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Como Uma Tartaruga ‘Extinta’ Foi Redescoberta Um Século Depois

A tartaruga-gigante da Fernandina desapareceu há mais de 100 anos. Agora existe esperança de que a sua população possa regressar.quarta-feira, 6 de março de 2019

Por Jill Langlois
A última confirmação da existência da tartaruga-gigante da Fernandina foi em 1906.

Quando Washington Tapia encontrou uma tartaruga-gigante da Fernandina na ilha que lhe dá o nome, nas Galápagos, foi como ganhar um Prémio da Academia.

"Para mim, foi a conquista mais importante da minha vida, porque trabalho na conservação de tartarugas há 30 anos", diz o diretor da ONG Galápagos Conservancy's Giant Tortoise Restoration Initiative (GTRI), e líder da expedição. "Este foi basicamente o meu Óscar."

Tapia e uma equipa de quatro guardas florestais do Parque Nacional de Galápagos – Jeffreys Malaga, Eduardo Vilema, Roberto Ballesteros e Simon Villamar – e Forrest Galante, um anfitrião e biólogo da Animal Planet, que financiou a expedição, ficaram impressionados quando encontraram a fémea Chelonoidis phantasticus em Fernandina, a mais jovem das ilhas Galápagos e um vulcão-escudo ativo.

O último registo de um avistamento confirmado da espécie aconteceu em 1906. A União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) assinalou a tartaruga-gigante da Fernandina na sua Lista Vermelha como possivelmente extinta até 2017. Mas dois anos mais tarde, Jeffreys Malaga deparou-se com as fezes do réptil no parque  (três anos após a inauguração do GTRI). A designação da tartaruga foi então alterada para espécie em perigo crítico.

“Era um sinal claro de que as tartarugas estavam lá”, diz Tapia.

Naquele domingo em particular, a 17 de fevereiro, a equipa partiu às 6 da manhã em busca de manchas verdes entre os inúmeros fluxos de lava da ilha. Só por volta do meio-dia é que identificaram possíveis fezes de tartaruga, numa área com cerca de um terço de um quilómetro quadrado. Quando Tapia viu as marcas de uma tartaruga – o solo havia sido remexido e tinha impressões dos seus pés e carapaça – percebeu que elas estavam por perto.

“Saber que a conservação é possível dá esperança às pessoas e demonstra que as atividades humanas precisam de mudar para que isso continue”, disse Tapia.

A tartaruga fémea, que se julga ter cerca de 100 anos, foi levada pela equipa para um centro de reprodução na Ilha de Santa Cruz, decisão tomada por Tapia porque a área onde a tartaruga habitava tinha poucas fontes de alimento e, se deixada em Fernandina, seria muito difícil encontrá-la novamente. As tartarugas têm tendência para se movimentar muito, e a ilha, com mais de 600 metros quadrados, tem uma grande área para ser investigada. O seu terreno acidentado, originado pelos abundantes fluxos de lava, torna a localização de animais num desafio.

Estima-se que esta fémea tenha 100 anos de idade. As tartarugas-gigantes podem viver até aos 200 anos, havendo por isso esperança de que a espécie possa recuperar.

Mas Tapia e a sua equipa esperam encontrar mais. Durante esta investigação a Fernandina, depararam-se com outros trilhos de tartaruga, acerca de um quilómetro de onde encontraram a fémea. A equipa planeia fazer outra expedição à ilha ainda este ano.

Entretanto, vão recolher amostras de ADN da tartaruga fémea e enviar para a Universidade de Yale, onde estão os especialistas em tartarugas-gigantes, para confirmar que se trata de uma Chelonoidis phantasticus. O processo pode levar meses, mas Tapia não tem dúvidas.

Tapia espera poder restaurar os números da população, quando encontrarem outras, e devolvê-las ao seu habitat natural. As tartarugas podem viver até aos 200 anos de idade, por isso, apesar da sua idade avançada, a tartaruga fémea ainda tem muito tempo para ajudar a sua espécie a regressar.

Esta não foi a primeira vez que foram feitos esforços de conservação e reprodução para trazer de volta, para as ilhas Galápagos, uma população de tartarugas em perigo crítico. A GTRI angariou mais de 7 mil tartarugas que estavam em cativeiro e que foram libertadas na natureza, trazendo-as de volta dos limites da extinção. Uma espécie da Ilha Española tinha apenas 14 tartarugas quando os esforços de reprodução começaram. Agora, a população atingiu mais de 1000.

Um total de 15 espécies de tartarugas das Galápagos foram aí identificadas – duas estão extintas e 12 estão ameaçadas de extinção. (A décima quinta também está extinta, mas nem sempre é incluída nas listas oficiais porque nunca foi descrita formalmente).

Para Tapia, a descoberta da tartaruga-gigante da Fernandina significa mais do que o regresso de uma espécie.

“As tartarugas nas Galápagos são como engenheiros de ecossistemas”, disse. “"Elas contribuem para a dispersão de sementes e moldam o ecossistema. Esse papel ecológico é muito importante.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

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