Animais

George - o Caracol Solitário, Morre e a Espécie Fica Extinta

A morte de um caracol famoso realça o flagelo enfrentado por diversas espécies de caracóis havaianos, espécies que já existiram às centenas. Sexta-feira, 25 Janeiro

Por Christie Wilcox

O caracol mais solitário do mundo desapareceu.

George, o último membro conhecido da espécie Achatinella apexfulva – morreu no Dia de Ano Novo. Tinha 14 anos, o que significa que era bastante velho para um caracol do seu género.

George nasceu no início dos anos 2000 numa unidade de reprodução em cativeiro, na Universidade do Havai, em Mãnoa, e pouco tempo depois, os seus últimos parentes morreram. Foi assim que recebeu o seu nome – George Solitário, em honra da tartaruga da Ilha Pinta que também era a última da sua espécie.

Durante mais de uma década, os investigadores procuraram por outro membro da espécie para que George acasalasse, mas sem sucesso. (Apesar destes caracóis serem hermafroditas, é necessário que dois adultos acasalem para produzir uma prole, e os investigadores referem-se a George como “ele”.)

“Estou triste, mas na realidade estou mais zangada porque esta era uma espécie especial, e muito poucas pessoas sabiam disso”, diz Rebecca Rundell, bióloga evolucionista na Universidade Estatal de Nova Iorque, que ajudava a cuidar de George e dos seus parentes.

Ao longo da sua vida, George foi a face pública das lutas enfrentadas pelos caracóis terrestres do Havai. A sua morte realça a vasta diversidade de caracóis indígenas – e o seu flagelo desesperante.

“Eu sei que é apenas um caracol, mas representa muito mais”, diz David Sischo, biólogo de vida selvagem no Departamento de Terras e Vida Selvagem do Havai, e coordenador do Programa de Prevenção para a Extinção de Caracóis.

SILÊNCIO NA FLORESTA

No Havai, os caracóis já foram incrivelmente numerosos, e a perda de uma espécie é um golpe para o ecossistema. Registos do séc. XIX afirmam que mais de 10.000 cascas podiam ser recolhidas num único dia. “Tudo o que seja abundante na floresta faz parte integrante da mesma”, diz Michael Hadfield, biólogo de invertebrados que dirigiu o programa de reprodução em cativeiro de caracóis raros do Havai, até finais dos anos 2000.

Estas criaturas são incrivelmente diversas: já existiram mais de 750 espécies de caracóis terrestres no Havai, incluindo pouco mais de 200 desta espécie.

Quando chegaram às ilhas, os caracóis ramificaram-se e tomaram uma variedade de papéis ecológicos. Algumas destas espécies funcionaram como decompositores – como as minhocas que não são nativas das ilhas – preenchendo um papel ecológico essencial na eliminação de detritos.

Esta espécie é especialista na gosma que cresce nas folhas. Quando se alimentam, reduzem a abundância de fungos nas folhas, ao mesmo tempo que aumentam a sua diversidade fúngica – e por isso, podem ter ajudado a proteger as árvores hospedeiras de doenças. Alguns biólogos acreditam que a existência de populações saudáveis de caracóis poderia ter evitado o atual surto de Morte Rápida ʻŌhiʻa, um novo patogénico fúngico que está a dizimar as árvores nativas.

De certa maneira, estes caracóis assemelham-se mais a mamíferos e a aves do que a outros invertebrados: normalmente vivem bem até à sua adolescência, demoram cinco ou mais anos a atingir a maturidade sexual e dão à luz proles de menos de dez crias por ano. São venerados nas lendas nativas havaianas que contam que três caracóis conseguem cantar lindamente, e são conhecidos como a ‘voz da floresta’. (Não se sabe bem porquê, pois os caracóis não são conhecidos por produzirem ruídos audíveis.)

 

DIVERSIFICADOS MAS EM PERIGO

Há cerca de uma década atrás, acreditava-se que mais de 90% das espécies de caracóis no Havai tinham desaparecido. Contudo, os investigadores redescobriram dezenas de espécies que pensavam estar extintas e encontraram várias espécies novas.

Apesar disso, os caracóis que permanecem no Havai estão em sérios apuros. Muitos só se encontram num único cume ou vale, e em anos recentes, o declínio das suas populações começou a acelerar devido à introdução de predadores que invadem os seus últimos refúgios.

“Tivemos populações que foram monitorizadas durante mais de uma década, e pareciam estáveis... até que nos últimos dois anos desapareceram por completo”, diz Sischo. “Ficámos todos abatidos e chorámos no campo.”

É provável que estes caracóis se extingam nos próximos meses ou anos, diz Sischo, a não ser que sejam protegidos na natureza ou levados para laboratório.

Está a acontecer a mesma coisa pelo mundo inteiro. Os caracóis e as lesmas terrestres representam cerca de 40% das extinções animais conhecidas desde o ano 1500, muito provavelmente desapareceram antes de serem conhecidos pela ciência, e muitas espécies estão agora no limite. Se existe algo de bom na morte de George é o facto de poder atrair atenções para esta crise de extinção escondida que atinge moluscos de todo o mundo enquanto ainda há tempo para fazermos alguma coisa.

DECLÍNIO RÁPIDO

O declínio dos caracóis pode atribuir-se às espécies invasivas que os estão a comer até à extinção. Estão a ser vítimas, em particular, do caracol canibal (Euglandina rosea), um especialista em caracóis e lesmas que foi trazido para as ilhas para comer outros moluscos: caracóis africanos gigantes. Os caracóis canibais descobriram que os caracóis endémicos eram muito mais saborosos, e têm comido toda a espécie a um ritmo alarmante desde que foram introduzidos em 1955.

Os investigadores suspeitam que o aumento das chuvas e a subida das temperaturas permitiu aos caracóis canibais aventurarem-se até às grandes altitudes, onde estão os últimos refúgios do caracol havaiano. Para além disso, a longevidade dos caracóis pode ter disfarçado o declínio da sua saúde, pois as populações persistem muito tempo após terem parado de produzir novas gerações.

O declínio tem sido veloz. Melissa Price, ecologista molecular na Universidade do Havai, em Mãnoa, que usa métodos genéticos para aprender mais sobre a ecologia e a evolução destes animais, descobriu que a sua espécie favorita, Achatinella lila, tinha sido extinta na natureza em abril passado. Há três anos atrás, ela ajudou na contagem da última população, e na altura, restavam cerca de 300 caracóis no cume com vista para o vale Punaluʻu e para a Baía Kāneʻohe.

“Era o sítio mais maravilhoso da Terra, e depois tinha estes caracóis lindos em tons de arco-íris pendurados nas árvores”, lembra Melissa. Mas quando os cientistas regressaram no ano passado, procuraram durante 20 horas e só encontraram um único espécime.

Está a acontecer a mesma coisa com os outros caracóis nas outras ilhas. “Desaparecem num piscar de olhos,” lamenta. “Este grupo taxonómico inteiro está prestes a desaparecer da face da Terra.”

Nos anos de 1980, toda a espécie destes caracóis havaianos estava classificada como espécie em perigo. Isto levou Hadfield a criar unidades de reprodução em cativeiro, na esperança de salvar as espécies mais raras. “Sabíamos que estávamos a ver os últimos caracóis daquela espécie”, diz.

O QUE RESTA?

Foi naquele laboratório, na Universidade do Havai, em Mãnoa, que George nasceu no início dos anos 2000. Os pais de George, em conjunto com uma mão cheia de outros membros da espécie, foram recolhidos na última localização conhecida daquela população, junto de algumas árvores perto do trilho de Oahu's Poamoho, em 1997.

Foram produzidas apenas algumas crias, mas estas e os seus pais não viveram muito tempo. Em meados dos anos 2000, “todos os Achatinella apexfulva tinham morrido, exceto um jovem caracol, que era George”, diz Sischo.

Para os investigadores de caracóis, tornou-se tradição parar no sítio onde os últimos Achatinella apexfulva foram encontrados e tirar os binóculos para examinar as árvores. “Mantivemos a esperança de encontrar mais”, diz Hadfield. Mas nunca mais viram outro. Portanto, apesar de George ter ficado sexualmente maduro em 2012, nunca teve um parceiro. O caracol viveu mais de uma década num terrário próprio, e então, no primeiro dia de 2019, morreu.

Os restos mortais de George foram preservados em etanol e a sua casca vai juntar-se às mais de 2 milhões de outras espécies de caracóis terrestres do Havai, na coleção malacológica do Museu Bernice Pauahi Bishop. (Malacologia estuda os moluscos.)

Em 2017, um pequeno pedaço do pé de George foi cuidadosamente cortado e enviado para os cientistas do Instituto do Jardim Zoológico para a Pesquisa de Conservação, "Zoo Congelado",em San Diego, para fornecer ADN, caso os cientistas o queiram vir a clonar - algo que não é possível atualmente, mas que será muito provavelmente no futuro. Todos os animais que morrem no programa de reprodução em cativeiro são preservados, e Hadfield salienta que às vezes é possível recolher ADN de cascas antigas, podendo existir material genético suficientemente diversificado para trazer as espécies de volta. No entanto, a não ser que as florestas onde viveram sejam recuperadas e os predadores invasivos sejam removidos, não existe um local seguro para as colocar.

A CABANA DO AMOR

George passou os últimos dois anos dentro de um atrelado modular de 3 por 13 metros, em Oahu, que alguns começaram a chamar de “cabana do amor”. No programa de reprodução em cativeiro, que foi oficialmente tomado por Sischo e pelo Programa de Prevenção para a Extinção de Caracóis em 2016, existem 30 espécies de caracóis havaianos que ou estão extintas na natureza ou são excessivamente raras. Muitas dessas espécies estão reduzidas a menos de 50 indivíduos.

Cuidar de 2000 caracóis não é fácil. Os animais vivem dentro de terrários cuidadosamente projetados, com seis grandes compartimentos ambientais com luz, temperatura e humidade controladas. São trazidos, quase diariamente, carregamentos de ramos das árvores que hospedavam estes caracóis, para que eles se possam alimentar das algas e dos fungos que crescem naturalmente nas folhas. A equipa também cultiva fungos de árvores nativas para incluir na sua dieta.

Os investigadores têm esperança de que estes esforços evitem que mais espécies entrem em extinção – e tanto na vida, como na morte, George possa ajudar a consciencializar sobre o problema.

“A extinção do caracol terrestre não tem tido muita visibilidade”, salienta Rundell. “Estas espécies são uma parte importante da vida na Terra e quando se começam a extinguir significa que algo está verdadeiramente errado com o ambiente que nos suporta.”

“Enquanto todos fazemos o luto por George, agarro-me mais fortemente à ideia de que ainda existe esperança para estes caracóis nativos”, diz Norine Yeung, diretora da coleção de malacologia no Museu Bernice Pauahi Bishop. “Por favor, não se esqueçam deles.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 


 
Continuar a Ler