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Investigadores Detidos no Irão, Enquanto Tentavam Proteger Chitas Ameaçadas, Aguardam Veredicto

Depois de um ano atrás das grades, quatro dos investigadores de vida selvagem iranianos acusados de espionagem podem enfrentar a pena de morte. Os seus apoiantes dizem que eles queriam apenas proteger a vida selvagem do Irão. Terça-feira, 26 Março

Por Kayleigh E. Long
Fotografias de Frans Lanting

O caso dos oito cientistas e investigadores presos no Irão entrou numa fase crucial e os cientistas de vida selvagem e as organizações não governamentais do mundo inteiro continuam a reunir esforços para apoiar os acusados.

Os ambientalistas, da Persian Wildlife Heritage Foundation (PWHF), sedeada em Teerão, foram acusados de usar armadilhas fotográficas em atos de espionagem – uma alegação que foi rejeitada por técnicos especializados em armadilhas fotográficas.

Quem conhece os acusados descreve-os como uma equipa dedicada de ambientalistas, investigadores e cientistas, cujo trabalho na conservação de chitas asiáticas em perigo crítico, e de outras espécies, foi involuntariamente politizado, com resultados trágicos.

Em meados de janeiro de 2018, o fundador da PWHF, Morad Tahbaz, foi preso. Nos dias 24 e 25 de janeiro, outras oito pessoas, ligadas à organização, também foram detidas: o diretor Kavous Seyed-Emami, Niloufar Bayani, Houman Jowkar, Taher Ghadirian, Sepideh Kashani, Amir Hossein Khaleghi, Abdolreza Kouhpayeh e Sam Radjabi. A Amnistia Internacional documentou uma repressão ainda mais ampla contra ativistas ambientais, citando 63 prisões em 2018, com base em relatos da comunicação social.

A 9 de fevereiro, a esposa de Seyed-Emami, Maryam Mombeini, foi convocada à Prisão Evin de Teerão para interrogatório, disse o seu filho Mehran. Depois de várias horas, disseram-lhe que ela podia ver o marido – ou melhor, o seu corpo. As autoridades da prisão disseram que ele se tinha suicidado. Mas os seus filhos estão a exigir uma investigação independente, porque a morte ocorreu fora do alcance das câmaras de vigilância, diz outro filho, Ramin, que viu as imagens.

No outono de 2018, foram anunciadas as acusações. A Article 19, uma organização dos direitos humanos sedeada em Londres, relata que Niloufar Bayani, Houman Jowkar, Taher Ghadirian e Morad Tahbaz foram acusados de “corrupção na Terra”, crime que pode ser punido com a pena de morte. Sepideh Kashani, Amir Hossein Khaleghi e Abdolreza Kouhpayeh estão acusados de espionagem, e Sam Radjabi enfrenta acusações mais leves de conluio, relacionadas com espionagem.

O encarceramento destes ambientalistas foi recebido com protestos internacionais das Nações Unidas, da Amnistia Internacional, do Observatório dos Direitos Humanos, do primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, da União Internacional para a Conservação da Natureza, da Wildlife Conservation Society, da World Wildlife Fund, de 132 líderes conservacionistas e do Parlamento Europeu.

Fundada em 2008, a PWHF atua com a permissão do governo iraniano, em estreita cooperação com o Ministério do Ambiente do país, e mantém relações de longa data com agências da ONU, organizações não governamentais internacionais e grupos de conservação da natureza. A fundação é financiada maioritariamente por doadores no Irão, mas recebe assistência técnica de grupos internacionais – procedimento padrão no mundo da conservação.

'ALARME E CONSTERNAÇÃO'

As parcerias internacionais e os intercâmbios científicos são práticas comuns entre a comunidade de investigação de grandes felinos, com organizações que colaboram em projetos que transcendem fronteiras e políticas. Quem conhece o trabalho da PWHF diz que o seu sucesso foi construído com base em convicções apolíticas de conservação, sendo que os seus pontos fortes assentam nas sólidas relações que construiu com agências do governo iraniano e com grupos internacionais. Foi por essa razão que as detenções de funcionários e associados da PWHF chocaram a comunidade internacional de conservação.

 

Uma carta, vista pela National Geographic, revela novos detalhes sobre as preocupações da equipa da PWHF, meses antes das detenções, relativamente à possibilidade do seu trabalho de conservação das chitas poder vir a ser prejudicado por questões políticas.

A carta, com a data de 17 de outubro de 2017, foi endereçada ao então chefe oficial de conservação, Luke Hunter, da organização de conservação de felinos Panthera, que forneceu ocasionalmente assistência técnica e enviou especialistas ao Irão para trabalhar com a PWHF, integrados no projeto de Conservação da Chita Asiática e Projeto Habitat (CCAPH), financiado pela ONU e pelo Ministério do Ambiente do Irão.

A carta expressava "alarme e consternação" pelos comentários críticos dirigidos ao Irão, feitos pelo presidente e cofundador da Panthera, Thomas Kaplan – um investidor bilionário, empresário e filantropo. Kaplan tinha falado no mês anterior, na cimeira Unidos Contra um Irão Nuclear (UCIN), um grupo de pressão que ele ajuda a financiar, e que conta entre os seus membros de administração com antigos agentes dos serviços secretos americanos e israelitas. Embora Kaplan não estivesse a falar enquanto presidente da Panthera, a carta sugere que os investigadores iranianos estavam preocupados que, ao serem associados a uma organização ligada a alguém que criticava publicamente o Irão, isso pudesse ser problemático.

De acordo com a sua página de internet, a UCIN defende “o isolamento económico e diplomático do regime iraniano, para obrigar o Irão a abandonar o seu programa ilegal de armas nucleares, suspender o apoio ao terrorismo e as violações dos direitos humanos”. Esta cimeira foi a primeira demonstração pública do apoio de Kaplan à UCIN.

A carta da PWHF afirmava que manter uma cooperação, mesmo que mínima, com a Panthera, se tornara "questionável" – devido aos comentários de Kaplan – e que era lamentável "ver políticas pessoais terem um impacto negativo na conservação".

Na carta podia ler-se: “As suas alegações sobre o nosso país são completamente infundadas e são um insulto para o nosso país e para o seu povo.”

Hunter recusou fazer comentários sobre a carta à National Geographic. Tanya Rosen, antiga funcionária da Panthera e Exploradora National Geographic, confirmou a autenticidade da carta. Rosen diz que soube da existência da mesma pelo presidente e CEO da Panthera, Frédéric Launay, numa reunião em Nova Iorque, no final de fevereiro de 2018, e dos detalhes específicos do seu conteúdo no outono desse ano.

Apesar de Hunter ter recusado comentar, fez apreciações gerais por email:

“As pessoas detidas estão entre os conservadores da natureza com mais conhecimentos, experiência e capacidade, a trabalhar no Irão. Eles realizaram investigações excelentes sobre chitas e, graças a eles, a nossa compreensão dessa população em perigo crítico é muito mais rica. Eu estou convencido da sua inocência.”

Até à data da publicação deste artigo, Kaplan e a Panthera não responderam aos vários pedidos para comentar.

INVESTIGAÇÃO CHITA

Nos últimos anos, grupos de conservação de chitas têm trabalhado para dar a conhecer ao Irão o sofrimento das subespécies de chitas, conhecidas por chitas iranianas ou asiáticas (Acinonyx jubatus venaticus). Estima-se que existam menos de 50 na natureza, todas no Irão. Esta chita é um dos felinos mais ameaçados do planeta. Há muito tempo que são caçadas como uma espécie de troféu, e os encontros chita-humanos continuam a ser um problema nas comunidades mais remotas. O Ministério do Ambiente do Irão, a ONU, a PWHF e outras organizações têm trabalhado para dar a conhecer o perfil da chita.

Até a seleção de futebol do Irão se envolveu na campanha de sensibilização. A PWHF delineou um plano, com o Projeto de Conservação da Chita Asiática, que fez com que a equipa de futebol entrasse em campo, no Mundial de 2014, com chitas gravadas no equipamento – esta ação exigiu uma isenção especial das regras da FIFA, emitida em reconhecimento da importância da conservação da chita asiática.

Perceber qual é a população que resta numa espécie como a chita asiática exige a utilização de armadilhas fotográficas. É prática comum, no campo de investigação da vida selvagem, colocar armadilhas fotográficas ao longo de trilhos de caça, dentro da área de vida de uma espécie, deixando as câmaras a funcionar durante meses e às vezes anos. Normalmente, esses dispositivos têm sensores de movimento que só são ativados se algo passar dentro do seu alcance efetivo – que geralmente não passa de 3 a 5 metros. As câmaras não transmitem dados. À noite, vista a cerca de 5 metros, a chita parece espectral. Durante o dia, a qualidade da imagem é melhorada, mas apenas a curta distância. Essas imagens fornecem informações vitais que permitem aos investigadores identificar animais individuais pelas suas manchas, observar a sua condição e fazer um censo básico de uma criatura tímida.

O fotógrafo de vida selvagem Frans Lanting visitou o Irão em 2011 e 2012, em trabalho para a National Geographic, e colaborou com guardas de caça e cientistas, incluindo alguns agora em julgamento, para montar armadilhas fotográficas para captar imagens de chitas no Irão.

Em comentários enviados por email à National Geographic, Lanting enfatiza que as armadilhas fotográficas simples usadas pela PWHF só servem para uma coisa – investigação de vida selvagem.

“Só conseguimos captar imagens da baixa resolução de animais que passam a curtas distâncias”, diz Lanting, que trabalha com armadilhas fotográficas há três décadas. “É para isso que foram concebidas, e não é possível fazer mais nada com elas, mesmo que quiséssemos.”

Para além disso, ele diz que para montar armadilhas fotográficas é preciso uma autorização governamental – um processo longo e burocrático que apenas foi possível devido à relação duradoura que a PWHF tinha com o Ministério do Ambiente do Irão.

“Esta é uma situação horrível para as pessoas que foram acusadas injustamente”, diz Lanting. “Também é uma tragédia para a chita asiática que está no limite da extinção. Tudo isto pode transformar-se numa pena de morte para a espécie, e se isso acontecer, todos no Irão ficam a perder.”

'UM AMOR PELA NATUREZA QUE É CONTAGIOSO'

Em entrevistas, as famílias, amigos e colegas, todos realçaram a dedicação dos investigadores à vida selvagem do Irão.

Niloufar Bayani estudou no Canadá e nos EUA, no campo da biologia da conservação, e está no grupo que enfrenta a acusação de “corrupção na Terra”. De 2012 a 2017, Bayani trabalhou para o Programa Ambiental da ONU, viajando pelo mundo, mas decidiu regressar ao Irão, em 2017, para trabalhar com a PWHF.

“Ela estava determinada a regressar ao Irão. Ela preocupava-se seriamente com o seu país e queria fazer a diferença através do seu trabalho de conservação”, diz Mike Moser, especialista de gestão de ecossistemas, que financia projetos de conservação no Irão desde 1999, no papel de consultor para a ONU e para outras organizações.

Uma fonte próxima de Bayani, que pediu anonimato devido à sensibilidade da situação, confirma a paixão dela pelo trabalho: “Muitas pessoas dizem a brincar que a primeira vez que olharam atentamente para um inseto, ou que tocaram num, foi por causa de Niloufar. Ela espalha um amor pela natureza que é contagioso… O seu interesse em conservar espécies em perigo reflete uma bússola moral que ela seguiu à letra: ela importava-se com o universo e com tudo o que existia nele ”.

Dos escassos detalhes que emergiram do processo judicial, o depoimento provocador de Bayani, sobre maus-tratos e confissões forçadas, surpreendeu aqueles que a conhecem, pelo seu ato de extrema coragem.

De 2014 a 2017, Moser também trabalhou de perto com Taher Ghadirian, consultor da PWHF sobre grandes mamíferos, e que Moser descreve como sendo “sem dúvida um dos melhores ecologistas do Irão”. Ghadirian fez levantamentos populacionais de leopardos, lobos e ursos, recorrendo a armadilhas fotográficas e a vestígios mamíferos (como pegadas e urina), e trabalhou com pastores nómadas para ajudar a encontrar soluções para os confrontos entre pessoas e animais selvagens. Ele é "um conservacionista apaixonado, um investigador de campo brilhante e um cientista de topo", diz Moser.

“O que me impressiona em cada um destes indivíduos é o seu profissionalismo e o seu empenho na conservação ambiental do Irão. É por essa razão que a PWHF tinha uma reputação tão boa junto dos cientistas e ambientalistas”, diz Moser.

MAS TU NÃO ESTÁS AQUI

Ama To Nisti (Mas Tu Não Estás aqui) é uma canção que Ramin Seyed-Emami nunca deveria ter de compor.

A letra, traduzida a partir da língua persa, fala de perda: “É a primeira vez, sozinho nas montanhas, que eu caminho. É a primeira vez, que a água da nascente corre límpida, os meus olhos estão firmes no caminho, mas tu não estás lá.”

Ramin, conhecido por Raam, tem 37 anos e é músico. Ele escreveu a canção para homenagear o seu pai, o cofundador da PWHF, Kavous Seyed-Emami, que morreu na prisão. O vídeo da música é como folhear um álbum de família, com décadas de fotografias e imagens, de um homem a rir e a segurar um coelhinho, para um homem e uma mulher a olhar para uma webcam a sorrir – uma cena familiar de pais a falar com os seus filhos crescidos, pelo Skype.

Raam e o seu irmão, o estudante de psicologia Mehran, de 35 anos, nasceram ambos no Irão, têm dupla cidadania iraniana-canadiana e dividiram o seu tempo entre os dois países. A 7 de março de 2018, ainda a recuperar da morte do pai, Raam e Mehran deixaram o Irão. A mãe, Maryam Mombeini, foi impedida de sair do aeroporto, mas implorou para que continuassem sem ela, disseram os irmãos à National Geographic. Maryam continua a não conseguir sair do Irão, apesar de também possuir a cidadania canadiana.

Mehran e Raam falam de uma infância passada ao ar livre, acampando cerca de 15 vezes por ano. Eles descrevem o pai como “um verdadeiro hippie que amava as árvores”, que monitorizava o tempo que demoravam a tomar banho e os gastos de eletricidade em casa, que lhes deu o livro Apelo da Selva, de Jack London, que dizia a brincar que o maior feito para um homem era estar no topo de uma montanha, e que durante décadas viajou vários quilómetros até a fonte de água mais próxima para ir buscar litros de água fresca da nascente.

“O seu amor pela vida ao ar livre despontou várias gerações de entusiastas que seguem o seu lema no Irão. Não há muitas pessoas no Irão que façam campismo e que não conheçam o meu pai. Não havia montanha, vale, lago ou deserto que não tivéssemos visto”, dizem os irmãos. “Ele só queria que as gerações futuras pudessem desfrutar das belezas naturais do Irão e da sua vida selvagem, da mesma maneira que ele o fez. Foi por isso que ele trabalhou tão arduamente a vida inteira, para ajudar a preservar o ambiente e a vida selvagem do Irão. ”

O trabalho de Kavous Seyed-Emami na PWHF era voluntário, dizem os seus filhos, e ele fez isso pelo sentimento de dever para com o seu país. O seu trabalho, a tempo inteiro, durante quase três décadas, foi como professor de sociologia na Universidade Imam Sadiq, uma instituição conservadora em Teerão. Ele era conhecido por ser cuidadoso, pela sua aversão ao risco e pela sua sensibilidade a qualquer coisa que fosse remotamente considerada política ou perigosa.

“Ele era um patriota no melhor sentido da palavra, e o Irão precisava desesperadamente dele”, dizem Raam e Mehran. “Ele pode ter abandonado o seu corpo, mas a sua alma irradia através de todas as árvores, de todos os campos e de todos os animais nas nossas terras. Ele continua a inspirar-nos até hoje.”

Para a sua família, o desfecho de tudo isto ainda permanece um mistério. Os irmãos têm esperança em reunir-se com a mãe, para que possam fazer o luto juntos.

O futuro da chita asiática está preso por um fio, tal como as vidas dos cientistas que a queriam preservar.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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