Animais

Veja a Vida dos Gatos de Rua Pelo Mundo Inteiro

Um novo livro de fotografia retrata a “grande odisseia” dos gatos de rua, de Marrocos até ao Japão. Tuesday, January 8

Por Kristin Hugo
Um gato a relaxar encostado a uma das ruínas de Éfeso, sítio arqueológico de uma cidade portuária romana com 2000 anos, na Turquia da atualidade.

Durante 18 anos, Tuul e Bruno Morandi fotografaram as pessoas, as cidades e as paisagens do mundo. Enquanto viajavam, começaram a acumular acidentalmente fotos extra sobre outro assunto, não humano: os focinhos dos amigáveis e peludos gatos de rua.

No livro de Tuul e Bruno, La Grand Odysée des Chats (“A Grande Odisseia dos Gatos”), os sujeitos felinos relaxam encostados a edifícios azuis em Xexuão, Marrocos, saltam por cima de ruínas na Grécia e observam curiosamente os pescadores no Japão, à espera de uma oportunidade para roubarem as sobras de peixe.

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Os próprios Morandi são apaixonados por gatos. Na realidade, dedicaram o livro ao seu gato Mujra, de 10 anos, que Tuul descreve como “lindo e amável”. 

Enquanto viajavam em trabalho, eram atraídos pelos carismáticos felinos e não resistiam a tirar fotos aos gatos que encontravam no terreno. Assim que obtiveram fotos suficientes, perguntaram ao seu editor se podiam fazer um livro. O editor concordou e eles começaram a fotografar as criaturas semisselvagens com um foco renovado.

Os fotógrafos fazem a comparação entre fotografar gatos e humanos. “Para nós, é quase o mesmo”, diz Tuul Morandi. “Nós somos do tipo de fotógrafo que gosta de tirar fotos do momento, da vida de todos os dias na rua.” Antes de interagirem diretamente com os seus sujeitos, os Morandi tentam apanhar os momentos mais cândidos e autênticos das pessoas e dos animais a agirem naturalmente. Depois, falam com os humanos e, se os gatos deixarem, fazem-lhes festas e interagem com eles também.

Os Morandi repararam que os gatos costumam ter os mesmos hábitos em cidades diferentes, mas tal como os humanos, alguns gatos são mais tímidos do que outros. Enquanto os gatos “selvagens” se distinguem tipicamente pelo seu receio ou aversão a humanos, os gatos “de rua” sem dono, gatos “vadios” ou gatos da “comunidade” são geralmente amigáveis. “Por vezes, alguns gatos são realmente tímidos, mas no Japão, a maioria dos gatos que conhecemos não eram tímidos de todo”, diz Tuul. “Eles sabem que os humanos são amigáveis. Talvez isso se deva às relações que têm com as pessoas que os alimentam.”

Esquerda: Um gato malhado cor de laranja a olhar curiosamente para outro numa “ilha de gatos” japonesa. Direita: Em Tóquio, existem vários templos dedicados aos gatos. Nestes santuários, os visitantes podem ver gatos de pedra e felinos verdadeiros.

No Japão, as pessoas são particularmente amigáveis para com os gatos, e os felinos até têm uma “relação especial” com os pescadores, diz Tuul. Existe a crença de que estes animais podem trazer boa sorte e há templos onde as pessoas os podem venerar. Os gatos também são uma forma de atração turística – o país é o lar de quase uma dúzia de “ilhas de gatos”.

A cultura, a religião, a história e as lendas fazem parte integrante da perceção pública acerca dos gatos de rua. Diz-se que o profeta Maomé dava sermões com o seu adorado gato, Muezza, ao colo, e quando descobriu que o animal tinha adormecido em cima das suas vestes, cortou as mangas em vez de perturbar Muezza. “Na maior parte dos países islâmicos, como Marrocos e [Turquia], existe uma relação especial com os gatos”, explica Tuul, “porque o Profeta adorava, amava gatos”.

Contudo, nem todas as pessoas gostam de gatos vadios. Em muitos locais, os gatos selvagens são considerados predadores invasivos que podem provocar distúrbios na vida selvagem local, algo que preocupa os conservacionistas. É do senso comum que os gatos que vivem fora de casa matam muita vida selvagem, e em 2013, um estudo de meta-análise publicado na revista Nature Communications, tentou quantificar esse número. O estudo sugeria que anualmente nos EUA, os gatos domésticos que vagueiam livremente matam entre 1.3 a 4 mil milhões de pássaros e 6.3 a 22.3 mil milhões de mamíferos.

No entanto, o estudo foi controverso e os resultados foram apontados por alguns como sendo “duvidosos”. Isto acontece porque não existem registos formais sobre a quantidade de gatos que vive ao ar livre nos EUA, e os estudos comportamentais de gatos costumam ser realizados em zonas onde existe uma densidade muito grande de felinos, tornando quase impossível obter uma estimativa com precisão. Por sua vez, através de um outro estudo, os investigadores acusaram os defensores de gatos de “negacionismo da ciência”.

De maneira a manter as populações de gatos vadios sob controlo, algumas organizações utilizam programas como o Trap (Prender), Neuter (Castrar), Return (Devolver) ou TNR. Os gatos que não podem ser colocados em casas de forma permanente são esterilizados e castrados por voluntários, para que possam viver nas ruas de forma pacífica, sem fazerem mais gatinhos. Em teoria, TNR suficiente poderia conduzir a uma lenta e tranquila extinção de gatos sem dono, ou pelo menos estabilizar a sua população. Contudo, os estudos indicam que os gatos se reproduzem tão depressa, que o programa TNR só seria eficaz se mais de 75 porcento dos gatos de uma determinada área fossem esterilizados anualmente.

Apesar da controvérsia em torno do impacto total dos gatos, a nível ambiental, as pessoas do mundo inteiro apreciam a sua companhia. Em Lamu, uma ilha ao largo da costa do Quénia, os gatos fazem parte da história cultural. Na Grécia, os animais são protegidos por lei. Quando aparecem pessoas nas fotografias dos Morandi, elas ou estão a ignorar casualmente as criaturas, ou estão ativamente a fazer-lhes festas e a pegar-lhes ao colo.

“Os gatos [fazem] parte das suas vidas na rua”, diz Tull Morandi.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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