Animais

Numa Caminhada Pelo Mundo, Os Animais Carregam Lições de Vida – Não Apenas Carga

Ao refazer o caminho dos nossos antepassados a pé, o escritor e explorador Paul Salopek medita sobre o encanto dos seus companheiros de quatro patas. Quinta-feira, 17 Janeiro

Por Paul Salopek

“Venha, senhor.”

Diz o homem que me está a ajudar a enterrar Raju.

Raju era o meu burro de carga. Um animal pequeno e rijo, acompanhou-me ao longo de 1600 quilómetros através do norte da Índia, até que uma inominável febre o atingiu. O homem que me está a ajudar a empilhar pedras sobre o corpo de Raju é um trabalhador, membro das castas mais baixas da Índia, um chamado intocável. Muitos hindus acreditam que não é sensato demonstrar emoções fortes numa cena de morte. Expressões abertas de dor ou de luto podem prender o espírito que vai abandonar o plano terreno – evitando que consiga fugir ao Samsara, o penoso ciclo de morte e renascimento.

“Aaie!” diz o meu ajudante, insistindo para que me afaste da sepultura: Venha! Mas desiste de esperar. Acaba por se afastar finalmente. Deixa-me a olhar para um patético monte de pedras.

Há seis anos que estou a sair de África a pé. Estou a refazer os trilhos de um dos primeiros Homo sapiens a explorar o mundo desconhecido. Nesta longa caminhada estou muitas vezes acompanhado por animais: camelos e mulas, às vezes um burro, e muito raramente um cavalo. Estes companheiros de quatro patas ajudam-me, transportando rações e material de campismo. Os pioneiros da Idade da Pedra que estou a seguir não apreciavam esta companhia. (Os animais ainda não tinham sido domesticados.) Pior para eles.

Os animais, claro, são professores.

Dois póneis de carga, no Cazaquistão, aprofundaram o meu conhecimento sobre o seu mundo estepe encharcado de luz. Escolhendo locais para acampar que servissem as suas necessidades, fui forçado a ler a paisagem minimalista com mais atenção. Aprendi sobre as ervas locais. (Algumas forragens são mais ricas em proteínas do que outras.) Fiquei especializado em encontrar rugas simples nas pastagens onde as poças de água secretas brilhavam. Desta forma, os cavalos redesenharam o meu mapa da Ásia Central.

Mas algumas lições de animais redesenham o coração.

Em Jidá, na Arábia Saudita, salvei dois camelos manchados de tinta amarela, a marca do matadouro. Juntos, atravessamos centenas de quilómetros no deserto Hejaz. O macho grande, Fares, cujas mandíbulas podiam esmagar facilmente os meus ossos, aproximava-se por trás e apertava-me gentilmente o ombro com os seus dentes gigantes. Era um sinal de que as pedras estavam a magoar as suas patas almofadadas. Os camelos preferem areia.

Uma mula de carga geriátrica, chamada Kirkatir, saiu comigo a passo da Turquia. Era uma excentricidade de 360 quilos. Uma das suas neuroses era a “dança”: andava para a frente e para trás, toda a noite – com os cascos a bater, a bater, a bater – levando-me a mim e ao meu companheiro de viagem turco ao desespero. Na esperança de encontrarmos uma cura, reconstruímos os seus passos de dança de mula a um veterinário, de uma aldeia pequena, que estava espantado. Reuniu-se uma multidão enorme para observar a nossa performance pela porta da clínica. Aplaudiram a nossa idiotice. Desta forma, os companheiros animais servem como pontes. Tornam-se embaixadores para outros humanos.

 

Raju, o meu burro indiano – e o sétimo burro empregue nesta minha caminhada global – era improvavelmente bom nisto.

Um animal acinzentado, muito frágil, foi gozado por quase todos os agricultores indianos que conhecemos. Na cultura indiana os burros carecem de respeito. Os grandes deuses Hindus montavam espíritos de animais sagrados chamados vahanas: leões magníficos, elefantes poderosos, pavões resplandecentes. Só a deusa da varíola, Sitala Mata, monta um burro. Pior ainda, Raju tinha perdido as orelhas.

Ninguém, nem sequer o dono anterior, nos disse porquê. Os rumores sugeriam uma mistura antiga de ganância com crueldade humanas. Diz-se que alguns agricultores indianos entravam em incumprimento nos empréstimos bancários referentes a stocks de gado, afirmando que os animais tinham morrido logo após a compra. Uma prova: as orelhas cortadas.

“Raju é uma fraude bancária andante”, disse irritado o meu companheiro de caminhada, Arati Kumar-Rao.

Mesmo assim, ele conseguia encantar.

O segredo de Raju era nunca se cansar, infatigável, pronto. Ele arcou através dos campos de trigo em Punjab, através da gravilha no Deserto Thar e através das monções enlameadas de Madia Pradexe. A sua cabeça sem orelhas atravessou metade do subcontinente. Os curiosos, céticos ao início, depressa reconheciam a sua posição. Aplaudiam e incentivavam-no.

Foram as colinas de pedras vermelhas do rio Chambal que o travaram.

Enfraqueceu de repente, numa remota cidade pedreira chamada Sarmathura. Parou de comer. A sua cabeça não tinha sustentação. Eu e o meu companheiro de caminhada, Priyanka Borpujari, paramos para cuidar dele. Consultamos veterinários. Injetaram Raju com antibióticos. Suspeitando de cólicas, um doutor prescreveu uma mistura de bicarbonato de sódio que lhe era administrada por um velho biberão através dos maxilares presos. Doseamo-lo com comprimidos para as dores. Mantivemo-nos vigilantes. Na tarde do quinto dia, Raju caiu para o lado e nunca mais se levantou. Pressionei as minhas mãos contra as suas costelas e senti o seu último suspiro agonizante. 

Vivemos com animais de estimação há tanto tempo – há pelo menos 10.000 anos, no caso das cabras – que é difícil imaginar a vida sem eles. Contudo, os termos de coexistência humano-animal permanecem um paradoxo.

Inventamos códigos chamados “moralidade” para protegermos organismos “menores” do planeta. (Sociedade para a Prevenção da Crueldade aos Animais, éticas de protocolo laboratorial, spas para cães, etc.) Mas achamos correto procriar 65 mil milhões de criaturas sencientes por ano, sob condições brutais, com o único propósito de as comermos. (Atualmente, as galinhas de aviário são de longe as aves mais numerosas na Terra.)

Raju é o primeiro animal de carga a morrer na minha caminhada.

De pé, ao lado da sua sepultura, numa pedreira abandonada no norte da Índia, sinto um certo vazio nos meus ossos. Não vou fazer caminhadas com animais novamente. Pelos menos durante algum tempo. Mas ainda me lembro de como, ao longo do meu caminho, um talhante saudita, por empatia, escondeu a faca das suas ovelhas. Mais tarde, irei procurar uma passagem meio esquecida do livro Dominion, do escritor Matthew Scully:

“A forma como tratamos as nossas criaturas companheiras é apenas mais uma em que todos nós, diariamente, escrevemos o nosso epitáfio – levando ao mundo uma mensagem de luz e vida, ou apenas escuridão e morte, acrescentando à alegria ou ao desespero do mundo... Talvez seja essa a função dos animais entre nós, despertar humildade, para virarmos as nossas mentes de volta para o mistério das coisas, e abrirmos os nossos corações para a mais irrealista das esperanças, onde toda a criação fala como um.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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