Animais

Biologia e Conservação de Tubarões II - Diversidade

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Por João Correia

Os tubarões e raias exercem um fascínio especial junto do público de todas as idades, ocasionalmente pelas razões erradas, mas focar-nos-emos nas certas. Este é o segundo artigo de uma série que tem como objectivo dar a conhecer alguns dos aspectos mais relevantes da biologia destes extraordinários animais, bem como alguns dos desafios que enfrentam actualmente. As referências bibliográficas citadas em todos os artigos desta colectânea podem ser consultadas na tese (do mesmo autor) intitulada “Pesca Comercial de Tubarões e Raias em Portugal”, disponível na área Literature do website www.flyingsharks.eu.

 

Diversidade dos Chondrichthyes

As mais de 1.000 espécies de Chondrichthyes (i.e. peixes cartilaginosos) incluem os tubarões (aprox. 400 espécies, nem todas descritas), batóides (i.e. raias, uges, peixes-guitarra, peixes-serra e mantas, aprox. 600 espécies, nem todas descritas) e os peixes quimeróides (aprox. 30 espécies, mal conhecidas e de taxonomia bastante confusa, Compagno et al. 2005). Estes animais ocupam um leque bastante vasto de habitats, incluindo sistemas estuarinos e fluviais, águas costeiras, oceano aberto e oceano profundo. Apesar da concepção generalizada que atribui a tubarões e raias o carácter de migradores, na verdade apenas algumas espécies (muitas das quais de forte interesse comercial) revelam migrações oceânicas, com base na reprodução ou por razões alimentares. A maior parte das espécies têm uma distribuição restrita, concentrando-se maioritariamente ao largo dos taludes e vertentes continentais, em redor de ilhas e algumas até confinadas a níveis batimétricos muito específicos.

Capa do livro 'Sharks and Rays of Australia' ('Tubarões e Raias da Austrália') de P. R. Last e J. D. Stevens.

A título de exemplo, Last e Stevens (1994 e 2009) identificaram 54% da fauna de Chondrichthyes Australianos como endémica. Genericamente, cerca de 5% das espécies cartilaginosas são oceânicas (i.e. são encontradas ao largo da costa e, muito provavelmente, migram entre várias bacias oceânicas), 50% ocorrem em águas que cobrem as plataformas continentais (i.e. até aprox. 200 m de profundidade), 35% habitam águas profundas (i.e. 200 a 2.000 m), 5% em água doce e 5% já foram encontradas em vários destes habitats (op. cit.).

 

São múltiplos os exemplos de trabalhos sobre sistemática de tubarões e raias, atestando a forma como este campo tem evoluído rapidamente: Podemos citar, a título de exemplo, o género Carcharhinus (Chiaramonte 1998); relações filogenéticas entre as carismáticas uges (McEachran e Miyake 1990); taxonomia da mesma família (Dasyatidae) no Pacífico Norte (Nishida e Nakaya 1990); inter-relações na família Etmopterinae (Shirai e Nakaya 1990), sistemática do impressionante tubarão-megamouth, Megachasma pelagios (Compagno 1990); morfometria dos dentes de tubarões de recife como Carcharhinus limbatus e C. brevipinna, incluindo a utilização de um método inovador para identificação de fósseis (Naylor 1990); recomendações genéricas para estudos de sistemática (Compagno et al. 1990); um guia de identificação prático para espécies de tubarões no Pacífico Mexicano (Castro 2000) - Portugal participou num documento semelhante, elaborado pela FAO (em Inglês, Francês, Espanhol e Português), dedicado aos tubarões de profundidade (Stehmann 1998); a tradução da versão Portuguesa deste documento esteve a cargo do autor; refira-se finalmente o trabalho de referência: “Sharks and survival” (Gilbert 1963).

Imagem da capa do livro 'Sharks and survival' ('Tubarões e Sobrevivência'), de Gilbert.

Os Chondrichthyes são predominantemente predadores. No entanto, alguns são detritívoros oportunistas e outros, ainda, filtradores que se alimentam de plâncton e peixes pequenos, à semelhança das baleias de barbas (i.e. tubarão-baleia, tubarão-frade, tubarão-megamouth e mantas). Os tubarões predadores são, na sua maioria, predadores de topo, ou seja, encontram-se no topo da teia alimentar marinha. Nestas circunstâncias, o seu número é limitado pela capacidade de carga do ecossistema de que fazem parte e este número é substancialmente mais baixo do que os números dos níveis mais baixos da teia trófica. A título de exemplo pode referir-se que, nas ilhas Farallon (Califórnia, EUA), a população de tubarões-brancos, Carcharodon carcharias, conta com um efectivo de aproximadamente 9 a 15 indivíduos (Klimley e Anderson 1996) sustentado por uma população de focas-elefante, Mirounga angustirostris, em que a componente imatura da mesma oscilou entre 200 e 600 indivíduos nos últimos 20 anos (Pyle et al. 1996). Se assumirmos que a componente imatura da população destes pinípedes constituirá aproximadamente metade do total da população, poder-se-á avançar, por isso, que este elo da teia alimentar tem um efectivo superior em duas ordens de magnitude relativamente aos predadores de topo.

A biologia de peixes cartilaginosos constitui um dos capítulos menos bem compreendidos e estudados dentro dos vários grupos faunísticos marinhos. Apenas algumas das espécies com interesse comercial foram alvo de estudos do seu ciclo de vida, biologia reprodutiva e dinâmica populacional. Alguns destes raros exemplos incluem as esbeltas espécies australianas Carcharhinus tilstoni e C. sorrah (Stevens e Wiley 1986); o temível tubarão-branco Carcharodon carcharias (Bruce 1992); os tubarões-anjo californianos (Squatina californica (1992)); a espécie de profundidade Gollum attenuatus (Yano 1993); o famoso “cação” Squalus acanthias (Saunders e McFarlane 1993); o icónico tubarão-megamouth Megachasma pelagios (Yano et al. 1997); o impressionante tubarão-frade Cetorhinus maximus (Francis e Duffy 2002); os velozes tubarão-azul, Prionace glauca, anequim, Isurus oxyrinchus e tubarão-sardo, Lamna nasus (Kohler et al. 2002); a raia-curva, Raja undulata (Coelho e Erzini 2002); o tubarão-ama/dorminhoco, Ginglymostoma cirratum (Carrier et al. 2003).

Tubarão-azul fotografado por Nick Caloyianis.

E, claro, torna-se obrigatório mencionar trabalhos clássicos de síntese, com dados sobre variadas espécies, como, por exemplo: Bigelow e Schroeder (1948), Springer (1979), Whitehead et al. (1984), Pratt et al. (1990), Gilmore (1993) e Wourms e Demski (1993).

 

De um ponto de vista logístico é extraordinariamente difícil, se não mesmo virtualmente impossível, compilar este tipo de dados para a maioria das populações, particularmente as que estão restritas a habitats profundos ou que são amostradas em apenas alguns períodos específicos do ano, ou mesmo apenas durante algumas fases de vida. A importância ecológica dos tubarões, incluindo o seu papel como predadores nas complexas comunidades ictiológicas marinhas, era praticamente desconhecida até há pouco tempo. Estudos recentes, contudo, têm demonstrado que estes animais desempenhem, no mar, um papel de controlo e regulação da teia trófica, tal como os seus congéneres em terra (ex. grandes felinos e outros predadores de topo).

 

João Correia é Professor Adjunto no Instituto Politécnico de Leiria, General Manager na Flying Sharks e Co-fundador da A.P.E.C.E. (Associação Portuguesa para o Estudo e Conservação de Elasmobrânquios).

Continuar a Ler