Morcegos Estão a Ser Mortos Para que as Pessoas Possam Beber o Seu Sangue

Todos os meses, na Bolívia, milhares de morcegos são vendidos pelo seu sangue, supostamente para ajudar a tratar epilepsia e outras doenças.quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Nos mercados da Bolívia não é difícil encontrar morcegos à venda. Normalmente  estão guardados em caixas de sapatos malcheirosas, algumas delas com quase 20 morcegos todos comprimidos, com os vivos a rastejarem por cima dos que já sucumbiram a doenças ou stress.

As pessoas compram-nos para poderem beber o seu sangue fresco, que alegadamente tem propriedades curativas – em particular, pensam elas, para controlar a epilepsia. “Esta crença está muito enraizada na nossa sociedade, sobretudo nos Andes”, explica o especialista em morcegos Luis F. Aguirre, diretor do centro para a diversidade e genética da Universidade de San Simon, em Cochabamba. “Recebo chamadas a requisitarem morcegos pelo menos cinco vezes por ano”, diz ele.

Aguirre não faz parte do negócio da venda de morcegos pela oferta mais elevada. Nos últimos 20 anos, trabalhou na proteção destes animais como chefe do Programa para a Conservação dos Morcegos da Bolívia, uma rede de voluntários e profissionais que faz investigação e educa a população sobre conceções erradas dos morcegos. Mas, como Aguirre é um homem de morcegos, e como as pessoas querem morcegos vivos – contactam-no na esperança de ele poder ajudar a encontrar stock fresco.   

“Uma vez, recebi um telefonema de França, feito por um boliviano, a perguntar sobre morcegos”, diz ele. Quem fez a chamada queria tratar a epilepsia de uma criança com sangue de morcego. Nesse caso, tal como em casos semelhantes, Aguirre repete sempre o mesmo refrão: Não existem provas de que beber sangue de morcego possa trazer algum benefício medicinal, opondo-se vigorosamente a tal prática.  

Contudo, a crença – e a matança – persiste. Oficialmente é ilegal caçar morcegos. A lei boliviana proíbe a morte ou venda de qualquer animal sem uma autorização adequada, sendo um crime punível com uma pena de prisão até seis anos. Mesmo assim, uma pesquisa publicada em 2010 reportava que mais de 3 000 morcegos eram vendidos mensalmente em apenas quatro das grandes cidades da Bolívia. As espécies variavam entre morcegos-da-fruta, morcegos que comem insetos e morcegos-vampiros.

Aguirre afirma que a monitorização periódica sugere que as vendas permanecem atualmente em níveis semelhantes – e podem até ter aumentado – apesar da maior atenção dada ao crime de vida selvagem e à pressão da opinião pública. A única grande diferença é que os morcegos já não são exibidos tão abertamente como no passado, disse Aguirre por correio eletrónico: “Mas não é difícil encontrá-los.”

Caçar morcegos é ilegal, no entanto, o direito à prática da medicina tradicional está protegido pela lei. Quando as práticas culturais de longa data e a proteção da vida animal entram em conflito, a proteção da vida animal tende a ficar para segundo plano, diz Kate McGurn Centellas, antropóloga da Universidade do Mississípi, que estuda medicina tradicional no país. 

De acordo com Rodirgo Herrera, assessor legal na Direção Geral de Biodiversidade e Áreas Protegidas do Ministério do Meio Ambiente e da Água, até à data, não existem registos de prisões relacionadas com o comércio ou matança de morcegos. O governo boliviano afirma não ter registos oficiais de morcegos mortos e que o único relatório relacionado, prende-se com um incidente em 2015 na capital, La Paz, onde 22 morcegos de várias espécies estavam a ser vendidos para uso medicinal e fora confiscados. Todos os animais vieram a morrer posteriormente.

O "PODER" DO SANGUE DE MORCEGO

A crença de que o sangue de morcego ajuda a curar alguém com epilepsia é difícil de provar ou refutar. Segundo Aguirre, se uma pessoa com epilepsia bebesse sangue de morcego e não sofresse um ataque durante algum tempo, mas depois tivesse um, os crentes poderiam simplesmente dizer que a potência do sangue tinha desvanecido – expressando a necessidade de um morcego fresco.

Esta prática está entranhada em cerimónias e as origens do suposto poder do sangue de morcego permanecem desconhecidas. Os bolivianos têm um compromisso cultural profundo com a medicina tradicional, que pode incluir o sacrifício de animais e remédios à base de ervas. Centellas diz, por exemplo, que se queimam os fetos desidratados de lamas e que as suas cinzas são enterradas debaixo de um edifício para dar sorte a uma casa ou a um laboratório científico. Ela refere que o sangue é visto como uma força vital que, quando consumido, pode transmitir algumas das suas propriedades.

No que aos morcegos diz respeito, o seu valor vem provavelmente do facto de serem vistos como criaturas poderosas com características únicas, diz Centellas. “Eles voam, mas são mamíferos – não são pássaros. Não são vistos como pertencendo ordenadamente a qualquer categoria, talvez seja essa a fonte dos seus supostos poderes curativos.” Especificamente, acrescenta ela, “ao consumir sangue de morcego talvez seja possível equilibrar ou corrigir algo que é visto como uma perturbação ou desequilíbrio no corpo humano – que se manifesta em ataques de convulsões, ou epilepsia, como é conhecida no sistema biomédico.

Normalmente, um morcego seria obtido vivo, a sua cabeça cortada e o sangue bebido fresco, diz Aguirre. Mas existe uma segunda opção, se o morcego já estiver morto, que envolve fritar o morcego com pele e colocá-lo num saco de tecido embebido em álcool para que depois possa ser bebido – algo semelhante ao mescal que é servido com uma lagarta dentro da garrafa.

Centellas, que nunca testemunhou qualquer destes rituais, diz que estas duas técnicas parecem consistentes com outras lógicas de abordagem usadas na Bolívia, e que ela já viu com os próprios olhos. Ela diz que as cobras, por exemplo, são muitas vezes colocadas em álcool para serem depois bebidas, pois existe a crença de que a mistura aumenta a virilidade, energia ou fertilidade, entre outras coisas.

OS MAIORES ASSASSINOS DE MORCEGOS

Os morcegos que são vendidos pelo seu sangue – e que o estudo de mercado feito por Aguirre mostra incluir várias espécies de morcego-da-fruta, morcegos que comem insetos como o morcego-de-orelhas-de-rato e morcegos-vampiros – não são considerados raros o suficiente para serem considerados espécies ameaçadas.

As pessoas que vendem os morcegos nos mercados não são as mesmas que os caçam. Aguirre diz que os intermediários costumam encontrar os locais de pouso dos morcegos em casas abandonadas, caves e áreas florestais. Depois, apanham os morcegos com redes como as que são utilizadas para caçar borboletas e colocam-nos em sacos de tecido ou em caixas para serem transportados para os mercados urbanos.

Apesar disto poder soar mal para os morcegos da Bolívia, matá-los para o consumo de sangue está longe de ser a sua maior ameaça, diz Rodrigo A.Medellín, co-presidente do grupo especialista em morcegos da União Internacional para a Conservação da Natureza, que faz o rastreamento da classificação das espécies.

Medellín, que também é um explorador da National Geographic, enfatizou através de correio eletrónico que “a maior ameaça continua a ser a perturbação e a destruição de locais de pouso, ou a destruição de habitat. Infelizmente, três mil morcegos por mês não é nada quando comparado com a mortalidade causada pelas alterações no habitat e pela destruição de locais de pouso”.

Qualquer redução do número de morcegos pode ser prejudicial para os ecossistemas pelo facto de, por exemplo, eliminar polinizadores de plantas e exterminadores cruciais de insetos. A caça oportunista de morcegos também põe em risco a vida das pessoas.

“Morcegos que comem insetos são muito bons no controlo vetorial – eles comem mosquitos e outros artrópodes que transportam parasitas ou doenças, como a malária, que infetam pessoas”, diz Jonathan Towner, ecologista no Centro dos EUA para Controlo e Prevenção de Doenças, em Atlanta, na Geórgia, que se especializa em patogénicos altamente perigosos. Ele refere que, com menos morcegos, existem mais insetos destes e que isso pode potenciar as possibilidades da população estar mais exposta a doenças como a febre amarela, zika ou malária.

Perder tempo a apanhar morcegos também acarreta riscos para a saúde. A preocupação principal é a raiva, segundo Brian Bird, virologista, veterinário e especialista em morcegos na Davis One Health Institute, na Universidade da Califórnia. Um morcego infetado numa situação de stress, tal como estar fechado numa caixa com outros morcegos, pode morder mais do que o habitual e espalhar a raiva.

Os morcegos-vampiros, que existem apenas na América Latina, “são de muitas formas o vetor perfeito para a raiva”, diz Gerald Carter, explorador da National Geographic e especialista em morcegos-vampiros na Universidade Estadual do Ohio, em Columbus. Eles bebem sangue e a raiva é transmitida através de mordidelas – permitindo ao vírus passar de um morcego infetado para o animal que é mordido.

Towner diz que para as pessoas que bebem o sangue de morcego, o risco de infeção é menor porque o vírus é mais predominante na saliva e no tecido cerebral, e não nos outros fluídos corporais. Mesmo assim, podem existir outros agentes patogénicos – talvez até novos – presentes no sangue cru de morcego. Ele acrescenta que, se o morcego morreu por si próprio, então a situação é ainda mais alarmante – um morcego morto ou um morcego debilitado tem mais probabilidades de ter uma doença.

Não existem registos oficiais que liguem a prática de beber sangue de morcego aos pacientes na Bolívia. Bird e outros especialistas em saúde pública afirmam que essa questão pode dever-se apenas à fraca vigilância. Bird avisa, “quando se mata e bebe o sangue destes animais, expomo-nos a todo um espectro de potenciais agentes patogénicos ou de outros já conhecidos”.

Os morcegos, em particular, têm uma história recente de ligação a vírus emergentes com sérias consequências para a população – como o Ébola, o coronavírus da SARS  e um primo do Ébola chamado vírus de Marburgo. Em cada caso, um agente patogénico saltou do seu reservatório natural (outra espécie), para um grupo de pessoas com pouca exposição anterior ao mesmo e consequentemente poucas proteções imunológicas para lutarem contra ele – permitindo que uma conflagração se transforme numa crise grave.

“Na realidade, são estes eventos de infeções raras que causam epidemias”, diz Bird. “Sabemos que as infeções são raras, as pessoas que se envolvem em atividades de alto risco, como o consumo de carne de caça, é que fazem com que um evento de infeção incomum se transforme em algo mais comum.”  

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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