Vídeo Viral de Urso Mostra o Lado Negro de Filmar Animais com Drones

À medida que os drones estão cada vez mais pequenos e acessíveis, os especialistas pedem às pessoas que tenham cuidado ao utilizar estes aparelhos perto de animais selvagens como este urso pardo e a sua cria.

Publicado 15/11/2018, 15:48 WET, Atualizado 5/11/2020, 06:02 WET
Um urso pardo fêmea e as suas crias semelhantes aos exemplares filmados recentemente na Rússia num ...
Um urso pardo fêmea e as suas crias semelhantes aos exemplares filmados recentemente na Rússia num vídeo controverso filmado por um drone que se tornou viral.
Fotografia de ROY TOFT, COLEÇÃO DE IMAGENS NAT GEO

 

Se não conseguir à primeira tentativa , tente e volte a tentar.

Este foi o lema que muitos meios de comunicação adotaram após a visualização do vídeo viral de um urso pardo fêmea e a sua cria. Filmado por Dmitry Kedrov este verão com recurso a um drone na costa do Mar de Okhotsk, Rússia. O vídeo mostra uma cria de urso a trepar e a cair vezes sem conta numa encosta traiçoeira com neve.

Apesar do vídeo ter um final feliz, pois a cria chega ao cume e a dupla caminha rumo à imensidão da natureza, inúmeros cientistas manifestaram a sua preocupação nas redes sociais relativamente à forma como o vídeo foi filmado.

Por exemplo, por volta dos 60 segundos do vídeo, a câmara faz um zoom extremamente perto dos animais. Simultaneamente, a progenitora parece olhar diretamente para o helicóptero controlado à distância, parecendo mesmo dar uma pancada no dispositivo, o que depois aparenta ter provocado a queda da cria pela encosta abaixo.

Em declarações a um site russo, Kedrov afirmou que o efeito de zoom foi efetuado em pós-produção e que este drone não assustou os animais de forma alguma. Mas alguns especialistas não têm tanta certeza.

“Pode ser um zoom na câmara de vídeo, mas a maioria dos drones comerciais não possuem a capacidade de carga para transportar uma câmara com uma lente de zoom de alta qualidade", afirma Mark Ditmer, ecologista da vida selvagem na Universidade de Boise, que tem estudado o impacto psicológico que os drones têm sobre os ursos pardos. "Posso estar errado mas diria que o drone se aproxima rapidamente e a mãe, em pânico, tenta afastá-lo com uma pancada devido ao medo."

“Se observarmos a progenitora no vídeo, ela está a olhar fixamente para o drone durante longos períodos de tempo”,  afirma Sophie Gilbert, ecologista de vida selvagem da Universidade do Idaho. "Da sua perspetiva é, literalmente, um OVNI. É um objeto voador não identificado."

"Ela não sabe o que o objeto está a fazer. Provavelmente, nunca viu nada do género na sua vida. Tem uma cria bastante jovem consigo e, obviamente, a sua resposta vai ser associada ao medo", afirma Gilbert.

De facto, a presença do drone - e a vontade de fugir do mesmo - pode explicar o facto de a progenitora e a sua cria estarem a atravessar um terreno tão traiçoeiro. As progenitoras com crias tão jovens costumam normalmente evitar viagens complicadas, a menos que seja necessário.

O SOM E A PERTURBAÇÃO

Apesar de ainda estarem a ser revelados pormenores deste incidente em concreto, existem muitos outros vídeos on-line que mostram quais os efeitos que os drones podem ter na vida selvagem.

Gilbert refere vídeos de drones a pairar sobre ursos pardos a comer salmão, um lobo a atacar um alce e  um antilocapra aparentemente a tentar fugir de um drone que voa a baixa altitude como exemplos de situações em que as máquinas estão mesmo a influenciar o comportamento dos animais.

“Não sei se alguma vez já passaram perto destes drones em funcionamento, mas são muito ruidosos", afirma Gilbert que realizou um estudo sobre a utilização de drones na investigação em 2016. Apesar de alguns destes vídeos terem banda sonora, muitos de natureza pacífica, "não soam assim na vida real".

Só o ruído pode prejudicar os animais selvagens. Distrai os animais de outras funções necessárias como comer ou competir por parceiros de acasalamento. Em alguns animais, estes aparelhos poderão provocar uma reação de luta ou fuga, ao passo que noutros provoca um aumento de vigilância, como se estivessem na presença de um predador. E alguns animais parecem não ficar afetados de todo.

No entanto, as aparências podem ser enganadoras: No estudo de Ditmer de 2015, o autor conseguiu demonstrar que apesar da maioria dos ursos-negros não fugir nem reagir de modo óbvio aos drones que sobrevoam de forma audível, os seus ritmos cardíacos estavam altíssimos.

"Grandes picos no ritmo cardíaco indicam uma resposta de stress", explica. "No exemplo mais extremo, constatámos que o ritmo cardíaco do urso aumentou de 41 batimentos por minuto antes do voo do drone para 162 batimentos por minuto quando o drone era audível."

E apesar de ser verdade que os ursos e outras criaturas conseguem lidar com um aumento esporádico do ritmo cardíaco, Ditmer destaca que os animais selvagens já se encontram sob bastante tensão para encontrarem comida suficiente e evitarem os predadores.

Além disso, os humanos estão constantemente a contribuir para o aumento desta tensão à medida que continuam a usurpar zonas selvagens, a produzir cada vez mais ruído com automóveis, aviões, barcos e extração de petróleo e gás.

PILOTAR DRONES COM SEGURANÇA

Uma coisa ficou clara após falar com vários especialistas: ninguém está a dizer que devemos banir todos os drones.

“Depois de ler alguns dos comentários sobre o vídeo do urso, fico preocupada com o facto das pessoas poderem vir a diabolizar os drones”, afirma Margarita Mulero-Pázmany, docente em veículos aéreos não tripulados na Universidade Liverpool John Moores no Reino Unido. "Tal seria um erro. Não devemos culpar a ferramenta só porque pode ser mal utilizada."

Em vez disso, devemos desenvolver boas práticas, tanto para cientistas, como para amadores e entusiastas da natureza que protejam tanto os animais como as pessoas.

Num estudo que realizou em 2016, Mulero-Pázmany sugere que os operadores dos drones devem evitar voar de frente para os animais, uma vez que tal é considerado o ato mais ameaçador. Do mesmo modo, todos os voos devem ser o mais curtos e discretos possível, devendo-se utilizar modelos mais pequenos e elétricos que são mais silenciosos que os drones de maior dimensão que funcionam com gasolina. A altitude também é fundamental e os operadores deve esforçar-se por permanecer à altitude mais elevada possível no terreno enquanto recolhem dados úteis.

Por fim, deverá existir cuidado para evitar espécies em vias de extinção, animais que possam ser mais vulneráveis à presença dos drones, como os animais que voam ou que possam ter evoluído para temer os predadores aéreos e nunca se deve interferir com os animais durante períodos sensíveis do seu ciclo de vida, como a época de acasalamento.

"Creio que é uma faca de dois gumes", afirma Gilbert. Por um lado, quando os drones são operados de forma correta, existe a oportunidade de ajudar as pessoas a sentirem-se mais ligadas com a vida selvagem, algo que Gilbert afirma ser de extrema importância para os resultados da conservação.

Mas as pessoas também não se podem esquecer de que os animais têm as suas próprias vidas e receios, e nós não temos de interferir", afirma Gilbert.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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