis que regulam o setor da pesca, delimitando as áreas de atividade e estabelecendo totais admissíveis de captura de espécies, tem-se revelado eficaz, segundo a Administração Nacional para a Atmosfera e os Oceanos, na sigla inglesa NOAA. Em 2017, a organização publicou um relatório que indicava que os números das populações de peixes atingidas pela sobrepesca, em águas norte-americanas, mantinham-se baixos. Segundo a NOAA, estes indicadores traduzem uma melhoria significativa comparativamente à situação da pesca descrita no país há 20 anos, quando várias espécies de peixes comuns eram capturadas até à extinção.

As redes de pesca também podem ter impactos negativos no ambiente. Algumas aprisionam animais, como é o caso dos mamíferos marinhos. As redes de arrasto de fundo tendem a destruir habitats, arrancando, por vezes, corais.  E as velhas redes de pesca, esquecidas ou largadas ao abandono no mar, são uma das principais fontes de poluição dos oceanos.

As Nações Unidas pretendem aumentar o número de áreas protegidas no oceano. Embora a pesca seja autorizada em certas áreas marinhas protegidas, noutras a pesca está totalmente interdita, denunciando contendas passadas entre a indústria e o ativismo ambiental, dois atores em cena competindo pelo mesmo espaço. Tanto Sala, como Agostini esperam que as áreas marinhas protegidas possam ser usadas como instrumento para reabilitar a saúde das populações de peixes adjacentes, tornando-as mais lucrativas.

Os peixes de aquicultura, enquanto alternativa à captura de peixes selvagens, nem sempre são a solução simples e mágica descrita por muitos.

Algumas espécies de peixes lidam melhor com o confinamento em espaços pequenos do que outras, e aquelas que não lidam revelam maior propensão para desenvolver e disseminar doenças.

Nos tanques de aquicultura em alto mar, as estruturas com defeito ou as tempestades podem facilitar a fuga de um espécime doente, infetando as populações de peixes que habitam nas proximidades. Os peixes criados nos viveiros em terra também estão expostos ao risco de doenças.

Segundo Agostini, a FAO tenciona, à luz de uma visão otimista, promover o desenvolvimento de um conjunto de práticas sustentáveis no âmbito dos oceanos, embora faça recair sobre o peixe uma importância desmedida, apontando-o como uma das principais fontes alimentares nos próximos 18 anos.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês em nationalgeographic.com.

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