Animais

Estamos a Perder as Borboletas-Monarca Rapidamente – Saiba Porquê

Não é demasiado tarde para as salvarmos; a questão é se nos vamos dar a esse trabalho, dizem os cientistas. Wednesday, January 9, 2019

Por Carrie Arnold
Um novo estudo mostra que as asas da borboleta-monarca estão a ficar maiores, possivelmente devido às alterações climáticas que estão a mudar as zonas de reprodução mais para norte e a obrigar as borboletas a percorrer distâncias maiores.

A migração épica de quase 5 mil quilómetros das borboletas-monarca pode vir a tonar-se numa coisa do passado. Todos os outonos, as borboletas-monarca viajam das suas casas de verão, no norte dos EUA e no Canadá, para os habitats de inverno na Califórnia e no México. Mas a contagem do Dia de Ação de Graças de 2018 da borboleta-monarca ocidental revelou que o número de borboletas que passa o inverno na Califórnia decaiu para apenas 20.456 – um decréscimo de 86 porcento face ao ano anterior. O número de borboletas-monarca orientais que passou o inverno no México desceu 15 porcento, comparativamente ao ano anterior, com um declínio total, nos últimos 20 anos, de mais de 80 porcento, segundo a National Wildlife Federation.

A contagem de 2018 é apenas a última de uma longa série de más notícias para a carismática borboleta, que faz a migração de insetos mais longa que se conhece. A razão? Humanos. As forças combinadas de alterações climáticas e a perda de habitat provocadas pelos humanos estão agora a ameaçar de extinção a borboleta-monarca norte-americana.

O aumento dos níveis de dióxido de carbono pode estar a tornar as asclépias – o único alimento que as lagartas de borboleta-monarca comem – demasiado tóxicas para que sejam toleradas pelas borboletas. As temperaturas mais elevadas também podem estar a contribuir para a mudança das áreas de reprodução mais para norte. Isto significa que as rotas de migração das borboletas-monarca podem estar a ficar mais longas e consequentemente mais difíceis.

“Várias ameaças ambientais podem estar a empilhar-se umas em cima das outras”, diz Karen Oberhauser, entomologista e diretora do UW-Arboretum, na Universidade do Wisconsin. As consequências são difíceis de prever.

Apesar da borboleta-monarca estar no ponto de inflexão de extinção – no qual os seus números baixam demasiado para permitir a recuperação da espécie – cientistas como Obserhauser dizem que ainda não está tudo perdido. A criação de novos habitats de borboleta-monarca, através da plantação de espécies de asclépias nativas, pode providenciar combustível crucial e pontos de descanso para as borboletas viajantes, bem como agir contra as alterações climáticas.

ONDE ESTÃO AS ASCLÉPIAS ?

Um e-mail de 2004, enviado por um agricultor da zona centro-oeste dos EUA, alertou o entomologista Chip Taylor, da Universidade do Kansas, para o apocalipse iminente da borboleta-monarca. A criação de milho e soja resistentes a herbicidas significava que os agricultores podiam erradicar as ervas daninhas e outras vegetações rasteiras, incluindo as asclépias, que competiam com as suas plantações.

A mão invisível do medo e do terror apertou a garganta de Taylor. Ele tinha passado anos a estudar a borboleta-monarca e sabia que esta dependia das asclépias plantadas na sua rota migratória ao longo do centro-oeste dos EUA. A chegada desta variedade de plantações resistentes aos herbicidas significava a morte das asclépias.

Os dados dos anos seguintes só confirmaram os piores receios de Taylor: os números da borboleta-monarca começaram a cair a pique. “Num período de tempo muito curto, a borboleta-monarca levou um rude golpe, com consequências tremendas”, diz Taylor.

Para além da perda de asclépias nas quintas, a seca também prejudicava a sua qualidade. Uma seca em 2013, no Texas, dizimou as asclépias na região, contribuindo para o baixo número de borboletas nesse ano.

Flores ricas em néctar são importantes para a sobrevivência continuada da borboleta-monarca. As asclépias, a única planta que as lagartas desta borboleta comem, são especialmente importantes.

A perda de asclépias fez a opinião pública, cada vez mais preocupada, perceber que as belas borboletas podiam tomar o mesmo rumo que o pombo-passageiro ou o mamute-lanoso. A noção de que as asclépias estavam a desaparecer, com o clima a mudar de forma continuada, fez temer o pior para o futuro destas borboletas. Uma série de estudos feita nos últimos anos demonstra que essas preocupações não são infundadas. 

A subida dos níveis de dióxido de carbono provocada pela queima de combustível fóssil está no centro das alterações climáticas, e esta subida de carbono pode alterar a forma como as plantas, entre as quais as asclépias, produzem determinadas moléculas, explica a ecologista Leslie Decker, investigadora pós-doutorada da Universidade de Stanford. A asclépia produz esteroides tóxicos chamados cardenolides. A borboleta-monarca evoluiu de uma forma que lhe permite tolerar níveis baixos desse veneno, armazenando-o no seu corpo como um dissuasor de sabor azedo para os predadores.

Os cardenolides também ajudam as borboletas a impedir o crescimento de um parasita que tem um nome capaz de torcer a língua: Ophryocystis elektroscirrha. “Eu tive de praticar a pronúncia disto quando estava na universidade”, ri Decker.

O parasita unicelular consegue infetar lagartas recém-eclodidas, perfurando os seus intestinos para se reproduzir. Se as lagartas sobreviverem, as borboletas daí resultantes têm asas deformadas e menos resistência. Os cardenolides ajudam a borboleta-monarca a tolerar este parasita de forma a que não lhe faça mal. 

Quando Decker fez criação de asclépias numa estufa com níveis de dióxido de carbono de 760 partes por milhão (ppm) – níveis que os cientistas do clima projetam poder vir a acontecer dentro de 150 a 200 anos se o nível atual de 410 ppm continuar a subir – descobriu que as plantas produziam uma mistura diferente de cardenolides, uma mistura menos eficaz contra os parasitas da borboleta-monarca. Publicou os resultados dos estudos em julho de 2018 na Ecology Letters.

 “Não sabemos até que ponto estamos a alterar os fármacos naturais à nossa volta”, diz Decker.

ZONA HABITÁVEL DE TOXICIDADE

Para além disso, nem todas as asclépias são iguais. Quando as pessoas começaram a plantar asclépias nos seus quintais, as grandes superfícies comerciais e cadeias de abastecimento forneceram-nas avidamente. Contudo, as plantas que ofereciam eram de uma espécie de asclépia resistente, de fácil crescimento, que se encontra originalmente no México, a Asclepias curassavica. Tal como as suas primas norte-americanas, a Asclepias curassavica produz cardenolides tóxicos, mas em níveis significativamente mais altos que os das espécies de asclépias nativas dos EUA. Estes níveis estão no limite tolerável pela borboleta-monarca, diz Matt Faldyn, um estudante de doutoramento em ecologia na Universidade Estatal do Louisiana.

No trabalho publicado na revista Ecology, Faldyn descobriu que a subida da temperatura aumentava também os níveis de cardenolides na Asclepias curassavica, tornando-as demasiado tóxicas para as borboletas. Existe uma zona habitável para estas toxinas, onde não são demasiado tóxicas mas também não são demasiado fracas. Com as alterações climáticas, as asclépias podem passar essa zona de inflexão e abandonar a zona habitável”, diz Faldyn.

Oberhauser diz que, como ambos os estudos sobre a toxicidade das asclépias foram feitos em laboratório, os cientistas ainda não têm a certeza sobre o impacto que a mudança dos níveis de cardenolides pode ter na borboleta-monarca. Ainda assim, Faldyn sugere que se procurem espécies nativas de asclépia para cultivar, dado que estas estão mais adaptadas aos ambientes locais e são menos propícias a transformarem-se em ultra-tóxicas.  

ASAS MAIORES

As alterações climáticas não estão a afetar a borboleta-monarca apenas através das asclépias. Estão também a alterar diretamente a forma das borboletas. Micah Freedman, um estudante de doutoramento em ecologia e evolução da Universidade da Califórnia, em Davis, visitou coleções de museus nos EUA em 2017. Com a ajuda da bolsa de exploração da National Geographic Society, Freedman conseguiu fazer a medição de milhares de borboletas-monarca, datando até 1870. As borboletas-monarca vêm em todos os tamanhos, com uma largura de asas entre os 8 e os 12 centímetros. Mas só quando Freedman começou a analisar as medições no computador é que descobriu um pequeno, mas consistente, aumento de 4.9 porcento no tamanho das asas ao longo do último século e meio.

“Eu próprio não acreditava ao início”, diz ele.

O estudo de Freedman, publicado em dezembro no sítio da internet Animal Migration, não conseguia determinar o porquê do crescimento das asas, mas ele acredita que uma das razões possam ser as alterações climáticas. A subida das temperaturas pode estar a empurrar as zonas de reprodução da primavera e do verão mais para norte, o que significa uma viagem de regresso mais longa para o México, no outono. Sabendo-se que o tamanho da borboleta corresponde à distância da migração, asas mais longas têm uma vantagem maior sobre as suas homólogas mais pequenas.

Milhões de borboletas-monarca orientais migram quase 5 mil quilómetros para passarem o inverno nas florestas de pinheiros em Oyamel, no centro do México.

Com os números da população a decrescerem, a extinção parece cada vez mais aparente. A United States Geological Survey pediu a Oberhauser, a Brice Semmens, biólogo pesqueiro no Instituto Oceanográfico Scripps que estuda dinâmicas de população, e a um grupo de peritos para determinarem as maiores ameaças à borboleta-monarca e as probabilidades de declínio da espécie até um ponto de não retorno. Os seus modelos matemáticos preveem uma probabilidade entre 11 e 57 porcento em como os números de borboleta-monarca podem decrescer tanto nos próximos 20 anos que a espécie não vai conseguir recuperar. Para reduzir esta probabilidade para metade, as populações de borboleta-monarca devem aumentar em mais de 5 milhões, diz Semmens.

“Não existe um processo populacional inexorável. Não conseguimos prever o que vai acontecer no ano que vem”, diz.

Um estudo de acompanhamento feito pelo grupo USGS mostrou que os três factores de topo que contribuem para um número mais baixo de borboletas-monarca são a perda de habitat na zona norte e centro-oeste dos EUA, e as altas temperaturas, quer na primavera, quer no final do verão. Taylor estima que sejam necessários mais de mil milhões de caules de asclépias para reduzir a carnificina.

“Temos a capacidade para salvar a borboleta-monarca e outras espécies”, diz Taylor. “A questão é saber se temos a vontade para o fazer.”

COMO PODE AJUDAR

- Cultive asclépias nativas da sua área, onde as borboletas possam pôr ovos e as lagartas possam comer. Para tal, um vaso ou dois serão suficientes, de acordo com a Monarch Joint Venture, um grupo sem fins lucrativos, agências governamentais, empresas e instituições académicas.

 

- Forneça plantas nativas ricas em néctar para que as borboletas-monarca se possam alimentar.

 

- Torne-se um cidadão cientista. Existem inúmeras oportunidades para participar no rastreamento da migração das borboletas, no crescimento de asclépias e lagartas e em outros aspetos importantes para a sobrevivência da borboleta-monarca.

 

- Compreenda porque é que o nosso clima está a ficar mais quente e quais são as soluções.

 

- Encoraje os outros a aprenderem e a envolverem-se.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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