Animais

Filho de Tubarão Sabe Nadar

O nosso planeta é hoje casa para cerca de 500 espécies de tubarões, algumas só descobertas recentemente. segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Por Luís Alves

Ao longo de aproximadamente 450 milhões de anos, a evolução fez com que estes animais se tornassem num dos grupos de animais mais bem-sucedidos do planeta, mas o que torna os tubarões tão especiais?

Uma das razões do enorme sucesso dos tubarões é a eficiência com que conseguem explorar os oceanos. Para muitos, o tubarão-azul (Prionace glauca) representa o expoente máximo desta eficiência – possuidores de uma elegância majestosa, estes animais são capazes de percorrer distâncias impressionantes em curtos períodos de tempo, com consumos de energia que envergonhariam os carros híbridos mais recentes. (Conheça a espécie que foi descoberta recentemente).

Com barbatanas peitorais longas e um corpo esguio, o tubarão-azul faz lembrar um planador.

BARBATANAS PARA QUE VOS QUERO

Os tubarões podem ter até 8 barbatanas que, para além de variarem em número, variam também em tamanho e formato. E engane-se quem pensa que estes apêndices servem exclusivamente para nadar! Existem imensos exemplos de adaptações engenhosas de espécies que usam as barbatanas para desempenhar tarefas alternativas – o tubarão-raposo (Alopias vulpinus) possui uma barbatana caudal com um lóbulo superior enorme, que usa como um chicote para atordoar as presas; uma espécie de tubarão-bambu (Hemiscyllium halmahera) consegue usar as barbatanas peitorais para sair temporariamente de água e caminhar até outra localização; o galhudo-malhado (Squalus acanthias) possui espinhos nas barbatanas dorsais que são usados como mecanismo de defesa. Todas estas adaptações contribuem para o sucesso destes animais, mas foquemo-nos na principal função das barbatanas: ajudar no processo de natação.

A maioria dos peixes possui uma bexiga natatória, que enche ou esvazia para subir ou descer na coluna de água – é um sistema semelhante ao utilizado pelos balões dirigíveis. Os tubarões não possuem este órgão e, por isso, se pararem de nadar, afundam. Para além disso, para respirar, a maioria das espécies tem de se manter em movimento e fazer com que água entre pela boca, passe nas brânquias (onde ocorre a oxigenação do sangue) e saia pelas fendas branquiais. Para estes animais, parar é, literalmente, morrer.

A natação é um processo que envolve o corpo todo dos tubarões, mas de uma forma geral, tudo começa com um impulso gerado pela barbatana caudal – podemos encarar esta barbatana como o motor que impele estes animais. Na maioria dos tubarões, a parte superior da barbatana caudal é maior que a inferior – esta configuração é um excelente compromisso entre poder de aceleração e agilidade, empurrando água para trás, mas também para baixo.

Tubarões mais rápidos, como o anequim ou o tubarão-branco, possuem uma barbatana caudal em forma de meia lua, com as metades superior e inferiores quase simétricas – este formato maximiza a quantidade de água empurrada em cada movimento.

Um pata-roxa (Scyliorhinus canicula) nada junto ao fundo arenoso. As manchas características ajudam-no a confundir-se com a areia e as pedras do fundo marinho, protegendo-o de predadores.

Tubarões como o pata-roxa (Scyliorhinus canicula) possuem caudas bastante assimétrica, quase retas. Barbatanas com esta configuração não permitem atingir grandes velocidades, mas conferem-lhes muita agilidade – estes tubarões tendem a nadar “serpenteando”, sendo capazes de efetuar mudanças de direção repentinas.(Será que conhece alguma destas espécies ?)

Curiosamente, ainda que vivam debaixo de água, os tubarões acabam por se assemelhar mais a um avião que a um submarino – se a barbatana caudal é o motor, as barbatanas peitorais são as asas. Ajustando as barbatanas peitorais, os tubarões ganham ou perdem elevação. O princípio é semelhante ao seguido pelos pilotos, que fazem o avião subir ou descer ajustando a inclinação das asas – ao inclinar as barbatanas para cima, o fluxo de água na parte inferior das mesmas faz com que o tubarão suba; se as barbatanas forem inclinadas para baixo, o fluxo de água faz com que o animal desça.

Os tubarões possuem também um conjunto de barbatanas verticais que os ajudam a estabilizar o corpo, seja durante migrações relaxadas ou em perseguições cheias de adrenalina. Este conjunto, que para além de uma ou duas barbatanas dorsais pode ainda incluir uma barbatana anal, desempenha um papel idêntico ao executado pelos estabilizadores que os aviões possuem nas suas asas.

EFICIÊNCIA À FLOR DA PELE

Continuando a analogia aeronáutica, faz também sentido falar um pouco sobre a fuselagem destes nossos aviões dos mares. Áspera ao toque, de olhos fechados seria fácil confundir a pele de tubarão com lixa. Coberta por milhões de pequenas escamas em forma de dente, apropriadamente apelidadas de dentículos, é uma barreira protetora extremamente eficaz e uma das razões do sucesso destes animais. Os dentículos, que existem com tamanhos e formas variadas, protegem os tubarões de impactos ou dentadas, evitando também a proliferação de bactérias que podiam gerar infeções. À medida que os tubarões vão crescendo, os dentículos vão sendo substituídos por cópias maiores.

A pele tem muita influência na facilidade com que estes animais deslizam através da água – os dentículos, que apontam todos para a cauda, fazem com que os tubarões sejam extremamente hidrodinâmicos. Adicionalmente, a pele dos tubarões está diretamente agarrada aos músculos, agindo como um enorme tendão e facilitando a transferência de energia dos músculos até à cauda. Esta pele é de tal forma rígida que, enquanto nadam, a pressão no interior dos tubarões pode atingir valores semelhantes aos encontrados no interior de um pneu de um carro! E falando em interior, é precisamente aí que encontramos outro dos segredos que faz destes peixes nadadores tão exímios: o seu esqueleto.

O esqueleto dos tubarões é feito de cartilagem, o mesmo material que podemos encontrar no nosso nariz e nas nossas orelhas. Esta característica, partilhada apenas por raias e quimeras, é provavelmente a que mais distingue estes animais da maioria dos restantes peixes. A cartilagem é muito mais leve e flexível que o osso, ajudando os tubarões a flutuar e fazendo com que sejam extremamente ágeis – são muitas as histórias de pescadores incautos que agarraram um tubarão pela cauda, pensando que estavam protegidos dos seus dentes, e acabaram por levar uma dentada.

A LIÇÃO DADA NÃO SE OLHA O DENTE

Os tubarões conseguem nadar grandes distâncias, mergulhar a profundidades assustadoras e atingir velocidades impressionantes, mas a sobrepesca e a poluição conseguem chegar mais longe, mais fundo e mais depressa. As populações destes animais estão a diminuir a um ritmo alarmante, mas ainda há esperança – as melhorias já implementadas na produção de energia, roupa, equipamento médico e veículos, inspiradas nas adaptações que os tubarões desenvolveram ao longo da sua existência, são argumentos fortíssimos que todos podemos usar na defesa da conservação destes animais.

 

Luís Alves é o atual presidente da A.P.E.C.E. (Associação Portuguesa para o Estudo e Conservação de Elasmobrânquios), doutorando do MARE e desenvolve o seu trabalho de investigação no grupo Lemos Lab do Instituto Politécnico de Leiria.

 

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