Recordar o Leão Africano Que Desafiou a Morte

C-Boy, um leão africano icónico, viveu uma vida longa comparativamente à média dos seus congéneres, e era admirado pela sua tenacidade e pelo seu espírito feroz. segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Falecido: Leão adulto macho, aproximadamente 14 anos de idade, com juba escura, conhecido por investigadores e leitores da revista da National Geographic como C-Boy. Motivo da morte: causas naturais.  O seu corpo inerte foi descoberto por um guia do Parque Nacional do Serengueti, na Tanzânia, no início de junho de 2018. A sua morte foi sentida por todos aqueles que o conheciam e liam sobre ele. A sua longevidade e força de carácter eram igualmente admiradas.

A categoria de causas naturais, no caso dos leões africanos, inclui a matança e o caos que dominam o quotidiano entre elementos concorrentes da espécie.  Tal como me disse em tempos Craig Packer, especialista em felídeos, “os outros leões são a primeira causa de morte dos leões, em ambientes sem qualquer perturbação externa”. Isto foi há cinco anos, quando eu e o fotógrafo Mike Nichols, ou simplesmente Nick, estávamos na Tanzânia, a trabalhar no terreno para uma história sobre o comportamento dos leões e a ecologia. C-Boy, um belo macho no seu auge, com uma juba de pontas negras, tornou-se na figura central daquela narrativa, sob o título The Short Happy Life of a Serengeti Lion, porque ele representava a exceção a esta regra mortal.

Vários anos antes, C-Boy mal escapara com vida ao ataque de um grupo composto por três machos, que tentaram em vão eliminá-lo, numa reivindicação de direitos de acasalamento sobre as fêmeas de um bando. Esses três machos, juntamente com um quarto, formavam uma aliança conhecida por Killers. Ingela Jansson, uma assistente no terreno, que colaborava com Packer num estudo de longo prazo, assistiu ao confronto dos três contra um a partir do seu Land Rover, viu os ferimentos de C-Boy e deu-o como perdido. Fez este agosto nove anos. Mas C-Boy arrastou-se no campo de batalha e, com o seu único parceiro, um conquistador menos aguerrido conhecido por Hildur, vagueou rumo a outros lugares à procura de um novo território, novas fêmeas e novas perspetivas.

Diz a lenda que os gatos têm sete vidas. C-Boy tinha pelo menos duas. Ele resistiu a um ataque furtivo, escapou a uma morte lenta com feridas infetadas e tornou-se, mais tarde, no protagonista inesperado da nossa história. Porque é que eu e o Nick escolhemos centrar a nossa atenção neste leão? Porque ele era tudo o que um leão africano deveria ser: expedito, irascível, paciente, orgulhoso, mas pragmático, aparentemente indestrutível, sob ameaça permanente, e lindo de ser contemplado.

Durante o nosso trabalho no terreno, os Killers apareceram numa área adjacente, denunciando interesse num outro bando no qual C-Boy e Hilbur tinham gerado crias. Os Killers tentavam fazer novas conquistas, ameaçando expandir o seu domínio. Um outro assistente do estudo de Packer, um jovem sueco chamado Daniel Rosengren, avistou os três elementos do grupo numa manhã ao amanhecer, enquanto eu conduzia pela zona, estendidos sobre a erva que cobre a margem de um ribeiro, lambendo as feridas no focinho, fazendo supor uma luta recente. Quem teriam enfrentado? A nossa suposição recaía novamente sobre C-Boy. Teria ele sobrevivido outra vez? E em que estado?

Terminámos o dia sem respostas, após uma busca incessante, que se revelou infrutífera. A equipa de Nick não conseguiu encontrá-lo, e nós tão-pouco. Mais tarde, nessa mesma noite, eu e Daniel esgueirámo-nos na escuridão munidos de binóculos com visão noturna e sacos-cama, e estacionámos silenciosamente o Land Rover por detrás dos Killers, dispostos a observar o grupo durante toda a noite, revezando-nos para dormir e vigiar, enquanto os leões vagueavam, descansavam e se punham novamente em movimento. Costumo referir-me a essa noite como A Noite da Eterna Vigília.

Estes leões ambiciosos dirigiam-se para o território de C-Boy e Hildur, e nós queríamos ver para onde iam, o que faziam e se o arrojo da incursão, mais as feridas da batalha, eram sinónimo de que tinham matado para conseguir o domínio territorial nas redondezas. O dia amanheceu, e os Killers caminhavam com ousadia por uma estrada de duas vias e, durante dois dias, não houve sequer um sinal de vida de C-Boy. Numa entrada do meu diário de viagem, escrevi “desaparecido, provavelmente morto”.

Mas C-Boy não estava morto. Ao terceiro dia, perto de um agrupamento de formações rochosas conhecidas por Zebra Kopjes, encontrámo-lo, ileso e cheio de vida, a acasalar com uma fêmea. No registo desse dia, a 17 de dezembro de 2012, escrevi no diário: “Ó leão feliz!”. A sua juba erguia-se escura e viril sob a luz das primeiras horas da manhã. C-Boy estava vivo e bem vivo. Mas até mesmo ele não poderia viver para sempre.

Na semana passada, recebi um email de Daniel Rosengren, a trabalhar, atualmente, como fotógrafo itinerante da vida selvagem para a Sociedade Zoológica de Frankfurt. Daniel confirmou aquilo já ouvira anteriormente. “Sim, C-Boy foi encontrado morto por um guia, que o conhecia bem”, escreveu. “Não há muito mais que eu possa dizer. Aparentemente, ele já estaria morto há alguns dias, quando o encontraram, a julgar pela carcaça comida pelos abutres.” Não havia indícios de que pudesse ter sido morto pela lança de um pastor masai, determinado a proteger as vacas, ou atingido pela bala de um caçador furtivo.

C-Boy tinha cerca de 14 anos de idade e estava perto de alcançar o recorde de longevidade de um leão-macho em toda a história do projeto dos leões”, escreveu Daniel. Doze anos é, geralmente, o tempo máximo de esperança de vida de um macho. Hilbur, o parceiro de C-Boy, também já ultrapassou a fasquia dos 12 anos e continua vivo, surpreendentemente.

Foi triste saber que C-Boy tinha morrido, disse Daniel. “Mas, ao mesmo tempo, ele viveu mais anos do que seria expectável para um leão-macho. Uma vida que quase terminava há 10 anos às mãos dos Killers. C-Boy teve uma segunda oportunidade e aproveitou-a seguramente.” Daniel acrescentou: “Quem me dera tê-lo visto mais uma vez”.

Desejei o mesmo, consciente da impossibilidade do meu desejo, pelo que fiz o melhor que podia fazer. Abri a revista da edição de agosto de 2013, nas páginas 28 e 29, e ali estava o retrato imponente de C-Boy, pela objetiva de Nick, a preto e branco, com a sua juba de pontas negras, olhando-me fixamente na noite, que vestia de negro a Tanzânia. Confortou-me a lembrança de que a vida de C-Boy, breve ou longa, feliz ou desafortunada, encerrou uma vontade imperiosa de sobreviver.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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