Animais

Primeira Espécie de Mamífero Reconhecida Como Extinta Devido Às Alterações Climáticas

O modesto melomys de Bramble Cay desapareceu da sua ilha na Grande Barreira de Coral. Quarta-feira, 6 Março

Por Brian Clark Howard

Um pequeno roedor que vivia solitariamente numa ilha ao largo da costa da Austrália é, aparentemente, a primeira vítima das alterações climáticas. Esta observação foi reportada pelos cientistas em junho de 2016 e agora, o governo australiano reconheceu oficialmente a extinção do melomys (Melomys rubicola) de Bramble Cay.

Os cientistas dizem que o animal parece ter desaparecido do seu lar, no Estreito de Torres, na Grande Barreira de Coral. O roedor foi visto pela última vez por um pescador em 2009, mas as tentativas falhadas para o capturar, no final de 2014, levaram os cientistas a afirmar que este estaria presumivelmente extinto.

Também conhecido por rato-de-cauda-mosaico, este animal tem o nome da sua casa em Bramble Cay, uma pequena ilha que fica 3 metros acima do nível da água do mar. 

Os europeus foram os primeiros a ver os ratos na ilha, em 1845, e em 1978 já lá existiam centenas. Mas desde 1998, a parte da ilha que fica acima da maré alta encolheu de 4 hectares para 2,5 hectares, o que significa que a vegetação da ilha tem estado a encolher e os roedores perderam cerca de 97% do seu habitat.

"O fator-chave responsável pela extirpação desta população foi, quase de certeza, a inundação oceânica, que ocorreu provavelmente em diversas ocasiões durante a última década, causando uma perda de habitat acentuada e eventualmente a mortalidade direta de indivíduos", escreve a equipa liderada por Ian Gynther, do Departamento do Ambiente e Património de Queensland.

“Em ilhas baixas como Bramble Cay, os efeitos destrutivos de níveis extremos de água, resultantes de eventos meteorológicos severos, são agravados pelos impactos da subida do nível da água do mar, provocados pelas alterações climáticas”, acrescentam os autores.

Em todo o mundo, desde 1901 até 2010, os níveis da água do mar subiram quase 20 centímetros, um ritmo sem paralelo nos últimos 6000 anos. E na zona em torno do Estreito de Torres, entre 1993 e 2014, este nível subiu quase o dobro da média global.

Portanto, este pequeno mamífero é apenas a primeira de muitas espécies que enfrenta um perigo elevado devido ao clima, avisam os autores.

"Nós sabíamos que algo tinha de ir em primeiro, mas esta ainda é uma notícia impressionante", diz Lee Hannah, cientista de biologia das alterações climáticas da Conservation International.

Hannah publicou um trabalho sugerindo que, devido às alterações climáticas, uma em cada cinco espécies pode estar em risco. As espécies que estão em pequenas ilhas e montanhas são as mais ameaçadas, já que têm poucos lugares para onde ir quando as coisas mudam, diz.

“É certo que algumas espécies podem tirar vantagens das alterações climáticas, mas a maior parte vai ter um alcance mais reduzido”, acrescenta Hannah.

Ainda assim, as pessoas podem trabalhar para mitigar os impactos mais graves, diz, projetando áreas protegidas que podem acomodar as alterações climáticas, realojando a vida selvagem conforme necessário e reduzindo as emissões de gases de efeito estufa.

“Esta espécie poderia ter sido salva”, diz Lee Hannah.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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