Animais

O Lobo-Cinzento Ainda Está Ameaçado? Depende a Quem Pergunta

O governo afirma que os lobos estão a aumentar nos Estados Unidos contíguos, mas alguns cientistas dizem que estes animais ainda enfrentam sérias ameaças devido à caça e à fragmentação de habitat. Sexta-feira, 29 Março

Por Jason Bittel

O Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA anunciou recentemente que, depois de quatro décadas de intensos esforços de conservação, chegou finalmente o momento de retirar o lobo-cinzento da Lista das Espécies Ameaçadas.

"Os factos são claros e indiscutíveis – o lobo-cinzento já não se insere na lista de espécies ameaçadas ou em perigo", disse David Bernhardt, secretário do Departamento do Interior dos EUA, em comunicado enviado por email.

“Atualmente, o lobo prospera em toda a sua área de alcance, sendo seguro concluir que o continuará a fazer daqui em diante.”

Mas vários cientistas dizem que ainda é preciso alguma contenção.

Para começar, essa definição ainda é suscetível de interpretação. De acordo com a Lei das Espécies Ameaçadas, uma planta ou um animal pode ser considerado ameaçado “quando a sua área de alcance, numa porção significativa, já não está em perigo de extinção”.

Mas os lobos-cinzentos ocupam menos de 20% da sua área de alcance histórica nos EUA, diz Jeremy Bruskotter, cientista social da Universidade Estadual do Ohio, que estudou programas de ajuda ao lobo-cinzento nos Estados Unidos.

“Será que isso significa a recuperação da espécie? Parece rebuscado sugerir que sim”, diz.

“Observo esta situação de perto há 15 anos, e a história é sempre a mesma, vezes e vezes sem conta”, diz Bruskotter, que publicou um estudo em 2013 a contrariar uma proposta federal falhada – uma de muitas ao longo dos anos – para retirar a espécie da lista de espécies ameaçadas.

Antes dos europeus chegarem ao continente americano, os lobos vagueavam por quase todo o território, mas em 1930, as décadas de caça e envenenamento já tinham dizimado a espécie nos Estados Unidos contíguos. No início do séc. XX, na região de Greater Yellowstone, os veterinários infetavam deliberadamente os lobos com ácaros que provocavam sarna.

Atualmente, graças à colonização natural de matilhas canadianas e a um programa de reintrodução, centrado no Parque Nacional de Yellowstone, com início na década de 1990, podem ser encontrados mais de 6 mil lobos-cinzentos em populações fragmentadas, em toda a costa oeste e nos Grandes Lagos. (Duas outras linhagens, o lobo-mexicano e o lobo-vermelho, lutam atualmente para sobreviver em pequenas populações selvagens; nenhuma das duas espécies seria afetada pela proposta de remoção da lista das espécies ameaçadas.)

ESTADO DO LOBO-CINZENTO

É importante lembrar que os lobos-cinzentos já saíram da lista de várias regiões onde agora sobrevivem, diz Gavin Shire, porta-voz do Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA.

Em 2011, o Congresso aprovou uma legislação que retirou as proteções federais aos lobos-cinzentos, e devolveu a administração da espécie às agências estaduais de vida selvagem em Idaho, Montana, leste de Washington, Oregon e no norte do Utah. Depois, em 2017, o Serviço de Pesca e Vida Selvagem fez o mesmo com os lobos do Wyoming.

Se a nova proposta for aprovada, Shire diz que não existirão alterações nessas áreas de alcance do lobo.

O que mudaria seria a proteção federal dada aos lobos, em estados como o Minnesota, Michigan e Wisconsin, que albergam cerca de 4400 animais. Partes de Washington e de Oregon também seriam afetadas, e também algumas áreas que os lobos começaram a colonizar recentemente, como a Califórnia.

Agora, segue-se um período de 60 dias, durante o qual o Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA aceita comentários do público. Apesar desses comentários poderem incluir um pouco de tudo, desde cartas escolares a editoriais, Shire afirma que o que procuram na realidade é “informação científica que nos ajude a tomar a decisão correta”.

"Esta não é uma decisão científica", diz Brett Hartl, que analisou a proposta a pedido da organização sem fins lucrativos Centro de Diversidade Biológica. "Ignorar a quantidade de habitat desocupado é uma escolha puramente política e arbitrária."

Hartl refere, por exemplo, a diferença de atuação do serviço de vida selvagem na conservação da águia-americana.

“Não declarámos a recuperação da águia até esta existir em todos os Estados Unidos, provavelmente em números superiores aos que se verificavam antes da chegada dos europeus”, diz.

‘UM AMBIENTE DE PERSEGUIÇÃO’

Parte do plano passou sempre por devolver o controlo a cada estado assim que fossem atingidos os objetivos de recuperação, diz Carter Niemeyer, biólogo aposentado e antigo responsável pela recuperação do lobo, sob a alçada do Serviço de Pesca e Vida Selvagem, em Idaho.

Para a população de lobos nas Montanhas Rochosas do Norte, em Idaho, Wyoming e Montana, os objetivos passavam por manter populações de pelo menos 300 lobos em cada estado, com 30 pares reprodutores, durante 3 anos.

O problema, diz Niemeyer, é que estados como o Idaho encaram agora os lobos individuais – que ultrapassem esses objetivos numéricos – como “bagagem em excesso”, e que podem ser eliminados através da caça ou de armadilhas.

“Supostamente, esses números eram os requisitos mínimos” diz. “Não fazemos a gestão dos ursos dessa forma, e não fazemos a gestão dos pumas dessa forma, então porque é que perseguimos os lobos desta maneira?”

Muitos criadores de gado, agricultores e outros proprietários de terrenos opõem-se vigorosamente à reintrodução dos lobos, em grande parte devido ao potencial predatório de gado. Os criadores de gado recebem compensações por quaisquer animais mortos por lobos e, às vezes, os próprios lobos são mortos ou realojados. Em muitos estados da costa oeste, a caça de lobos também é legal.

Uma organização de caça, conhecida por Fundação de Gestão da Vida Selvagem, oferece recompensas de até mil dólares aos caçadores que capturem lobos em Idaho.

Tudo isto sugere um sentimento anti-lobo, diz Niemeyer.

“Eu faço parte dos esforços de recuperação desde o início, e detesto ver este ambiente de perseguição novamente”, diz Niemeyer, que também escreveu os livros Wolfer e Wolf Land.

PRECISAMOS DE QUANTOS LOBOS?

Outros, como Neil Anderson, gestor do programa Peixe, Vida Selvagem e Parques do Montana, apoiam a remoção da espécie da lista.

“Um dos aspetos mais importantes da administração estadual de vida selvagem, incluindo os lobos, é dar voz e sentimento de propriedade ao público que faz a gestão destas espécies”, diz.

Apesar disso, Anderson admite que os lobos são uma espécie controversa.

“Parece haver uma divisão entre aqueles que não querem restrições nenhumas no número de lobos, e aqueles que querem o menor número possível”, diz Anderson.

O programa Peixe, Vida Selvagem e Parques do Montana anunciou recentemente que a sua época de caça anual produziu 315 mortes de lobos. Esta “colheita” representa 40% da população total desse estado: 850 lobos.

Este tipo de caça talvez não coloque os lobos em risco de extinção, diz Bruskotter, mas é uma forma de impedir a sua recuperação.

Ele diz que a nova proposta acabaria por criar fragmentos as populações de lobos na natureza, em vez de restaurar populações autossustentadas em toda a sua área de alcance prévia.

Resumindo, “estamos a discutir os impactos que a recuperação de uma espécie em perigo poderá ter”, diz Bruskotter.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

 

 

Continuar a Ler