Será Ético Dar Ecstasy aos Polvos em Nome da Ciência?

"É um pouco como estudar a inteligência alienígena.”segunda-feira, 1 de outubro de 2018

O que acontece a um polvo se lhe for administrada metilenodioximetanfetamina, mais conhecida por ecstasy? Segundo os cientistas da Universidade John Hopkins, os cefalópodes reagem à droga de forma muito semelhante à dos humanos, levando-os a concluir que os cérebros dos humanos e dos polvos estão programados da mesma forma para determinados comportamentos sociais.

Mas será correto administrar a polvos insuspeitos uma droga que altera o seu comportamento? E que ilações podemos retirar disso para o estudo de animais, que são parentes afastados dos humanos?

Há cerca de três anos, os cientistas descodificaram o genoma de um polvo bimaculóide ou polvo-da-Califórnia, e estudos subsequentes, que comparavam essa sequência ao genoma humano, identificaram segmentos de código idênticos, ainda que a espécie humana tenha divergido evolutivamente dos polvos há 500 milhões de anos. As coincidências genéticas envolveram certos neurotransmissores, substâncias químicas do cérebro que enviam sinais entre neurónios, associados a comportamentos sociais.

Para perceber como é que essa semelhança se concretizaria na prática, a equipa do Instituto John Hopkins administrou ecstasy a quatro polvos bimaculóides, uma espécie de polvo conhecida pelo seu comportamento antissocial. Efetivamente, a droga libertou os animais das suas inibições, deixando-os muito mais expansivos.

Ao interagir com os demais polvos na jaula contígua, “os quatro polvos tendiam a abraçar a estrutura e punham partes da boca sobre a superfície da jaula”, diz a coordenadora do estudo Gül Dölen, uma neurocientista do Instituto John Hopkins. “A reação dos polvos é muito semelhante à reação dos humanos à metilenodioximetanfetamina. Há uma predisposição para se tocarem com frequência.”

Os resultados do estudo, publicado a 20 de setembro na revista científica Current Biology, sugere que, embora os humanos e os cefalópodes tenham seguido caminhos evolutivos distintos há milhões de anos, as partes dos nossos cérebros que regulam os comportamentos sociais permanecerem idênticas.

NÓS E OS POLVOS

O interesse de Dölen nos polvos vai muito além das suas reações à metilenodioximetanfetamina. Os invertebrados são os parentes mais próximos das lesmas na Terra e são surpreendentemente inteligentes. Os polvos são capazes de sair dos tanques dos aquários, recolocar – ou até mesmo comer – os seus coabitantes nos tanques e bater com pedras com tal força nas paredes de vidro, que conseguem, efetivamente, parti-las.

Os polvos são também muito, muito diferentes dos humanos: estes invertebrados não têm córtex cerebral como os mamíferos e, no entanto, são capazes de notáveis proezas cognitivas.

“É um pouco como estudar inteligência alienígena”, afirma Dölen. “Pode dizer-nos muito sobre as regras de estruturação de um sistema nervoso, que suporte comportamentos cognitivos complexos, sem que fiquemos presos na organização fortuita dos cérebros.”

Dölen explica que o estudo de espécies, que se situam no outro extremo da árvore evolutiva, pode revelar os mecanismos subjacentes a comportamentos extraordinários, como a regeneração de membros e a camuflagem, que podem implicar novas ideias no domínio da robótica e da engenharia dos tecidos. Entre outras maravilhas, os polvos podem ser portadores de genes associados ao autismo, mas conseguem, ainda assim, executar tarefas que os humanos dentro desse âmbito não conseguem. E, embora alguns polvos morram depois de se reproduzirem uma vez, outros podem reproduzir-se várias vezes, o que pode ampliar o nosso conhecimento sobre o envelhecimento.

OS MIÚDOS ESTÃO BEM?

O estudo levanta, no entanto, uma questão: será boa ideia administrar doses de uma droga a um invertebrado marinho? Vários especialistas em bioética disseram à National Geographic que, em princípio, o estudo não afetaria a saúde dos animais, desde que estes fossem tratados com humanidade, monitorizados os respetivos níveis de stress, e imediatamente afastados do estudo, caso evidenciassem sinais de perturbação, e expostos à droga dentro dos limites da razoabilidade, de forma a evitar a adição.

“O principal imperativo ético é evitar perturbar os polvos e infligir-lhes dor”, afirma Jennifer Blumenthal-Barby, uma especialista em ética clínica da Faculdade de Medicina Baylor, em Houston, no Texas.

O ecstasy é conhecido por ser uma droga de bem-estar, acrescenta Blumenthal-Barb. “Com base no seu comportamento, foi possível inferir que a droga surtiu um efeito nos polvos muito semelhante ao dos humanos.”

Craig Klugman, um especialista em bioética da Universidade de DePaul, vê a intenção como um imperativo: “Acima de tudo, é fundamental que o estudo tenha um objetivo, a intenção de produzir algo que seja útil no domínio da ciência veterinária ou da medicina humana”, afirma.

Segundo Dölen, nos Estados Unidos, as experiências com polvos são reguladas pelas mesmas normas, que regulamentam as experiências conduzidas com insetos e vermes, embora, há 12 anos, as autoridades europeias tenham estendido aos cefalópodes as mesmas normas que se aplicam aos vertebrados, sendo aqueles os únicos invertebrados a gozar dessa equiparação.

Dölen afirma que o laboratório seguiu os mesmos princípios que norteiam as experiências com ratos no estudo levado a cabo com os polvos, tendo sido particularmente revelador da sua boa condição o facto de se terem reproduzido, após terem sido devolvidos aos tanques do Instituto Oceanográfico de Woods Hole, em Massachusetts. Dölen refere também que, em momento algum, os polvos libertaram tinta, uma reação tida como um indicador de stress.

“Devo também referir que os polvos são consumidos de forma generalizada como alimento, assim como também devo dizer que, até mesmo perante a manipulação mais invasiva que pudesse ter sido feita no âmbito da investigação, os animais seriam, ainda assim, mais bem tratados do que aquilo que são quando se destinam à alimentação”, afirma Dölen.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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