Animais

Porque Cuidam Estes Macacos dos Bebés Uns dos Outros?

Cuidar e amamentar exige muita energia. Deve haver algum benefício para o fazer a crias de outras progenitoras. Tuesday, March 12, 2019

Por Mary Bates
Investigação recente revela que os macacos-dourados, vistos aqui nas Montanhas Qinling, na China, cuidam das crias de outras fêmeas.

Ser mãe já é difícil o suficiente, mas imagine ser mãe também dos filhos de outra pessoa. De acordo com um novo estudo publicado na revista Science Advances, essa é a norma para os macacos-dourados. Ao longo de um período de cinco anos, os cientistas descobriram que mais de 87% dos bebés de macacos-dourados foram amamentados por fêmeas que não eram suas mães – um fenómeno chamado alo-amamentação.

Apesar da alo-amamentação já ter sido documentada em algumas espécies de roedores e carnívoros, e também em alguns primatas, esta não é comum. Eis a primeira evidência de alo-amamentação num macaco do Velho Continente.

 

MÃE MACACA

A alo-amamentação só tinha sido descrita em cerca de 40 espécies de mamíferos, e os investigadores não esperavam encontrá-la quando começaram a observar o comportamento de grupos de macacos na Reserva Natural Nacional de Shennongjia, na região central da China, em 2012.

Zuofu Xiang, um dos autores do novo estudo e professor de conservação da vida selvagem, na Universidade Central Sul de Silvicultura e Tecnologia na China, diz que só depois de repararem numa fêmea a amamentar dois bebés em simultâneo é que se lembraram da ideia.

“Quando começámos a seguir recém-nascidos, ficámos surpreendidos quando descobrimos que a alo-mamentação era comum durante os primeiros três meses de vida de uma cria”, diz Xiang.

Ao longo de 5 períodos de gestação, Xiang e os seus colegas descobriram que mais de 87% dos filhotes eram amamentados por fêmeas que não eram suas mães.

Investigadores tinham estado a estudar estes macacos na China, durante vários anos, até repararem numa mãe a amamentar dois bebés em simultâneo. Foi aí que perceberam que a prática da alo-amamentação era comum nesta espécie.

O parentesco era um fator importante, sendo geralmente as tias ou avós a fornecer esta nutrição suplementar. A reciprocidade também parecia desempenhar um papel, pois muitas mães cuidavam dos bebés de outras fêmeas, caso estas já tivessem cuidado dos seus.

 

TEM LEITE?

Uma das razões pelas quais esta descoberta é surpreendente deve-se ao facto de o leite ser um investimento dispendioso numa cria. O que beneficiaria uma mãe ao fazer esse investimento num filho que não o seu?

"Energeticamente, a lactação é uma das coisas mais esgotantes que um mamífero pode fazer, quase como a própria gravidez – os mamíferos criam literalmente uma nova substância a partir do nada, usando recursos disponíveis no seu próprio corpo, com um custo enorme", diz Kirsty MacLeod ecologista evolucionária e comportamental da Universidade de Lund, na Suécia, que não esteve envolvida no estudo.

“A alo-amamentação encontra-se geralmente em situações onde as fêmeas vivem em grupos de parentesco muito próximos, e onde alimentar o sobrinho ou a sobrinha continua a ser benéfico – partilham os genes. Também se verifica em espécies que têm várias crias ao mesmo tempo; fornecer um pouco de leite a um bebé extra não custa assim tanto”, diz MacLeod.

“Os primatas não encaixam muito bem em qualquer uma das categorias. Apesar de existirem muitos primatas que vivem em grupos sociais, a maioria das espécies não amamenta as crias de terceiros; daí o interesse e a importância deste relatório sobre a alo-amamentação nos macacos-dourados.
 

É PRECISO UMA ALDEIA

Portanto, porque são as mamãs dos macacos-dourados tão generosas com o seu leite?

As fémeas com parentesco coabitam e socializam dentro de grupos maiores e todas dão à luz, anualmente, durante um curto período de tempo. Estes fatores são propícios à alo-amamentação, mas não fazem com que estes macacos sejam únicos.

O que os distingue é o seu habitat. Os macacos-dourados vivem em florestas temperadas de alta altitude, com invernos longos e frios (temperaturas noturnas que descem geralmente abaixo de zero) e fortes mudanças sazonais na disponibilidade de alimentos. Face a estes desafios ambientais, a alo-amamentação poderia melhorar a sobrevivência infantil.

Durante os invernos, a alo-amamentação pode dar às crias uma vantagem de sobrevivência, dizem os investigadores.

No estudo, Xiang e os seus colegas registaram seis casos de bebés que não receberam amamentação de outra fêmea. Quatro deles morreram durante o inverno (antes do desmame), enquanto apenas seis dos 40 bebés que foram alo-amamentados morreram (e isso inclui dois casos de infanticídio masculino que ocorreram quando um novo macho assumiu o controlo do grupo).

A alo-amamentação pode elevar as probabilidades de sobrevivência de uma cria, fornecendo nutrientes extra na aceleração do crescimento e do desenvolvimento. Também pode fornecer um conjunto mais diversificado de compostos imunológicos, reforçando a sua resistência a várias doenças e parasitas.

Este comportamento também pode beneficiar as mães. Ao aliviarem o fardo energético das mães, dividindo-o entre parentes fêmeas, estas podem reinvestir a sua energia em recursos para futuras crias.

Xiang diz que é improvável existir um conjunto de condições únicas que possa explicar a evolução da alo-amamentação em espécies díspares.

"Apesar da alo-amamentação ser benéfica para as mães e para os bebés – e variáveis como a disponibilidade de parentesco feminino e a agressividade ambiental poderem aumentar as probabilidades desta prática noutras espécies – existem primatas com uma configuração semelhante de fatores sócio ecológicos que não exibem sinais de alo-amamentação", diz Xiang.

Ao que parece, para alguns mamíferos é preciso uma aldeia para criar bebés. Partilhar os deveres de amamentação com os parentes parece simplesmente fazer sentido para os macacos-dourados.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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