Animais

Leopardo Negro Confirmado em África Pela Primeira Vez em 100 anos

A felina, extremamente rara, tem melanismo, uma condição em que o corpo produz um pigmento em excesso.sexta-feira, 1 de março de 2019

Por Jason G. Goldman
Um leopardo negro ultra-raro caminha pelo Campo Selvagem Laikipia, no Quénia central, em 2018.

Dizem que os gatos pretos dão azar, mas quando Nick Pilfold ouviu falar sobre um deles escondido no Quénia, ele sabia que se tratava de algo especial.

No início de 2018, o biólogo, sedeado no Quénia, e a sua equipa implementaram um conjunto de armadilhas fotográficas em toda a zona de mato da Loisaba Conservancy. Não demorou muito até que Pilfold conseguisse o que procurava: provas inegáveis de um leopardo, com melanismo, extra-raro.

IMAGENS REGISTAM UM LEOPARDO NEGRO A VIVER NO QUÉNIA

Imagens Registam Um Leopardo Negro a ViverNo Quénia
Imagens Registam Um Leopardo Negro a ViverNo Quénia
12 de Fevereiro de 2019 - Investigadores do San Diego Zoo Global confirmam a presença de um raro leopardo negro a viver em Laikipia County, no Quénia

A jovem fémea foi avistada a viajar com um leopardo maior, de cores normais, que se presume ser a sua mãe.

Ao contrário do albinismo, o melanismo resulta de um gene que provoca excesso de pigmento na pele ou no pelo de um animal, fazendo com que este aparente ser preto. Têm existido relatos, durante décadas, da presença de leopardos com melanismo, tanto no Quénia como em áreas circundantes, mas a confirmação científica da sua existência permanece bastante rara.

Estas fotografias, publicadas na revista African Journal of Ecology em janeiro, representam a primeira documentação científica de tal criatura em África, em quase um século.

Até 2017 tinha sido confirmado um único avistamento – uma fotografia de 1909, tirada em Adis Abeba, na Etiópia, e arquivada nas coleções do Museu Nacional de História Natural, em Washington. O alcance destes felinos, em grande parte do continente, diminuiu até 66% devido à perda de habitat e ao declínio das suas presas.

“Quase toda a gente tem uma história sobre avistamentos, é uma coisa mítica,” diz Pilfold, do Instituto de Pesquisa e Conservação do Zoo Global, em San Diego.

"Mesmo quando falamos com pessoas mais velhas que foram guias no Quénia, há muitos anos atrás, quando a caça ainda era legal (nos anos 1950 e 60), havia uma ‘regra estabelecida’ onde ninguém caçava leopardos negros. Se vissem um, não disparavam.”

VIDA NA SOMBRA

Existem nove subespécies de leopardos, desde África até ao leste da Rússia. E apesar de 11% dos leopardos atualmente vivos poder ter melanismo, diz Pilfold, a maioria é encontrada no sudeste da Ásia, onde as florestas tropicais oferecem sombra em abundância.

Acredita-se que o melanismo oferece uma camuflagem adicional nesses habitats, dando vantagem a estes predadores na caça, diz Vincent Naude, coordenador do projeto forense genético do leopardo para a ONG Panthera, que não esteve envolvido nesta investigação.

Mas no Quénia, os leopardos negros, chamados por vezes de "panteras negras" – termo abrangente que se refere a qualquer felino grande coberto de negro – parecem ocupar matagais semiáridos.

"Os nossos leopardos vivem em ambientes semelhantes à savana e esse melanismo extra não lhes dá uma vantagem adaptativa", diz Naude. Mesmo assim, dado o seu estilo de vida noturno, um pouco de pigmentação adicional não deve ser prejudicial.

O facto de a jovem fémea estar a viajar com a mãe também sugere que a sua coloração singular não teve impacto na ligação familiar, observa Pilfold.

COINCIDÊNCIA ENGRAÇADA

Depois de ouvir falar sobre as descobertas de Pilfold, a equipa da Ol Ari Nyiro Conservancy – quase a 50 quilómetros a oeste de Loisaba – descobriu uma imagem de alta qualidade de um segundo leopardo negro, tirada em maio de 2007.

Como essa foto tem mais de uma década, os investigadores concluíram que esta deve ser de um indivíduo diferente, sugerindo que as panteras negras são mais prevalentes no Quénia do que em outros países africanos.

Mas as panteras negras africanas ainda são tão raras que os investigadores nem sabem se a mutação genética, responsável pela pigmentação escura, é a mesma que sustenta o melanismo em leopardos do Sudeste Asiático.

Pilfold acrescenta que é curioso que o país fictício de Wakanda, lar do super-herói Pantera Negra, esteja localizado na África Oriental, perto do Quénia.

"É uma coincidência única", diz Pilfold. "O único lugar onde temos leopardos negros é o mesmo onde eles parecem existir no Universo Marvel."

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

 

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