Porque é Que os Dejetos do Vombate Têm Forma de Cubo?

Os vombates são o único animal do mundo que produz fezes em forma de cubo. Mas como e porque é que eles o fazem? Os cientistas respondem.segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

O vombate é um animal proveniente da Austrália. Talvez sejam mais conhecidos por serem... rechonchudos — e bastante amorosos. Mas há algo acerca destes marsupiais adoráveis que talvez desconheça: os vombates são o único animal do mundo que produz fezes em forma de cubo.

Ainda que esta particularidade tenha suscitado muito interesse e debate, a investigação acerca das minudências das excreções dos vombates é escassa. Os cientistas pouco sabiam acerca deste fenómeno – até hoje.

No início deste ano, Patricia Yang, uma investigadora do Instituto de Tecnologia da Geórgia, especialista em fluidos corporais, começou a estudar o assunto com maior detalhe, após ter ouvido falar acerca dele numa conferência.

“A princípio não acreditei”, Yang confessa. Mas após confirmar que era, efetivamente, um facto, a investigadora dedicou-se a tentar perceber como e porque é que os vombates defecam pequenos cubos.

“Há toda uma série de teorias”, diz Mike Swinbourne, especialista em vombates na Universidade de Adelaide, na Austrália. Um dos postulados mais populares é que os vombates defecam em cubos para os poderem empilhar, como forma de marcação de território, sem que os dejetos rolem. Mas Swinbourne afirma que tal é uma conceção errada.

Ainda que os vombates usem os seus dejetos para marcar o território, “eles não constroem pequenas pirâmides de fezes”, esclarece. “Eles limitam-se a defecar onde calha e é isso.”

Em alternativa, Swinbourne diz que a forma cúbica está, provavelmente, relacionada com os ambientes secos em que a maioria dos vombates vive. “Eles têm de retirar, até à última gota, toda a humidade [dos alimentos que consomem]”, explica. E, por vezes, nos jardins zoológicos, onde os animais têm acesso a líquidos para se manterem hidratados, Swinbourne diz que os seus dejetos são menos cúbicos. Menor humidade contribui para que os dejetos tenham formas mais rígidas, com arestas mais agudas.

A humidade tem influência, mas “é também um fator do trato digestivo primário”, acrescenta Bill Zeigler, vice-presidente sénior dos programas animais no Jardim Zoológico de Brookfield, em Chicago, que alberga vombates desde 1969. Peter Clements, presidente da organização Wombats SA na Austrália Meridional, concorda, especulando que poderá ser uma combinação de ambos.

Contudo, encontrar uma resposta concreta não tem sido fácil. Yang e os seus colegas demoraram meses até conseguirem obter vísceras de vombate para o seu estudo. Nenhum jardim zoológico na América do Norte dispunha de animais mortos, e Yang teve de solicitar o envio dos intestinos de dois vombates mortos por atropelamento diretamente da Austrália. A investigadora não sabia o que iria encontrar quando estes chegassem.

“Primeiro, achei que eles pudessem ter o ânus quadrado, ou, talvez, [os cubos] se formassem no estômago”, conta. Mas nenhuma dessas hipóteses se verificou. O que ela concluiu ser efetivamente relevante era a forma como os intestinos do vombate se distendiam.

À medida que o alimento é digerido, move-se através do tubo digestivo, e a pressão do intestino ajuda a moldar as fezes – o que significa que a forma do intestino irá influenciar a forma dos dejetos. Yang e a sua equipa expandiram intestinos de vombate e de porco com um balão para medir a respetiva elasticidade.

O intestino do porco apresentava uma elasticidade relativamente uniforme, o que explica as fezes mais arredondadas destes animais. Por outro lado, o intestino do vombate tinham uma forma muito mais irregular. Yang observou dois sulcos profundos, onde o intestino é mais elástico, que ela acredita ajudarem a moldar as fezes dos vombates em dejetos cúbicos.

“É a primeira vez que vejo alguém apresentar uma boa explicação biológica e fisiológica”, diz Swinbourne, que reviu a versão preliminar do artigo. Clements, que também leu esta versão, acrescenta, “Creio que é uma contribuição útil, mas uma explicação de um possível mecanismo ajudaria.”

Yang concorda que ainda há uma série de questões por responder, e refere que a sua investigação prossegue. A sua próxima tarefa é perceber como é que dois sulcos apenas, ao invés de quatro, produzem um cubo. No entanto, mesmo estas primeiras descobertas apresentam repercussões mais vastas em setores como o da indústria transformadora.

Segundo Yang, os cubos são muito raros na natureza. “Atualmente, temos apenas dois métodos de fabrico de cubos”, diz, explicando que os seres humanos moldam os cubos a partir de materiais maleáveis, ou cortam-nos a partir de objetos mais rígidos.

“Os vombates têm uma terceira via.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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