Preguiças, Manatins e Outros Animais Selvagens Resgatados Do Negócio Turístico Na Amazónia

As autoridades resgataram 22 animais selvagens que estavam a ser usados ilegalmente como adereços em fotos turísticas numa cidade peruana no rio Amazonas. quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Por Natasha Daly
Fotografias Por Kirsten Luce

É um final feliz para os 22 animais selvagens amazónicos que foram resgatados de cativeiro na semana passada em Puerto Alegría, no Peru, uma pequena cidade na selva do rio Amazonas. As autoridades peruanas confiscaram os animais que incluíam três preguiças, um manatim e um porco-espinho que os habitantes locais usavam para atrair os barcos de passeio.

Este salvamento perturba o sistema de turismo mortífero que afeta a vida selvagem em Puerto Alegría, um mercado ilegal mas muito lucrativo, instalado nesta área empobrecida. Todos os dias existe um fluxo constante de barcos de passeio que trazem turistas até esta comunidade para tirarem fotos com animais que foram arrancados da selva. Nas horas mais calmas, os habitantes locais guardam os animais dentro das suas casas ou em jaulas debaixo das suas habitações, substituindo-os por outros animais da selva quando estes morrem. Os 22 animais resgatados na semana passada tinham sido provavelmente capturados nas últimas semanas ou meses, como nos conta Angela Maldonado, bióloga que trabalha com a ONG Entropika, sediada na Colômbia, e que organizou a intervenção.

A operação policial acontece cerca de um ano e meio após a National Geographic ter publicado uma investigação sobre a indústria do turismo de vida selvagem na cidade, onde expunha os maus tratos a animais e os operadores turísticos que alimentavam diretamente o problema. Segundo Maldonado, o stress de permanecerem em jaulas com poucas condições, alimentados com dietas pobres e a lidarem com dezenas de pessoas diariamente, faz com que muitos dos animais morram rapidamente após terem sido capturados. A ONG britânica World Animal Protection já havia conduzido uma investigação de seis meses onde reportava a escala dos maus tratos.

Maldonado tem quase a certeza de que os animais documentados pela National Geographic em Agosto passado já morreram todos, incluindo um papa-formigas que era alimentado com uma dieta de iogurte de morango.

Maldonado diz que o artigo da National Geographic ajudou a exercer pressão para que as autoridades agissem, após as diversas tentativas durante vários anos para que eles interviessem. Alberto Yusen Caraza Atoche, promotor ambiental da província de Loreto, na qual se situa Puerto Alegría, diz que o artigo aumentou a sua preocupação sobre a situação “dado que as pessoas a nível internacional tinham conhecimento do que se estava a passar.”

“Este foi o momento certo para agir porque esta é uma área bastante esquecida no Peru,” diz Caraza Atoche. “Mas nós, enquanto Ministério Público, [temos o dever de assegurar] que as leis são respeitadas e os animais são protegidos.”

Puerto Alegría fica situada numa área chamada Três Fronteiras, onde o Peru, a Colômbia e o Brasil se encontram no rio Amazonas. Não existem praticamente fronteiras nesta zona, o que facilita o tráfico de vida selvagem e cria dificuldades às autoridades dos três países diferentes para lidarem com a situação.

Maldonado diz-se aliviada pelo facto do governo peruano ter agido. Isto porque as autoridades ambientais peruanas não têm presença na área e a dispendiosa operação envolveu o envio, por meios aéreos, de 33 agentes da polícia para a região e de dois aviões de carga militares para transportarem os animais. “Nós queixamo-nos sempre que a polícia não faz nada. Desta vez eles merecem o reconhecimento por terem agido,” diz ela. “Sem eles, isto nunca teria acontecido.”

A Missão de Salvamento

Para além dos 33 agentes da divisão ambiental da Polícia Nacional Peruana, a operação envolveu a Guarda Costeira Peruana, a Força Aérea, o promotor Caraza Atoche, veterinários, e um representante do Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA sediado em Lima. A equipa, com cerca de 40 elementos, atracou em Puerto Alegría na quinta-feira de manhã. Missões de reconhecimento anteriores tinham descoberto que 28 animais aparentavam estar em cativeiro de forma ilegal e identificaram algumas das casas onde estes se encontravam.

As autoridades efetuaram buscas na plataforma junto ao rio, onde os habitantes aguardavam com os animais prontos para serem fotografados, em várias casas, e num lago que albergava um manatim com peso a menos e que subsistia, em parte, através de leite de soja que lhe era dado pelos turistas através de biberões. Utilizando redes e muita mão-de-obra, os agentes içaram o manatim para fora de água e colocaram-na numa rede de segurança onde a transportaram até ao barco que a aguardava.

A equipa salvou 22 dos 28 animais que se sabia estarem em cativeiro. Entre os animais resgatados, estava uma anaconda de 3 metros, um macaco-esquilo, um porco-espinho, um pequeno gato-maracajá, várias araras, papagaios e tucanos. Alguns não foram encontrados, como um segundo porco-espinho e um macaco-da-noite.  

Os agentes, os veterinários e os animais desceram o rio de barco até Santa Rosa, onde embarcaram nos aviões de carga militares e voaram até Iquitos, no Peru. Os animais foram depois levados para duas instalações de reabilitação, incluindo o Centro de Rescate Amazonico (CREA), que se especializa em cuidados para manatins. Dada a rapidez com que a operação foi montada, no espaço de apenas algumas semanas, as ONG Entropika e CREA tiveram dificuldades em encontrar cuidados adequados e alojamento para todos os animais. Violeta Barrera Navarro, veterinária da CREA, está a cuidar da preguiça mais pequena em sua casa, e a instituição espera angariar fundos para construir um recinto adequado para o gato-maracajá, que se encontra mantido numa jaula. Os animais estão a responder bem aos tratamentos, diz Barrera Navarro, mas salienta que o gato-maracajá continua muito agitado.

Os veterinários irão eventualmente avaliar quais os animais que podem ser devolvidos à natureza e quais devem permanecer em cativeiro. O manatim, por exemplo, vai necessitar de três anos de recuperação na CREA. Se tudo correr bem, espera-se que a possam entregar a um parque nacional local.

Solução Permanente?

Angela Maldonado, da Entropika, percebe que existe o risco de os habitantes de Puerto Alegría irem simplesmente capturar novos animais para substituírem os que foram confiscados. De forma a evitar esta situação, a Entropika planeia trabalhar imediatamente com a comunidade, na tentativa de a ajudar a encontrar novas formas de rendimento que continuem a atrair os barcos de passeio sem que se explorem animais selvagens.

“Precisamos de encontrar uma solução a curto prazo para que estas pessoas não sintam que foram deixadas sem nada, especialmente na altura do Natal,” diz Maldonado. A Entropika e a CREA planeiam começar a trabalhar com a comunidade esta semana para instalar um museu cultural temporário, que exiba instrumentos musicais peruanos, utensílios de culinária e corantes de fibra. A longo prazo, Maldonado gostaria de trabalhar com a comunidade para criar jardins de borboletas – uma área na qual ela é especializada. Estes jardins têm sucesso noutros locais e diz que, apesar de seis meses de trabalho árduo para que possam ser implementados, é um projeto lindo, de baixo custo, onde todos os membros da comunidade, novos e velhos, podem participar.

Tem também esperança que a polícia local ajude a regularizar a situação no terreno.

“Foi muito trabalhoso, mas penso que valeu a pena,” diz Maldonado referindo-se à operação. “Os animais merecem isto.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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