Mergulhe no Mundo Esquecido dos Animais de Água Doce

A água doce constitui menos de 3% do abastecimento de água da Terra, mas é o lar de quase metade de todas as espécies de peixe.

Monday, January 21, 2019,
Por Melissa Suran
Fotografias Por David Herasimtschuk
 tainha da montanha porto-riquenha
A tainha da montanha porto-riquenha reside na Floresta Nacional El Yunque. Conhecida pelos habitantes locais como dajao, estes peixes atléticos conseguem fazer jornadas até grandes elevações e saltar por cima de pequenas quedas de água.
Fotografia de David Herasimtschuk, Freshwater Illustrated

Apesar dos ambientes de água doce, rios e riachos, estarem recheados com mais de 10.000 espécies de peixe, podemos nunca vir a ter a oportunidade de observar muitas destas criaturas misteriosas devido ao declínio das suas populações. Atualmente, mais de 20% das espécies conhecidas estão em perigo ou já desapareceram. É por isso que David Herasimtschuk não fotografa peixes apenas por diversão; é um fotógrafo profissional que se dedica à sensibilização e à valorização dos ambientes de água doce e da vida selvagem que nele habita.

“Existe toda esta vida que está a desaparecer, e ninguém sabe sequer que está lá”, diz Herasimtschuk.

Herasimtschuk, fotógrafo e cinematógrafo da Freshwaters Illustrated, uma organização sem fins lucrativos, com sede em Oregon, procura educar e inspirar o público acerca dos ecossistemas de água doce e sua proteção. Durante quase uma década, trabalhou com a Freshwaters Illustrated para documentar a vida nos rios e riachos da América do Norte, desde as montanhas do Colorado, nos EUA, à Floresta Nacional El Yunque, em Porto Rico. Estes ambientes não servem apenas de habitat para um vasto leque de plantas e animais aquáticos; suportam também uma rede de vida selvagem terrestre: desde pássaros que fazem ninhos nas zonas ribeirinhas ou que param durante as migrações, a animais como os castores que utilizam os rios para viajar, e até para predadores que comem criaturas que habitam no rio.

Os rios são também uma fonte de água potável para os humanos. Controlam inundações; fornecem irrigações para plantações; são canalizados para energia hidroelétrica. Apesar do papel crítico que desempenham, tanto para os humanos como para a natureza, são muitas vezes negligenciados.

“As pessoas sabem mais acerca de um peixe-palhaço que vive num recife de coral, do que sobre um vairão que vive a 10 minutos de suas casas.”, diz Herasimtschuk. “Estamos essencialmente a expor as pessoas a um mundo completamente novo, mas é um mundo que muitas vezes está mesmo no quintal das traseiras.”

COMPORTAMENTOS SINGULARES

Vários dos locais fotografados por Herasimtschuk, como o sul da Appalachia, nos EUA, abrigam alguns dos mais diversos ecossistemas de água doce do mundo. A região sustenta cerca de 300 a 400 espécies nativas de peixe.

O sul da Appalachia também é o lar do anfíbio preferido de Herasimtschuk: hellbender, uma salamandra aquática gigante nativa da América do Norte. Herasimtschuk diz que se esperarmos pacientemente junto destas salamandras, que têm cerca de um metro, eventualmente elas interagem connosco e “aceitam-nos no seu mundo”. Foi assim que ele conseguiu captar aquela que pode ser a única fotografia de uma salamandra a tentar comer uma cobra, que valeu a Herasimtschuk o galardão de Fotógrafo de Vida Selvagem do Ano, atribuído pelo Museu de História Natural em Londres. A cena foi inesperada, as salamandras costumam caçar presas mais pequenas. Quando a cobra se enrolou em torno da cabeça da salamandra, esta tentou reposicionar a sua dentada, dando à cobra de água oportunidade de escapar.

Esta salamandra-gigante, conhecida por ‘hellbender’, espera fazer de uma cobra de água a sua próxima refeição. O fotógrafo David Herasimtschuk diz que esta pode ser a primeira imagem de uma hellbender a tentar comer uma cobra.
Fotografia de David Herasimtschuk, Freshwater Illustrated
Esquerda: Todos os invernos, tritões de pele áspera visitam o mesmo lago, no rio Willamette, em Oregon, para acasalar. Oito anos e milhares de fotografias depois, Herasimtschuk captou finalmente a “imagem perfeita do tritão”. Direita: Os peixes jacaré são peixes antigos que pouco mudaram desde os tempos da pré-história. Uma fémea, pronta para acasalar, é seguida por um grupo de machos que espera fertilizar os seus ovos do tamanho de ervilhas – todos os 30.000 ovos.
Fotografia de DAVID HERASIMTSCHUK, FRESHWATER ILLUSTRATED

Através das suas lentes, Herasimtschuk tem testemunhado comportamentos raramente vistos, como os vairões e os leuciscos a transformarem-se num espetáculo de cor enquanto procriam. Viu um bordalo do rio perder vários dias à procura de pedras adequadas para construir um “berçário”. Nadou ao lado de peixes jacaré, peixes ancestrais que parecem, diz ele, “dinossauros subaquáticos”, e viu uma fémea de peixe jacaré a fazer a desova de 30.000 ovos do tamanho de ervilhas – alguns deles ficaram colados à sua câmara. E demorou oito anos e milhares de tentativas para documentar a congregação de acasalamento de tritões de pele áspera, no rio Willamette, em Oregon.

Após as tempestades da primavera, milhares de peixes búfalo migram do caudal principal do rio Tennessee para riachos mais pequenos. Poucos dias depois de chegarem, inundam os riachos com os seus ovos. Muitas espécies de peixe, incluindo o peixe búfalo, precisam de águas livres de represas para navegarem até às suas rotas de migração.
Fotografia de David Herasimtschuk, Freshwater Illustrated

 

À CHUVA

As condições atmosféricas podem ter um impacto significativo no tempo que demora a captar um momento perfeito. Durante a primavera e o inverno, muitas espécies de água doce desovam em áreas elevadas, fazendo com que Herasimtschuk passe entre 8 a 10 horas, em águas geladas, a tirar centenas de fotografias.

Ele diz que suporta o frio com o fato seco, mas se chover, a sessão fotográfica termina logo. No mundo da fotografia de água doce, a precipitação é igualmente um amigo e um inimigo. Por exemplo, a chuva atrai o salmão, pois ajuda-o a subir o rio. Mas também transforma a água num abismo turvo. Não é a chuva em si que levanta a sujidade, mas sim a poluição que é drenada para a água durante uma tempestade.

Esquerda: Todas a primaveras, milhares de esturjões migram do lago Winnebago, no Wisconsin, para as suas águas de desova no rio Wolf. Muitas vezes, o esturjão macho atinge a fémea com a sua poderosa barbatana caudal, para a obrigar a libertar os ovos. Estes peixes massivos conseguem crescer até um metro e oitenta e vivem até 150 anos. Direita: Apesar de uma lampreia de mandíbulas abertas poder parecer aterradora, ela não está interessada em atacar humanos. As salamandras conseguem escalar quedas de água de doze metros, ganhando impulso através do seu corpo musculado, parecido com o das cobras, agarrando-se às saliências de pedra com as suas bocas de sucção. Esta está literalmente a sugar a câmara de Herasimtschuk.
Fotografia de DAVID HERASIMTSCHUK, FRESHWATER ILLUSTRATED

“Quando vemos esta água, que parece leite com chocolate, a vir para um riacho, conseguimos ter a noção de como pode sufocar estas criaturas”, diz Herasimtschuk.

A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos diz que os sedimentos são o poluente mais comum em rios e lagos – cerca de um terço dos sedimentos deriva de erosão natural, mas a maior parte deriva da acelerada erosão provocada pela atividade humana, como as construções.

Apesar da natureza exigente do seu trabalho, Herasimtschuk persiste, porque um dia pode já não ser possível documentar estes animais. Para algumas espécies, as represas dificultam a viagem ao longo de rotas de migração críticas e a sedimentação e a poluição destroem os seus habitats. Herasimtschuk já viu baterias de carros em decomposição no rio e zonas protegidas repletas de lixo.

Um peixe sombra macho do Ártico levanta as suas barbatanas dorsais, que parecem asas de borboleta, para assinalar que está disposto a competir pelo direito de acasalar. O maior dos peixes sombra macho irá eventualmente derrotar os seus oponentes mais fracos, e fertilizar os ovos da fémea que entrar no seu domínio.
Fotografia de David Herasimtschuk, Freshwater Illustrated

Este não é apenas um problema da vida aquática; é também um sinal de alerta para os humanos. Animais como as salamandras hellbender servem de barómetro para a saúde de um rio. A sua presença num rio é um bom sinal de que a água está limpa e é potável. Mas as salamandras estão a começar a desaparecer, tal como muitos outros animais das fotografias de Herasimtschuk. Contudo, ele tem esperança que as suas imagens despertem e eduquem as pessoas.

“Muitas destas espécies já cá estavam há milhões de anos, e só nos últimos cem é que começaram a desaparecer”, diz Herasimtschuk.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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