Fotos Artísticas Expõem o Tráfico de Vida Selvagem na Fronteira do Canadá

De suportes para livros, em patas de zebra, a colares de marfim, estes são alguns dos produtos apreendidos pelas autoridades.quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Por Rachel Fobar
Fotografias Por Christine Fitzgerald

Numa localização secreta no Canadá, numa sala trancada na cave de um edifício, o governo armazena milhares de itens de vida selvagem apreendidos na fronteira pelas forças da lei. A fotógrafa Christine Fitzgerald, a quem foi concedida uma licença especial para visitar as instalações, ficou impressionada com a magnitude da situação. Viu espécimes que variavam de cascos de zebra a chifres de rinoceronte, de garras de urso a esculturas de marfim, penas de pássaro e muito mais.

“Isto elucida-nos realmente sobre o quão horrível é este problema – o tráfico ilegal de vida selvagem”, diz ela. “Não existe um único país que esteja imune a este problema.”

Muitas pessoas associam o tráfico de vida selvagem a África e à China, mas o Canadá e os Estados Unidos também são grandes consumidores – e fornecedores. Segundo a organização de conservação Defenders of Wildlife, quase 50 000 carregamentos de vida selvagem e produtos derivados ilícitos foram confiscados a entrarem e a saírem dos portos dos EUA entre 2005 e 2014. De acordo com o jornal San Diego Union-Tribune, o Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA segue anualmente mais de 10 000 investigações de crimes relacionados com vida selvagem. Todos os anos, o Canadá apreende uma média de 330 carregamentos ilegais de vida selvagem, muitos envolvendo animais vivos, como reporta a CBC. Mais de 4 000 animais e partes de animais foram confiscados no Canadá desde 2011.

A Direção de Fiscalização de Vida Selvagem do Canadá deu uma autorização especial a Fitzgerald para ver alguns dos itens de vida selvagem apreendidos. No inverno e na primavera de 2018, ela isolou-se durante vários dias, na cave do edifício, onde perdeu horas a remexer em caixas e a tirar fotografias. Algumas das fotos foram reveladas no local, numa câmara escura que ela improvisou a partir de uma tenda de pesca.

“Eu queria criar imagens tradicionais de natureza morta que cativassem a imaginação das pessoas e, de certa maneira, dar voz a todos estes animais”, diz ela.

Algumas das suas fotos fazem-nos olhar duas vezes, como a foto dos chifres de antílope nos castiçais, ou a foto de uma vesícula de um urso desidratada entre duas peras. É algo propositado – ela está a tentar captar a nossa atenção.

“Eu acredito sempre que as melhores imagens, as melhores peças de arte, são aquelas que nos deixam a pensar durante dias a fio”, diz ela.

O objetivo do projeto de Fitzgerald é dar a conhecer ao mundo o comércio ilegal de vida selvagem que, segundo algumas estimativas, está avaliado entre os 7 e os 23 mil milhões de dólares anuais.

Apesar de muita da fotografia sobre o tráfico de vida selvagem ter um estilo fotojornalístico, Fitzgerald refere que queria ter uma abordagem mais artística. Ela utilizou um método da época de 1850, chamado processo fotográfico de colódio húmido, que confere às fotos um ar antigo.

“Eu queria transportar o espetador para o passado, mas capturar uma imagem contemporânea de um problema contemporâneo”, diz Fitzgerald.

Ela queria levar os espetadores de volta ao tempo do colonialismo, altura em que era comum os viajantes ocidentais trazerem de África e da Ásia, lembranças como marfim e animais embalsamados.

“A beleza do processo fotográfico de colódio húmido está na obtenção de imperfeições não planeadas e para mim, estas imperfeições funcionam como metáfora para as imperfeições da humanidade”, diz Fitzgerald. “O tráfico ilegal de vida selvagem serve apenas a ganância. Existe devido à ignorância. Existe devido à indiferença. Todas estas são imperfeições da humanidade.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

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