Animais

Tubarões: Ontem, Hoje e (Talvez) Amanhã.

Existem hoje em dia cerca de 500 espécies conhecidas de tubarão no nosso planeta.Friday, November 23

Por Luís Alves

Com tamanhos que vão dos 15 centímetros do tubarão-lanterna-anão (Etmopterus perryi) aos 15 metros do tubarão-baleia (Rhincodon typus), alguns possuindo formas que podiam ter saído de um filme de ficção científica, estes animais podem ser encontrados nas águas geladas do oceano Ártico, nas correntes quentes do Atlântico equatorial, nas águas costeiras do Índico ou até nas profundezas do Pacífico.

A réplica de um dente fossilizado de megalodon é suficiente para nos fazer imaginar o tamanho que este predador atingia. Os cientistas estimam que este gigantesco tubarão podia medir quase 30 metros de comprimento.

Os primeiros tubarões surgiram há cerca de 450 milhões de anos, bem antes dos primeiros dinossauros e dos primeiros mamíferos. Alguns destes animais podiam atingir dimensões assustadoras, como é o caso do megalodon (Carcharodon megalodon), um primo pré-histórico do tubarão-branco (Carcharodon carcharias), que se alimentava de baleias.

Estes animais sobreviveram a vários eventos de extinção em massa que afligiram o nosso planeta, incluindo o que aconteceu no final do Cretáceo e foi responsável pelo desaparecimento dos dinossauros, mas talvez tenham finalmente encontrado um adversário à altura: o Homem.

 

A sobrepesca e a poluição dos ecossistemas são hoje em dia ameaças enfrentadas por tubarões no Mundo inteiro e, ironicamente, algumas das características que fizeram destes animais reis dos oceanos, durante mais de quatro centenas de milhões de anos, são hoje desvantagens potencialmente fatais.

Apesar de serem peixes, muitas espécies de tubarão têm características de vida semelhantes às de golfinhos e baleias. Maturações tardias e, na generalidade dos casos, baixos níveis de fecundidade, tornam-nos particularmente vulneráveis a esforços de pesca intensos. Adicionalmente, vidas longas e o facto de serem, na sua maioria, predadores de sucesso, fazem com que acumulem muitos poluentes nos seus organismos.

Segundo os dados mais recentes, os humanos pescam e matam cerca de 100 milhões de tubarões por ano, com alguns cientistas a defender que o número verdadeiro pode ultrapassar os 270 milhões. É difícil precisar um valor, todos os dias há tubarões a serem pescados ilegalmente, mas mesmo quando usamos a estimativa conservadora de 100 milhões por ano, são mais de 270 mil por dia, mais de 11 mil por hora. Isto quer dizer que desde que começou a ler este artigo morreram mais de 200 tubarões. De facto, no último século, de forma mais ou menos direta, os humanos foram responsáveis por uma diminuição alarmante das populações de tubarões, com alguns estudos a apontar para reduções na ordem do 90% em algumas espécies.

É difícil para um ser humano compreender escalas temporais tão grandes como a que abrange a existência destes animais, mas um simples exercício matemático pode ajudar-nos a colocar as coisas em perspetiva: se reduzirmos a escala e encaixarmos toda a existência dos tubarões num único ano, estes últimos 100 anos correspondem a cerca de 7 segundos desse ano!

O ritmo alarmante deste decréscimo devia ser suficiente para gerar preocupação generalizada, mas a verdade é que os tubarões estão longe dos pensamentos da maioria das pessoas e não é à toa que a expressão “longe dos olhos, longe do coração” existe. Esta falta de preocupação é particularmente irónica em Portugal, país que é o terceiro maior exportador de carne de tubarão da Europa e, onde cerca de 30 espécies de tubarão podem ser encontradas com frequência – espécies emblemáticas como o tubarão-azul (Prionace glauca), o anequim (Isurus oxyrinchus), o tubarão-martelo (Sphyrna zygaena), o tubarão-baleia (Rhincodon typus) e, esporadicamente, até o tubarão-branco (Carcharodon carcharias) podem ser encontradas em águas portuguesas.

Um tubarão azul (Prionace glauca), frequentemente apelidado de “tintureira”, nada calmamente, acompanhado por um grupo de peixes-piloto (Naucrates ductor). Este exemplar fotografado nos Açores tinha pouco mais de um metro, mas os adultos desta espécie podem atingir os quatro metros de comprimento!

Mais Vale Um Tubarão Vivo do que Duas Sopas ao Jantar

Segundo o mais recente relatório da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, o mercado de derivados de carne de tubarão vale cerca de mil milhões de dólares americanos – um, zero, zero, zero, zero, zero, zero, zero, zero, zero, zero, zero, zero. Valores impressionantes, sem dúvida, num mercado que tem crescido de ano para ano, em grande parte devido à forte procura nos mercados asiáticos, onde o consumo de sopa de barbatana de tubarão é associado a relevância social e poder económico.

 

Um cientista inspeciona a boca de um anequim descarregado numa lota portuguesa. Na mesma imagem (canto superior esquerdo), um grupo de tubarões-azuis aguardam pela sua vez de serem pesados e vendidos.

Para além de serem usados na indústria alimentar, os derivados de tubarão são também cada vez mais procurados por empresas do ramo da cosmética, onde os óleos extraídos destes animais são usados em inúmeros produtos. As grandes empresas farmacêuticas têm também vindo a demonstrar um interesse crescente nestes animais, com o desenvolvimento de compostos anti tumorais e de regeneração neuronal a exibirem avanços promissores.

 

A morte é lucrativa, sempre foi. Ainda assim, existem cada vez mais estudos a comprovar a rentabilidade de formas alternativas de exploração destes peixes ancestrais. Um dos melhores exemplos é o crescente mercado do turismo subaquático, em que os mergulhos com tubarões geram muito dinheiro, tendo a vantagem adicional de contribuírem imenso para a sensibilização do público. Há inclusivamente exemplos onde os membros de comunidades piscatórias acabam por abandonar a pesca para se dedicarem a atividades turísticas relacionadas com tubarões.

 

Sem Presente para Todos, Não Haverá Futuro para Ninguém

A noção de que os tubarões são importantes para a manutenção do equilíbrio dos ecossistemas marinhos não é nova, mas a nossa compreensão sobre a dimensão e a natureza do seu impacto tem vindo a crescer. Durante décadas, a ideia generalizada era que os tubarões eram superpredadores – ao atingirem a idade adulta passavam a ocupar o topo das respetivas cadeias alimentares, sem possuírem nenhum predador natural – e que tinham influência direta no número de indivíduos das populações dos níveis inferiores.

A verdade é que os ecossistemas marinhos são extremamente complexos e, sabemos hoje em dia que a maioria das espécies de tubarão ocupam na realidade lugares intermédios ou superiores nas respetivas cadeias alimentares, sendo raros os casos em que efetivamente ocupam o lugar cimeiro. Até o tubarão-branco, expoente máximo da perfeição anatómica de um tubarão – para muitos o exemplo perfeito de um predador de topo – que é efetivamente um superpredador sem rival na maioria das zonas costeiras em que habita, é ocasionalmente caçado e consumido por orcas (Orcinus orca) em mar aberto. A influência dos tubarões é afinal mais complexa do que inicialmente se pensava.

Predadores inteligentes, os tubarões alimentam-se preferencialmente de animais doentes ou fracos. Esta eliminação seletiva faz com que animais saudáveis e geneticamente superiores tenham mais hipóteses de se reproduzirem, potenciando assim para a manutenção da saúde das populações dos restantes organismos. Para além de contribuírem para a manutenção da saúde dos stocks das suas presas, os tubarões acabam também por condicionar a forma como estas se distribuem e consomem os recursos do ecossistema. Um bom exemplo é uma situação observada no Havai, onde cientistas constataram que a presença de tubarões-tigre (Galeocerdo cuvier) tinha um impacto positivo na saúde do fundo marinho, forçando os herbívoros marinhos a procurarem alimento ao longo de uma área maior e permitindo assim que a vegetação marinha recuperasse gradualmente.

O desaparecimento deste grupo de animais teria inevitavelmente consequências negativas para a saúde dos ecossistemas em que habitam, consequências essas que certamente teriam repercussões na nossa qualidade de vida. É importante recordar que os tubarões sobreviveram durante centenas de milhões de anos num planeta sem humanos, mas que o oposto será, muito provavelmente, impossível.

A exposição Sharks, está no Oceanário de Lisboa - eleito recentemente o 'Melhor Aquário do Mundo', até janeiro de 2019.

Educar para Preservar

Vivemos numa sociedade cada vez mais avançada e instruída, mas o termo “tubarão” continua a invocar, na maioria de nós, instintos muito primitivos, uma forma pura de terror que remonta a tempos em que a palavra ainda não existia.

Os tubarões precisam urgentemente de uma campanha de renovação de imagem à escala global. A pesca destes animais é historicamente mal regulada, em grande parte fruto da falta de interesse que o público tem na conservação dos mesmos – é difícil sentir empatia por criaturas mal compreendidas e que são constantemente vilificadas.

Para que exista uma mudança de atitude, é necessária uma mudança de mentalidade – é urgente incutir nas pessoas a ideia de que os tubarões (ainda)existem e que precisam de ser protegidos.

Reduzido ao essencial, o argumento para a conservação destes animais é fácil de compreender: a nossa sobrevivência depende da manutenção da saúde dos oceanos, que depende da sobrevivência dos tubarões.

Um futuro com tubarões só será possível com o contributo de todos e passará obrigatoriamente pela educação das gerações presentes e futuras, pela implementação de medidas de gestão de pesca adequadas e por uma redução drástica da quantidade de poluentes que introduzimos nos ecossistemas marinhos.

 

Luís Alves é o atual presidente da A.P.E.C.E. (Associação Portuguesa para o Estudo e Conservação de Elasmobrânquios), doutorando do MARE e desenvolve o seu trabalho de investigação no grupo Lemos Lab do Instituto Politécnico de Leiria.

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