Animais

As Malas Deste Homem Continham 5000 Sanguessugas – Porquê?

Um cão beagle do aeroporto farejou as criaturas. Agora as autoridades estão a tentar descobrir o que fazer com elas. Quarta-feira, 6 Fevereiro

Por Dina Fine Maron

O beagle que patrulhava o Aeroporto Internacional Pearson de Toronto estava à procura de aromas subtis, que pudessem sugerir contrabando, quando um odor inesperado despertou os seus recetores olfativos. A origem seria a bagagem de um homem canadiano que acabara de regressar da Rússia.

O cão sabia o que fazer e sentou-se ao lado do viajante – enviando um sinal aos funcionários da Agência de Serviços de Fronteiras do Canadá de que algo estava errado.

As autoridades espreitaram para dentro das malas do homem e encontraram centenas de recipientes cheios de objetos viscosos e contorcidos – 5000  sanguessugas vivas. Estávamos a 17 de outubro de 2018, e o fiel beagle tinha ajudado as autoridades a apanhar o primeiro contrabandista de sanguessugas do Canadá. (As autoridades chamam-no de alegado importador ilegal de sanguessugas, em vez de contrabandista, pois ele não estava necessariamente a esconder o seu contrabando.)

O incidente, revelado aqui pela primeira vez, ainda não faz parte do registo público. O homem foi acusado de importar ilegalmente uma espécie controlada internacionalmente sem as devidas licenças, diz André Lupert, da Direção de Fiscalização da Vida Selvagem do Ministério do Ambiente e Alterações Climáticas da Região de Ontário. De acordo com Lupert, o homem está a aguardar audiência, agendada para o próximo mês, na área metropolitana de Toronto. Para proteger a sua privacidade e dado que a investigação ainda está a decorrer, a Agência de Serviços de Fronteiras do Canadá disse que não podia partilhar o seu nome ou outros detalhes do incidente.

As sanguessugas são vermes parasitas que se encontram em todos os continentes, exceto na Antártica. Muitas vivem do sangue (algumas precisam apenas de uma refeição por ano), para infelicidade das suas vítimas involuntárias, mas revelam-se úteis na medicina. Das sanguessugas apreendidas constavam duas espécies – a sanguessuga medicinal do sul e a sanguessuga medicinal europeia – normalmente procuradas para uso em hospitais, centros de cirurgia plástica e unidades de queimados em todo o mundo. As sanguessugas consomem o sangue acumulado e melhoram a circulação no tecido danificado, segregando anticoagulantes naturais. Podem ser vendidas até 10 dólares cada.

O homem alegou que as sanguessugas em sua posse eram para uso pessoal e que as  águas residuais das sanguessugas fortaleceriam as suas orquídeas, diz Lupert.

Para Lupert, isto parece duvidoso. "Esta quantidade de sanguessugas sugere que era para comercializar", diz, acrescentando que o homem poderia estar a tentar encontrar compradores que quisessem dar uso às sanguessugas, quer fosse no tratamento de queimaduras de gelo, quer para ajudar na recuperação de operações plásticas. Algumas pessoas querem as sanguessugas para utilização naturopática doméstica, acreditando que estas aliviam a dor ou que podem purificar o corpo do sangue “mau”. No entanto, sem a prescrição de antibióticos, qualquer prática deste género acarreta riscos de infeção.

As sanguessugas para fins medicinais remontam ao antigo Egito. Na Europa, no início do séc. XIX, o uso excessivo de sanguessugas em sangrias originou algumas das primeiras proteções de conservação da vida selvagem, de acordo com a investigação de Roy Sawyer, aficionado em sanguessugas e fundador do Museu Médico de Sanguessugas, em Charleston, na Carolina do Sul. As pequenas criaturas eram tão utilizadas que as suas fontes locais na Europa ocidental praticamente secaram, disse Sawyer. A sua escassez inspirou o poema de William Wordsworth “The Leech Gatherer” em 1802.

Segundo o tratado que regula o comércio internacional de animais selvagens – a Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagem Ameaçadasde Extinção (CITES) – os carregamentos de determinadas espécies ameaçadas seriam ilegais sem as devidas licenças de importação-exportação. O CITES regula uma variedade de animais e plantas – incluindo as duas espécies de sanguessugas apreendidas pelas autoridades – para garantir que a procura comercial não as extingue. Com a documentação adequada, as sanguessugas podem ser enviadas legalmente de um país para outro. De acordo com Lupert, o Canadá, por exemplo, recebe grande parte do seu abastecimento dos Estados Unidos. Por seu lado, em 2004, os EUA aprovaram as sanguessugas enquanto “dispositivos” médicos.

Das centenas de espécies de sanguessugas, existem poucas com predileção por sangue humano e que se agarrem às nossas pernas ou braços, explica Mark Siddall, especialista em sanguessugas e curador de invertebrados do Museu Americano de História Natural, na cidade de Nova Iorque. As espécies apreendidas na posse do homem canadiano são das que gostam de morder, diz Siddall.

SANGUESSUGAS INDESEJADAS

Quando as autoridades canadianas apreenderam as 5000 sanguessugas, foram imediatamente confrontadas com um problema: o que fazer com elas? Não queriam matar animais ameaçados – sobretudo com a investigação a decorrer. "Em última análise, cabe ao juiz decidir se quer ver as sanguessugas pessoalmente, dado que são encaradas como prova", diz Lupert. Nem as próprias autoridades querem ficar com as sanguessugas a longo prazo. Estas espécies não são endémicas do Canadá, portanto não devem ser libertadas na natureza, diz Lupert.

Um incidente infeliz acelerou o desejo das autoridades em livrar-se das sanguessugas. "Estávamos a aprender naquele momento sobre como lidar com elas", diz Lupert, que também é o diretor regional de fiscalização da vida selvagem em Ontário. “Estas criaturas são muito ativas. Nós mudamos a água regularmente e certa manhã, quando chegaram as autoridades, descobriram que 20 tinham escapado ”, lembrava Lupert enquanto se ria. Felizmente, as sanguessugas foram rapidamente recapturadas e devolvidas aos seus recipientes.

As autoridades governamentais começaram a fazer contactos telefónicos para encontrarem uma alternativa para as sanguessugas. As respostas desanimaram. “Pense em colocar 20 coisas destas num frasco – pense no espaço que seria necessário para todas estas sanguessugas, quando temos 5000”, diz Lupert. "Não é apenas uma questão de as entregar e o assunto fica encerrado."

As instalações médicas contactadas não estavam muito entusiasmadas em receber tantas – Lupert diz que o Canadá adquire geralmente entre 500 e 1000 sanguessugas de forma legal por ano, portanto 5000 era demasiado.

Rupert diz que apenas o Museu Real de Ontário, em Toronto, concordou em receber algumas – apenas 50 – deixando a polícia com cerca de 4950 sanguessugas numa sala com outros animais vivos confiscados, incluindo tartarugas. (O museu também identificou as duas espécies de sanguessuga na aquisição, diz Lupert).

Ampliando a sua área de pesquisa, os canadianos encontraram finalmente um lar para mil sanguessugas no Museu Americano de História Natural, graças a Mark Siddall. Mas havia um senão: o Canadá e os EUA teriam de elaborar uma documentação formal de importação e exportação, adiando ainda mais o transporte aéreo das sanguessugas além fronteiras.

Dois meses depois das sanguessugas terem sido confiscadas, o laboratório de Siddall recebeu uma remessa de mil. “Com 25 anos de biologia em comportamento de sanguessugas, tenho a experiência – e os alunos de graduação – para ajudar”, diz Siddall sobre as exigências de cuidados com as sanguessugas. "É preciso mudar a água, saber qual é a sua aparência quando não estão bem, saber se precisam de ser alimentadas e saber quando separar as doentes das saudáveis.”

Esta não é a primeira vez que Siddall recebe sanguessugas. "Sem entrar em muitos detalhes, isto já aconteceu anteriormente", diz. Pressionado para dar mais informações sobre a natureza do contrabando de sanguessugas, Siddall recusou-se a comentar as circunstâncias dos incidentes anteriores, referindo à National Geographic o Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA, agência responsável pela supervisão das importações e exportações de vida selvagem.

A porta-voz Christina Meister disse que o serviço não tem, de forma imediata, dados disponíveis sobre o contrabando de sanguessugas. Segundo ela, nem os funcionários sabem de exemplos de casos encerrados – para saber mais, seria necessário apresentar uma solicitação da Lei de Liberdade de Informação. Em 17 de dezembro de 2018, a National Geographic entregou um pedido à FOIA para apresentar registos de importações de sanguessugas desde 2007, o que incluiria apreensões.

A organização sem fins lucrativos EcoHealth Alliance, sedeada em Nova Iorque, mantém um banco de dados sobre o comércio de animais selvagens, chamado WILDd, que se baseia em dados oficiais do governo americano sobre carregamentos de vida selvagem e produtos derivados, entre outras fontes. Segundo a EcoHealth Alliance, 10 carregamentos de sanguessugas foram recusados nos EUA entre 2000 e 2014 – o que significa que os funcionários ou os apreenderam ou os enviaram de regresso ao país de origem. Allison White, gerente de avaliação do programa EcoHealth, descobriu que o total dessas recusas somavam no mínimo vários milhares de sanguessugas. As especificidades de cada incidente permanecem desconhecidas.

Em relação à grande apreensão de sanguessugas no Canadá, o caso será presente a juiz no dia 15 de fevereiro. Entretanto, as autoridades ainda estão a tentar encontrar um lar para as 3950 sanguessugas remanescentes.

“Quer alguns animais de estimação?” pergunta Lupert.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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