Animais

Como a Expressão Facial Deste Animal o Mantem Seguro

As marcas do loris anunciam uma “engraçada, pequena e fofa bola de pelo mortífera”.Sunday, March 3

Por Jason Bittel
As marcas na face do loris de Java atraem a atenção para a sua zona mais perigosa – a boca.

Com um par de olhos de urso de peluche, um nariz em forma de botão e um rosto que parece um cruzamento entre um panda-vermelho e uma preguiça, os loris de Java podem muito bem ser uma das criaturas mais fofas do planeta. Mas o que vemos como adorável, outros animais podem interpretar como um aviso terrível.

Os loris são o único primata venenoso do planeta. Estes pequenotes segregam toxinas na sua saliva e em zonas interiores dos seus braços, através de glândulas.

Quando as duas se misturam, criam uma espécie de veneno duplo, diz Anna Nekaris, bióloga de conservação da Universidade Oxford Brookes, no Reino Unido.

Apesar dos loris possuírem uma dentada letal, são pequenos e lentos. Isto significa que poderiam beneficiar de algo para avisar os outros animais da sua maldade, sem realmente terem de se envolver em duelos dispendiosos.

“Vários animais fazem isso,” diz Nekaris. “Usam a cor para assinalar o quão fortes ou dominantes são.”

Os cientistas dão-lhe o nome de coloração aposemática, e aplica-se a tudo, desde doninhas a texugos, de sapos venenosos a joaninhas.

Num estudo publicado recentemente na revista Toxins, Nekaris e os seus coautores usaram evidências – recolhidas ao longo de oito anos – de mais de 200 capturas e libertações de animais vivos, para demonstrar que as máscaras faciais dos loris de Java correspondem aos padrões de coloração aposemática. Isto é, as marcas chamam a atenção para as partes mais perigosas dos animais – as suas bocas – e  seriam altamente percetíveis numa variedade de sistemas visuais, incluindo os dos predadores de loris, como a águia falcão, as cobras pitão, os lagartos-monitores e os orangotangos.

A descoberta confirma-nos algo que o resto do reino animal já aparenta saber.

O loris é uma “engraçada, pequena e fofa bola de pelo mortífera”. Diz Nekaris.

DOIS ANOS TERRÍVEIS 

Curiosamente, Nekaris e os seus coautores conseguiram provar outro conceito – os loris mais novos são mais agressivos que os mais velhos.

Depois de estudar estes animais durante 25 anos, Nekaris diz que parecia existir sempre uma diferença entre gerações. Os adultos maduros (com dois anos ou mais) geralmente acalmavam-se depressa, após terem sido capturados, diz. Mas sempre que apanhavam os mais novos (entre um e dois anos de idade), precisavam de ter cuidado.

“Os mais novos tentam mesmo matar-nos,” diz Nekaris. “São incrivelmente fortes. Alguns gritam. E acumulam saliva, com veneno, na boca.”

Às vezes, os animais dão tanta luta que os cientistas nem conseguem terminar as medições – impressionante para um animal que pesa o mesmo que um hámster grande.

Mas depois de documentar, durante oito anos, os diferentes níveis de agressividade destes animais, os cientistas provaram agora que os mais jovens passam realmente pelo que se chama de terríveis dois anos. Isto é ainda mais interessante, pois este novo estudo também demonstra que os loris mais jovens também têm tendência para ter contrastes mais dramáticos nas suas máscaras faciais.

Isto sugere que as marcas podem servir outro propósito – comunicação com outros loris.

Os loris de Java vivem em casais, um macho e uma fémea, e juntos guardam um território de floresta do tamanho de um campo de futebol. Infelizmente, já resta muito pouco habitat na ilha indonésia de Java, graças à agricultura e à desflorestação, por isso, todo o espaço disponível já foi reivindicado. Um casal pode ficar no mesmo local até oito anos. Isso significa que, quando os mais jovens se aventuram, fazem-no sozinhos e são obrigados a lutar pelo seu direito ao território.

"Os animais mais jovens também são os que mostram mais ferimentos", diz Nekaris. "Ferimentos terríveis, necróticos, capazes de apodrecer a carne."

Com tanta dificuldade, por parte dos loris mais novos, na conquista de território e sua proteção na idade adulta, Nekaris tem a sensação de que a evolução está a investir toda a sua energia nestas marcas faciais, que informam sobre o seu veneno e dureza.

"UM VINCO MUITO INTERESSANTE"

Ted Stankowich, ecologista comportamental evolucionário da Universidade Estadual da Califórnia, em Long Beach, fez carreira a estudar sinais aposemáticos em tudo, desde doninhas a pandas-gigantes. Mas geralmente, os sinais que ele vê são estritamente usados como dispositivos anti-predadores.

"Os loris são realmente únicos, pois o seu veneno é útil não só contra predadores, mas também contra animais da mesma taxonomia e outros lóris", diz Stankowich. "Isso adiciona um vinco muito interessante aos sinais aposemáticos."

Apesar de Stankowich considerar o estudo interessante e bem fundamentado, ele gostava que os autores tivessem medido a toxicidade nos loris, para descobrir se estes também são mais venenosos durante a juventude, confirmando assim a sua agressividade aumentada e coloração contrastante.

Também é curioso que as marcas mudem à medida que os animais envelhecem, já que não vemos a mesma coisa noutros sinalizadores aposemáticos clássicos. "As doninhas já nascem com as listas brancas, que se mantêm ao longo da vida, e acho que isso também acontece com outros carnívoros", diz.

É possível que os jovens loris tenham mais motivos para sinalizar o seu veneno e agressividade, seja porque são mais pequenos e fáceis de apanhar, ou porque estão mais vulneráveis enquanto procuram novos territórios.

“A evolução raramente é uma história simples”, diz Nekariz.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

 

 

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