Animais

Caranguejo-Eremita Desenvolve Órgãos Sexuais Para Não Perder o Seu Habitat

Um estudo sugere que os caranguejos-eremita com carapaças mais valiosas, e facilmente roubadas, desenvolveram pénis maiores para acasalar com mais segurança. Sexta-feira, 1 Fevereiro

Por Jake Buehler

Os caranguejos-eremita são uma visão comum nas praias quentes, mas muitos destes carismáticos crustáceos têm algo escondido muito surpreendente – pénis muito grandes, às vezes com metade do comprimento dos seus corpos ancorados nas carapaças. Investigação recente sugere que os caranguejos desenvolveram estes órgãos tão grandes para conseguirem acasalar sem se afastarem demasiado de casa.

Alguns destes eremitas despendem muita energia “remodelando” o interior das suas carapaças, o que, ao contrário da maioria dos caranguejos, é algo que eles não conseguem fazer crescer, diz Mark Laidre, biólogo do Dartmouth College e Explorador National Geographic.

Estes animais conseguem desbastar as suas carapaças, segregando químicos erosivos, o que lhes permite criar um interior suave e expansivo. Estas casas “remodeladas” dão-lhes espaço para crescer e podem até fornecer espaço para o armazenamento de ovos – tornando as carapaças extremamente valiosas. Por outras palavras, estas carapaças são algo que não se quer deixar para trás, mesmo que temporariamente, algo que muitos caranguejos-eremita precisam de fazer para acasalar.

E como seria se pudessem ter órgãos sexuais grandes o suficiente para reproduzir sem sair da carapaça, evitando que os rivais a roubassem?

TAMANHOS VARIÁVEIS

Enquanto estudava caranguejos-eremita no Museu Nacional de História Natural no Smithsonian, Laidre notou que os pénis dos animais, também conhecidos por tubos sexuais, variavam consideravelmente de tamanho. Mas as espécies que faziam as maiores remodelações – tendo assim as carapaças mais valiosas – tinham os pénis maiores.

O novo estudo de Laidre, publicado na revista Royal Society Open Science, sugere que os caranguejos-eremita desenvolveram órgãos sexuais maiores para evitar o desalojamento.

Para testar a sua tese de “partes privadas para propriedades privadas”, Laidre examinou de perto a genitália de caranguejos terrestres do género Coenobita, mas também um conjunto de caranguejos-eremita relacionados, abrangendo uma vasta gama de habitats e estilos de vida. Alguns caranguejos modificam as suas carapaças de várias formas, enquanto outros não. Alguns são habitantes minúsculos de poças de maré, e outros, como o Petrochirus diogenes, são animais maciços das profundezas do mar.

Laidre também incluiu caranguejos-dos-coqueiros – o maior invertebrado terrestre do mundo – do tamanho de melancias que não precisam de carapaças para habitar.

Medindo a proporção entre o tamanho do pénis e do corpo de mais de trezentos espécimes do museu, Laidre descobriu que quanto mais extensivamente a carapaça de uma espécie era esculpida, maior era o seu pénis em relação ao seu tamanho corporal. Laidre excluiu hipóteses alternativas que pudessem explicar o padrão, como a possibilidade de o comprimento do pénis aumentar com o tamanho do corpo, ou que determinados tipos de habitat fossem responsáveis.

Isto faz sentido porque a vida do caranguejo-eremita terrestre gira em torno da sua carapaça protetora. Estas criaturas astutas são implacáveis na deteção e roubo de propriedades (carapaças) vizinhas de qualidade superior.

PROPRIEDADE PRIVADA

"Os caranguejos envolvem-se em muitas disputas de carapaças e alguns indivíduos estão em risco permanente de ser despejados", diz Laidre, realçando que as carapaças remodeladas são mais propensas ao roubo, pois os seus interiores suaves têm menos aderência para o caranguejo se agarrar.

O aumento da genitália é “uma solução evolucionária sensata para um dos maiores perigos nos quais (os caranguejos) se podem envolver”, diz.

Perder uma carapaça remodelada faz com que a desidratação fatal seja quase inevitável, e os caranguejos ficaram tão limitados que nem conseguem encontrar uma solução temporária nas carapaças não remodeladas. "Se estes caranguejos perdem aquela carapaça, estão condenados em 24 horas".

Por tudo isto, Laidre vê o aumento do pénis como uma apólice de seguro na proteção de um investimento crucial, que é reforçado por outros comportamentos que tornam o sexo o mais seguro possível.

CARAPAÇA PARA CARAPAÇA

Quando dois caranguejos acasalam, estes viram-se para as carapaças abertas um do outro, aproximando-se o máximo possível para permitir que o macho deposite o esperma sem que nenhum dos caranguejos saia da carapaça. (Não há penetração.) Laidre diz que nas espécies com carapaças remodeladas o processo é bastante rápido, comparativamente com outros caranguejos, e feito em locais resguardados, provavelmente para reduzir ainda mais o risco.

Isto contrasta fortemente com os caranguejos-dos-coqueiros, que têm um dos menores rácios entre o tamanho do pénis e o tamanho do corpo. Os caranguejos-dos-coqueiros usam carapaças remodeladas quando são jovens, mas crescem demasiado depressa para precisarem delas antes de atingirem a maturidade. Sem esta necessidade de proteger a carapaça em adultos, o perigo na copulação desaparece, assim como a necessidade de órgãos sexuais maiores.

“Creio que este estudo foi extremamente inteligente”, diz Justa Heinen-Kay, ecologista evolucionária da Universidade do Minnesota que não esteve envolvida neste estudo. "É impressionante que estes animais tenham realmente desenvolvido pénis mais longos para permanecerem perto de casa enquanto copulam."

“É bastante incomum que um objeto esteja envolvido na evolução de características sexuais”, diz Heinen-Kay.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

 

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