Relatório Amplamente Mal Interpretado Revela um Declínio das Populações Animais

Novos estudos demonstram que as populações animais em causa diminuíram mais de 50% em média nas últimas duas gerações.

Publicado 7/11/2018, 15:16 WET, Atualizado 5/11/2020, 06:02 WET
Enquanto Aurora, a cria de orangotango, se enrosca na mãe adotiva Cheyenne no Jardim Zoológico de ...
Enquanto Aurora, a cria de orangotango, se enrosca na mãe adotiva Cheyenne no Jardim Zoológico de Houston, a desflorestação e caça furtiva deixam centenas de órfãos entre os seus primos selvagens no Bornéu. A tragédia que assola estes animais é apenas uma pequena amostra daquilo que se passa relativamente ao declínio a nível mundial das populações animais, facto documentado no relatório Living Planet de 2018 da WWF.
Fotografia de JOEL SARTORE, NATIONAL GEOGRAPHIC PHOTO ARK

O relatório Living Planet do WWF para a Natureza, divulgado esta semana, descreve um catastrófico declínio nas populações animais espalhadas pelo mundo fora. Mas o mesmo relatório foi amplamente mal interpretado por vários canais de informação, com as manchetes a insistirem erradamente que perdemos 60% de todos os animais ao longo de 40 anos. A realidade é bastante diferente, apesar de não deixar de ser alarmante.

O relatório semestral examinou as tendências no Living Planet Index (LPI - Índice do Planeta Vivo) global, o "índice da bolsa de valores" de um biólogo para a diversidade e abundância de animais no mundo inteiro. Se a pontuação global estiver estável ou a aumentar, os animais estão, regra geral, a prosperar, ao passo que uma pontuação em queda indica um problema à escala global.

O LPI registou uma queda abrupta — caiu 60% desde 1970, oque representa um milésimo de segundo, se falarmos no tempo da evolução. E estamos todos implicados.

60% DE QUÊ?

O LPI conjuga dados de milhares de espécies com estilos de vida muito diferentes e estados de conservação bastante diferentes. Não se trata de um censo no qual um musaranho-anão-de-dentes-vermelhos (Sorex minutus), uma espécie abundante, teria o mesmo grau de importância que um rinoceronte-de-sumatra gravemente ameaçado.

O LPI considera o facto de um rinoceronte a menos corresponder, relativamente à sua população geral, a um problema bastante grave. Mas alguns milhares a menos da espécie Sorex minutus é algo bastante trivial. Pode atribuir-se a um erro de arredondamento. Algumas populações no estudo perderam, até ao momento, mais de 60% dos seus indivíduos, e alguns perderam quantidades bastante inferiores. Mas a média representada pelo LPI aborda uma tendência de catástrofe global.

Dito de outra forma, o relatório revelou que as populações de vertebrados (animais sem coluna vertebral) diminuíram, em média, cerca de 60%. Mas tal não é o mesmo que afirmar que eliminámos 60% de todos os animais, o que o relatório deixa bastante claro.

Imaginemos, por exemplo, que temos 50 tigres, 200 falcões e 10 000 esquilos. Imaginemos que a primeira população diminui em 90% para cinco tigres. A segunda população diminui 80% para 40 falcões. E os esquilos diminuem para 9 000, uma diminuição de 10%. Trata-se de uma diminuição, em média, de 60% destas três populações fictícias, mas apenas uma diminuição total de 12% dos seus indivíduos.

Ou vejamos o exemplo de uma única espécie: imaginemos que as populações de lobos-cinzentos estão a diminuir, em média, 60%. Tal não significa que perdemos 60% de, digamos, todos os lobos-cinzentos individuais. Significa, sim, que algumas alcateias de lobos-cinzentos sofreram perdas horríveis, talvez até uma extinção local, ao passo que outras diminuíram abruptamente - mas há que ter em conta que as alcateias não têm todas a mesma dimensão. A extinção local na zona rural do Idaho poderá significar a perda de apenas quatro animais, mas, como cada população distinta torna a espécie mais resistente, trata-se de informação importante para os biólogos.

ANIMAIS PROTEGIDOS PELA LEI DE ESPÉCIES AMEAÇADAS

SERVIÇOS DE ECOSSISTEMAS

Durante décadas, economistas e ecologistas têm lutado contra como quantificar o valor dos serviços de ecossistemas — os bens e serviços fornecidos pela natureza, desde a polinização de colheitas com recurso a abelhas até à filtração de água, cortesia dos moluscos. O relatório Living Planet fixa o valor dos serviços de ecossistemas em 125 milhões de biliões de dólares, apenas a alguns milhões de biliões de distância do PIB total mundial.

Apesar de os números poderem ser controversos, uma vez que existe discordância sobre como atribuir tais valores, até Wall Street tem de admitir que a natureza faz a maior parte do trabalho pesado por nós. Os polinizadores animais são responsáveis por um terço de toda a produção alimentar, e dependemos de animais ruminantes para reciclar os solos. As aves, os morcegos e os répteis controlam os mosquitos que propagam doenças, ao passo que os investigadores médicos procuram nas criaturas da floresta tropical o próximo tratamento contra o cancro.

Devido à complexidade das redes alimentares, o destino de uma única população animal pode ter consequências profundas e inesperadas.

RESULTADOS DO CENSO

Brian McGill, biólogo da Universidade do Mane, explica a frustração de trabalhar num censo da biodiversidade ao compará-lo com outros projetos de monitorização da natureza com infraestruturas extensas, como a previsão meteorológica. "Só nos EUA, o National Weather Service gasta milhares de milhões de dólares por ano para efetuar previsões meteorológicas precisas — investimento em estações meteorológicas terrestres, boias oceânicas, balões meteorológicos com radiossonda e satélites para obter as melhores medições possíveis do estado atual da meteorologia", afirma. "Não temos qualquer equivalente para a biodiversidade".

Através dos seus relatórios Living Planet, a WWF controla 4005 espécies de vertebrados de 16 705 populações distintas. Este valor é diminuído pelas 63 mil espécies totais de vertebrados descritas — e os cientistas acreditam que só está documentada uma fração do que existe.

Estando estrategicamente espalhadas por continentes e biomas, estas populações servem de ponto de referência para todas as espécies sobre as quais não temos quaisquer dados. Tem sido difícil obter uma contagem precisa relativamente a animais mais pequenos como as formigas, por exemplo, mas o acompanhamento das aves e dos mamíferos que se alimentam das mesmas nos mesmos bairros permite aos cientistas ter uma ideia clara de como o ecossistema local está a resistir.

Segundo o relatório, os "bairros" que se encontram em maiores dificuldades são os ecossistemas de água doce e tropicais. Ambos são locais cruciais históricos para a biodiversidade, suportando uma invulgar concentração de espécies. Mas a sobre-exploração, as alterações climáticas e a poluição têm delapidado estes habitats outrora ricos.

PHOTO ARK: A SALVAR ESPÉCIES, UMA FOTOGRAFIA DE CADA VEZ

Muitas das espécies que mantêm o nosso planeta diversificado e saudável estão a desaparecer rapidamente no meio selvagem. É por esta razão que a National Geographic e o fotógrafo Joel Sartore estão a construir uma Photo Ark (arca fotográfica), para documentar todas as espécies em cativeiro, incluindo as que se encontram em risco de extinção. Estando já nas seis mil espécies (cujo número continua a aumentar), a National Geographic Photo Ark está a inspirar as pessoas para se preocuparem e tomarem medidas para salvar estas espécies. 

A pontuação média do Living Planet Index (Índice Planeta Vivo) relativa às populações de água doce caiu abruptamente em 83%, o que representa uma diminuição, até este valor, em média, das populações de animais que habitam na água. E o LPI nos neotrópicos — Caraíbas, América Central e do Sul e estreitos da Flórida e Texas — caiu 89%.

POLÍTICAS DE ECOSSISTEMAS

Travar esta corrente de extinção irá exigir uma colaboração à escala global. Por este motivo, os cientistas têm estado apreensivos quanto ao recuo internacional relativamente às regulamentações ambientais.

A administração de Trump continua a fazer pressão para retirar elementos incluídos no Endangered Species Act (lei ambiental relativa às espécies ameaçadas), a principal política ambiental dos EUA. E, no início da presente semana, o governo chinês legalizou o comércio de cornos de rinoceronte e ossos de tigre, um passo criticado pelos ambientalistas.

Ao mesmo tempo que o recém-eleito presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, tenciona desenvolver a Amazónia para impulsionar a economia do seu país, o Relatório de Risco Global do WWF destacou "a perda da diversidade biológica e o colapso dos ecossistemas" como uma das dez maiores ameaças económicas em 2018.

Tal como E.O. Wilson, um ecologista de Alabama,  indicou no seu livro The Future of Life, "talvez tenha chegado a altura de pararmos de falar em perspetiva ambiental, como se de um esforço determinado por um grupo de pressão afastado da atividade humana geral se tratasse, e começarmos a falar em perspetiva do mundo real". A preservação animal já não é um interesse especial. É um interesse humano.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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