Podem as Baleias da Era Moderna Sobreviver aos Humanos?

Hoje, nem sequer sabemos quantas espécies de baleias existem, pelo que será muito difícil adivinhar quais serão as espécies que podem vingar no tempo e aquelas que estão condenadas à extinção.segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Nick Pyenson, um explorador da National Geographic e autor do livro Spying on Whales, vê-se a si mesmo como um detetive de baleias.  Enquanto paleontólogo, Pyenson passa a vida a viajar pelo mundo, analisando ossadas de baleias em lugares tão remotos como o deserto de Atacama, no Chile. Os fósseis ajudam a contar a longa história das baleias, desde as espécies extintas, que viveram inicialmente em terra, aos cetáceos que conhecemos hoje. E, através do seu passado, podemos tentar assegurar de que estes seres magníficos sobrevivem às muitas ameaças que enfrentam no mundo de hoje.

Quando a National Geographic entrevistou Nick Pyenson em Washington D.C., onde exerce as funções de curador dos Fósseis dos Mamíferos Marinhos no Instituto Smithsonian, o científico explicou como uma espécie primitiva de baleia se assemelhava mais a um cão do que a uma criatura marinha. Pyenson falou também sobre as descobertas que fez a bordo de um navio baleeiro islandês e sobre a forma como as alterações climáticas estão a contribuir para a sobrevivência de algumas espécies de baleias e a conduzir à extinção de outras.

Quando se fala em baleias, pensamos imediatamente num ser gigante que habita as águas do oceano. Mas as primeiras baleias – fiquei surpreendido quando descobri –, eram criaturas terrestres do tamanho de um pastor alemão. Fale-nos sobre o Pakicetus e de que forma este mamífero terrestre evoluiu para a baleia dos tempos modernos.

Esse é o aspeto mais interessante da longa história das baleias: elas nem sempre viveram num ambiente aquático. E essa é, em parte, a razão do meu entusiasmo, enquanto biólogo evolutivo, quando acedo ao arquivo de fósseis, que nos fala das transformações anatómicas que ocorreram no processo de transição da vida em terra para o mar.

O Pakicetus era um mamífero terrestre, com quatro patas, com a dimensão de um lobo, que possuía características anatómicas muito específicas, que o ligam aos cetáceos da era moderna. Poder-se-á falar numa espécie de baleia primitiva, que só chegou ao conhecimento da comunidade científica nos anos 80. Os anatomistas da Grã-Bretanha do século XIX sabiam que as baleias eram mamíferos e, provavelmente, parentes próximos de uma vasta ordem de animais ungulados, na qual se incluem hipopótamos, porcos, vacas, veados, girafas e até mesmo cetáceos. Mas só nos últimos 40 anos é que a comunidade científica tomou conhecimento de que o antepassado das baleias era um animal que vivia em terra, nas margens de um vasto oceano de águas pouco profundas, cujo corpo se assemelhava ao de um animal terrestre, mas cujo crânio alongado possuía características muito específicas, que o aproxima do crânio das baleias.

O Pakicetus enquadra-se na bestialidade destas baleias primitivas, que passaram por vários modos ecológicos. Algumas podiam assemelhar-se mais a um cão ou um lobo, outras parecer-se-iam mais com lontras ou leões-marinhos, mas todas estas variações acabaram por ficar condenadas à extinção. Essas derivações não deram frutos, mas houve uma que deu origem às baleias que conhecemos na atualidade, e foram as espécies que resultaram dessa derivação aquelas que se tornaram totalmente aquáticas, afastando-se de terra. Essa derivação ter-se-á subdividido nas 80 prováveis espécies de cetáceos que conhecemos hoje e não apenas as de grande porte. Os golfinhos e os botos descendem todos dessa baleia primitiva, que passou a habitar o meio aquático em permanência.

Outra afirmação que me saltou à vista foi a de que as baleias têm “culturas”, e de que estas assentam na sua notável capacidade de ecolocalização. Explique-nos esta ligação.

A ecolocalização não está relacionada com a cultura. Podemos entendê-la como um sistema sensorial, à semelhança de qualquer outro, como o olfato, a audição ou a visão. É a forma como um grupo de baleias navega abaixo da superfície da água e uma ferramenta muito útil para comunicar através de uma série de estalidos.  Há uma vasta diversidade de sons que as baleias podem emitir a partir de uma estrutura anatómica, que lhes confere a capacidade de ecolocalização: um conjunto complexo de seios nasais, músculos e uma grande massa de gordura, que assenta na parte superior do crânio, sob uma base côncava, muito comum a várias baleias. Quer seja uma orca, um boto ou um cachalote, todas elas têm esta estrutura de gordura, que atua como uma espécie de lente acústica.

Os estalidos e os sons concentram-se nesta estrutura de gordura situada no interior da cabeça, na parte superior do crânio, sendo emitidos, posteriormente, para o exterior. São frequências altas, que rebatem nos elementos externos, sejam eles peixes, desfiladeiros subterrâneos ou objetos metálicos. Essas frequências são devolvidas à baleia, que, pensamos nós, embora não tenhamos a certeza, as capta com a mandíbula, que está ligada através de uma almofada de gordura ao crânio. Esta configuração anatómica, em que o som é emitido pela zona superior da cabeça e recebido pela mandíbula, reflete a forma como estes animais percecionam o mundo acusticamente.

Exatamente porque estamos no domínio das altas frequências, estes animais recolhem rapidamente informação sobre o ambiente em seu redor, com uma boa resolução. As baleias são capazes de identificar, a grandes distâncias, objetos do tamanho de uma chave de fendas. As intensidades também podem ser elevadas. Os cachalotes, que são as baleias de maior porte com capacidade de ecolocalização, têm uma notável aptidão para identificar e localizar objetos através de ultrassons.

Desde que temos conhecimento disto, as pessoas interrogam-se sobre os conteúdos destas manifestações, que são numerosas, mas, sem um contexto, é difícil perceber o teor da informação transmitida e qual o seu significado. É um grande mistério. Para nós, torna-se claro que as baleias interagem entre si através do diálogo, trocando uma série de informações. Mas qual é o conteúdo dessas informações? É essa a razão que torna o estudo das baleias tão estimulante. Há ainda tantas perguntas para as quais não encontrámos resposta. E quanto mais respostas encontramos, mais ainda há por descobrir.

Escavou fósseis de baleias nos quatro cantos do mundo, mas um dos locais que mais entusiasmo despertou deverá ter sido Cerro Ballena, no Chile. Disse que o local é “uma história de mistério ecológico”. Desvende-nos o caso, Sherlock.

Cerro Ballena será certamente o lugar mais improvável para descobrir fósseis que uma pessoa possa imaginar.  Tinha sido assente uma faixa de rodagem da autoestrada pan-americana, que se estende desde a América do Sul ao Alasca, e para tal tinha sido feito um corte numa formação rochosa do deserto de Atacama. Quando acrescentaram uma segunda faixa de rodagem para guardar equipamento mineiro, os nossos colegas no local aperceberam-se de que os ossos de baleia fossilizados nas paredes laterais do corte, que tinham sido descobertos entretanto, tinham outro significado. Acabámos por descobrir esqueletos atrás de esqueletos de grandes baleias e de outras criaturas marinhas.

As baleias estão espalhadas por uma área equivalente a dois campos de futebol ingleses. Alguns esqueletos surgem sobrepostos, outros não, mas a distância que os separa é de escassos metros. A primeira pergunta que nos ocorre é: “O que é que se passa aqui?”. E os esqueletos não se limitam às baleias. Existem também ossadas de outras espécies de animais marinhos de grande porte, incluindo focas, golfinhos extintos e até mesmo espécies de preguiça, que tinham evoluído com adaptações aquáticas.

Tudo apontava para a proliferação de algas como a causa provável. Estas toxinas microscópicas produzem substâncias venenosas, tal como as conhecemos hoje. Acreditamos que este fenómeno tenha acontecido em Cerro Ballena em virtude da sua configuração geológica. A erosão de sedimentos ricos em ferro, com origem nos Andes em direção à costa, criou as condições ideais para a proliferação destas algas tóxicas, provocando a morte de uma multiplicidade de criaturas marinhas no passado geológico. São estes os ingredientes de uma história de mistério ecológica. Tivemos de inferir o enredo com base nos elementos de prova disponíveis.

Também passou algum tempo, com os joelhos mergulhados em sangue, a bordo de um navio baleeiro islandês a serrar queixos das baleias. Porquê queixos? E como se sentiu ao trabalhar com uma indústria que colocou as baleias à beira da extinção?

A pesca da baleia faz parte da cultura humana há milhares de anos e ainda se mantém nos dias de hoje. A pesca da baleia continua a ser uma realidade nos Estados Unidos, sobretudo para muitos povos indígenas do Alasca, um facto que muitas pessoas tendem a esquecer. Para muitas das Primeiras Nações, a pesca da baleia é vista como uma parte da sua cultura.  Mas, ainda assim, o número de baleias mortas é consideravelmente superior no Japão, na Islândia e na Noruega, sendo, no entanto, inferior ao número de baleias que morrem arrastadas por embarcações ou enredadas em redes de pesca. As atenções tendem a convergir para a pesca da baleia por força da violência dos métodos usados, com recurso a arpões lançados a partir de baleeiros. Mas os impactos indiretos pela simples circunstância das baleias viverem no planeta Terra, na era dos humanos, são, de longe, muito maiores. Centenas de milhares de baleias morrem todos os anos, se comparadas com os escassos milhares de espécimes que morrem à mercê da indústria da pesca da baleia.

O Japão designa a pesca da baleia como pesca científica. Na Islândia e na Noruega, a pesca da baleia é vista como pesca comercial e, por conseguinte, em nada diferente dos outros tipos de pesca, seja a do atum ou a do salmão. Por motivos e circunstâncias diversos, fomos autorizados a visitar um centro de pesca da baleia na Islândia. Quando se tem acesso a 20 pessoas, com facas de esquartejar e equipamentos para desmontar as peças da carcaça de uma baleia, tem-se uma oportunidade única de poder estudar, em grande escala, a anatomia de uma baleia. Por isso, foi um momento importante para nós, cientistas, para procurar respostas às perguntas que tínhamos sobre as ligações entre a ecologia e a anatomia destes animais.

Tendo em consideração os milhões de baleias que foram mortas ao longo do tempo, terão sido poucas aquelas que foram estudadas ao detalhe pelas mãos de anatomistas. E eis que tivemos a sorte de encontrar algo invulgar: a estrutura dos queixos das baleias. Fazendo uso do trabalho de detetive, descobrimos um órgão sensorial que coordenava a forma como as baleias se alimentavam, engolindo de um trago um volume de água saturado de presas. Esta é a forma como a maioria das baleias de grande porte se alimenta, como a baleia-azul, a baleia-comum ou a baleia-jubarte, pelo que a experiência acabou por se revelar muito importante.

A indústria da pesca da baleia acabou por ter um benefício surpreendente: forneceu um conjunto de dados históricos, uma amostra única, sobre as baleias. Fale-nos sobre os estudos científicos conhecidos por Discovery Investigations, levados a cabo nas ilhas Geórgia do Sul e subsidiados pelo governo britânico, e o que revelaram sobre as baleias.  

A pesca da baleia no século XX teve um impacto muito negativo nas populações dos grandes cetáceos. Felizmente, alguns países, que pescavam baleias nas águas do oceano austral, tinham por método documentar todas as operações relacionadas com a atividade. Isso talvez não seja assim tão surpreendente, se pensarmos numa lógica de que esta era uma indústria como outra qualquer. Mas, para se fazer dinheiro, é preciso mostrar retorno e, ao registar a espécie e o tipo de baleia, assim como o local onde esta foi morta, estes países estavam a criar, na verdade, um registo da biodiversidade que caracterizava os oceanos no século XX.

As interrogações que se levantam hoje no domínio da conservação das espécies de baleias estão dependentes daqueles que eram os elementos de base que existiam antes e durante a pesca da baleia no século XX. Não dispomos de qualquer outro registo para além desses elementos. Não se sabe ao certo quantas baleias habitavam os oceanos. Apenas podemos inferir essa e outras questões. A manutenção dos registos era assegurada pelos britânicos através dos estudos científicos Discovery Investigations. Em certos casos, mediam as baleias, o perímetro do corpo, a largura e o comprimento e, por vezes, estimavam o peso. Estes dados são informações valiosas que não teríamos de outro modo.

Escreveu: “As baleias não são o meu destino. Elas são a porta de entrada para uma viagem de descoberta através dos oceanos e no curso do tempo”. Nick, explique-nos o que pretende dizer com esta frase.

Eu estudo as baleias não apenas pelo seu tamanho ou pela complexidade das suas vidas. Todos estes factos são verdadeiros, mas, quando nos interpelam com perguntas científicas sobre a natureza destes seres e as suas origens, apercebemo-nos de que, efetivamente, sabemos muito sobre as baleias, mas também de que há ainda muita coisa que ignoramos. Os cientistas são atraídos para os mistérios quase tanto quanto as outras pessoas e, quando nos apercebemos de que nem sequer sabemos quantas espécies de baleias existem no planeta, sentimos que ainda temos muito trabalho pela frente para compreender a totalidade dos factos sobre as vidas destes seres. E o seu longo passado pode dizer-nos algo sobre o seu futuro.

Ainda assim, o destino das baleias não é algo que seja fácil de prever, porque são tantas e diferentes as formas de vida destes cetáceos. Alguns vivem em redes de rios de água doce, como o golfinho do rio Yangtze, que foi dado como extinto em 2000. A população de vaquitas, Phocoena sinus, uma espécie endémica do Golfo de Califórnia, está a ser dizimada como efeito colateral da pesca ilegal e intensiva de um peixe conhecido por corvinata-totuava, cuja bexiga natatória é altamente rentável nos mercados asiáticos.

A baleia-cinzenta, um cetáceo de maior porte, tende a afirmar-se como uma sobrevivente num mundo em constante mudança, porque a sua ecologia é, naturalmente, mais flexível. Esta espécie de baleia migra através de longas distâncias e, com o degelo no Ártico nos meses de verão, não será de estranhar que venha a percorrer distâncias ainda maiores, alcançando outras latitudes no planeta. Existem relatos de avistamentos de baleias-cinzentas em regiões distantes daquelas que frequentam habitualmente, como o Pacífico Norte. Estes testemunhos indicam-nos que esta espécie, particularmente migratória, está a tirar vantagem das mudanças que estão a acontecer no nosso planeta. Estes são dois exemplos claros de baleias que habitam no planeta Terra na era dos humanos. Algumas poderão desaparecer, outras poderão vingar no tempo.

Esta entrevista foi editada por motivos de extensão e clareza. Teve a contribuição da tradutora Ana Rodrigues.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês em nationalgeographic.com

Continuar a Ler