Capturado o Primeiro Rinoceronte-de-Sumatra em Tentativa Desesperada Para Salvar a Espécie

Durante meses, os conservacionistas tentaram capturar este rinoceronte fêmea criticamente ameaçado, por forma a transportá-lo para um centro de reprodução.segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

No domingo de manhã, um dos últimos rinocerontes-de-sumatra do mundo caiu numa armadilha na ilha do Bornéu.

Felizmente, esta armadilha não pertencia a caçadores furtivos, mas sim a uma aliança internacional de organizações conservacionistas denominada Sumatran Rhino Rescue, que pretende salvar o rinoceronte-de-sumatra da extinção.

Com menos de 80 destes raros animais restantes em estado selvagem, a expetativa é que esta fêmea, que foi chamada Pahu, introduza alguma da muito necessária diversidade genética na população reprodutora de rinocerontes já em cativeiro noutro local da Indonésia.

“Quando uma população se encontra reduzida a um efetivo de 80 exemplares, cada animal torna-se tremendamente importante”, diz Susie Ellis, diretora executiva da International Rhino Foundation. “Isto significa que o programa de reprodução em cativeiro ir-se-á expandir.”

“O rinoceronte-de-sumatra é um dos mamíferos evolutivamente mais distintos do planeta, e o resgate desta semana foi um passo crucial para garantir que não perdemos todo um ramo da árvore da vida dos rinocerontes”, disse Jonathan Baillie, vice-presidente executivo e investigador principal na National Geographic Society, que é parceira da Sumatran Rhino Rescue.

“Mas isto é apenas o começo. Se queremos salvar esta espécie, precisamos do apoio firme de outros indivíduos e organizações.”

É precisa toda uma aldeia para transportar um rinoceronte

Transportar um animal selvagem de grandes dimensões é sempre um processo delicado, mas quando nos lembramos que Pahu foi capturada numa concessão mineira isolada no meio de uma planície na floresta húmida, a história da sua extração começa a parecer hercúlea.

Primeiro que tudo, Pahu foi sedada antes de ser conduzida até um contentor, que foi então colocado no interior de um camião. Veterinários da Indonésia, Malásia e Austrália trabalharam em conjunto para garantir a sua segurança e conforto durante todo o percurso.

Simultaneamente, uma empresa mineira local enviou um buldózer para viajar com a equipa, por forma a limpar as estradas dos detritos que tinham sido arrastados por fortes chuvadas. Uma escolta policial assegurou que a coluna de viaturas não era atrasada por mirones curiosos nem por outras distrações.

No fim de contas, a viagem de 150 quilómetros desde Kutai Ocidental até ao centro de recuperação mais próximo, em Kelian, foi concluída ao nascer do sol de terça-feira. E Pahu resistiu com bravura.

“Ela está feliz. É saudável. Está a comer. Está a dormir. Está a fazer todas essas coisas maravilhosas que nós queremos que ela faça”, diz Margaret Kinnaird, que, nos últimos dois anos, tem estado a coordenar as iniciativas da WWF Internacional para salvar o rinoceronte-de-sumatra. (A WWF também faz parte da aliança Sumatran Rhino Rescue.)

“E sabem que mais, aconteceu no meu aniversário!” diz Kinnaird. “Abri o email e fiquei, ‘Ó meu deus, que presente!’”

Só um bocadinho de paciência

Acredite-se ou não, a WWF-Indonésia e a sua equipa de ONGs locais têm estado a tentar capturar Pahu desde abril de 2018.

“A espera foi horrível”, diz Kinnaird. “Mas tenho de fazer uma vénia ao pessoal de campo, pois eles aguentaram durante oito meses e esperaram que este rinoceronte entrasse na armadilha.”

Agora, eis que começa um novo tipo de espera.

Ainda que Pahu seja uma fêmea, não há forma de saber, por enquanto, se ela já tem idade suficiente para ter atingido a maturidade sexual, ou pior, se ela não se terá já tornado infértil.

“Os rinocerontes-de-sumatra desenvolvem tumores uterinos se não se reproduzirem”, esclarece Ellis.

Esta é uma das razões pelas quais os conservacionistas estão tão desejosos de capturar as populações fragmentadas que ainda restam, e aproximá-las umas das outras. Na Sumatra, por exemplo, pensa-se que os últimos 75 animais em estado selvagem estejam dispersos em 10 subpopulações diferentes. E, no Bornéu, onde Pahu foi capturada, é possível que já só existam menos de 10 indivíduos.

Para que os veterinários possam determinar o estado de Pahu, têm primeiro de a habituar à sua presença. Basta uma boa observação da sua dentição para obter informação relevante quanto à idade.

“Ela precisa de ser treinada para entrar dentro da clínica e deixar que os veterinários lhe toquem e a examinem de formas que a maioria dos rinocerontes, provavelmente, não iria gostar de ser examinada”, acrescenta Kinnaird.

“Isso pode ainda demorar alguns dias. Ou pode demorar algumas semanas.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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