Animais

Amigo ou Inimigo, os Gorilas Cuidam dos Mortos

Avistamentos raros de gorilas a reagir aos corpos de outros gorilas, conhecidos e desconhecidos, dá aos investigadores uma nova perspetiva sobre a forma como estes animais lidam com a morte.Wednesday, April 24, 2019

Por Jill Langlois
O grupo de gorilas-das-montanhas Susa, no Parque Nacional dos Vulcões, no Ruanda, foi o tema de estudo da famosa primatologista Dian Fossey. Pouco se sabe sobre a forma como os gorilas reagem à morte.

À primeira vista, enquanto rodeavam silenciosamente o corpo de um gorila morto, as atitudes dos gorilas-de-grauer eram subtis, observando e tocando. Alguns gorilas, sobretudo os mais jovens, colocavam uma mão sobre o corpo, limpando-o ou lambendo os seus dedos.

A família do gorila Chimanuka não conhecia o gorila morto, mas a sua curiosidade estava a aumentar. Esta cena desenrolou-se em 2016, quando os investigadores do Dian Fossey Gorilla Fund – instituição que estuda gorilas há mais de 50 anos – seguiam Chimanuka, o chefe de um grupo de gorilas, no Parque Nacional de Kahuzi-Biega, na República Democrática do Congo.

"Ao início, não sabíamos o que era", diz Amy Porter, uma das investigadoras principais. "Não conseguíamos ver nada. Pensámos: 'O que se passa?' Estava o grupo todo a olhar para alguma coisa e, quando se separaram, vimos um gorila enorme deitado de barriga para baixo."

Este tipo de comportamento foi raramente observado por investigadores, mesmo em grupos sociais mais íntimos, sendo por isso surpreendente observar esta atitude dirigida a um gorila estranho ao grupo. Os gorilas costumam evitar o contacto fora  dos seus grupos sociais, e quando interagem, podem ser agressivos. O interesse demonstrado pelo grupo no corpo do gorila desconhecido foi inesperado, levantando novas questões sobre a forma como estes animais encaram a morte.

Gorilas-de-grauer reunidos à volta de um corpo de um macho desconhecido, no Parque Nacional de Kahuzi-Biega. Os investigadores do Dian Fossey Gorilla Fund estavam a observar de perto.

Num artigo publicado recentemente, na revista Peerj Journal of Life and Environmental Sciences, Porter e sua equipa detalham o comportamento do grupo de Chimanuka e o comportamento de outro grupo de gorilas, no Parque Nacional dos Vulcões, no Ruanda, onde também foi possível observar o tocar, lamber e limpar de dois corpos de gorilas do seu próprio grupo social.

O facto dos gorilas reagirem de forma semelhante à presença de um corpo de um gorila conhecido ou desconhecido oferece aos investigadores uma imagem diferente sobre o seu comportamento, mas ainda existe muito para estudar, pois a observação destas ocorrências é muito rara. “As observações foram realmente oportunas”, diz Porter. “Estamos nos estágios iniciais da compreensão sobre a forma como os animais encaram a morte.”

Apesar de ainda não sabermos se o comportamento descrito no estudo equivale a luto – os cientistas hesitam em usar esse termo para descrever as reações dos animais à morte – casos semelhantes demonstram que é possível que os animais se comovam, sentindo pesar e dor.

Já foram observados elefantes a rodear corpos de outros elefantes mortos, tocando-lhes com os seus pés e trombas. Também foram observadas mães de orcas e de gorilas a carregar os corpos das suas crias. Em 2011, investigadores na Zâmbia publicaram um vídeo de uma comunidade de chimpanzés a tocar, a cheirar e a observar o corpo de um macho de 9 anos que pertencia ao seu grupo. Uma mãe desse grupo, cuja filha tinha morrido na mesma altura, foi vista a transportar o seu corpo e também parou para observar o corpo do gorila de 9 anos. E nos porcos-do-mato também foram observados comportamentos de luto – aninhavam-se, cheiravam, dormiam perto e protegiam os corpos de outros porcos dos coiotes, durante 10 dias.

Existem “diversas provas fidedignas de respostas emocionais dos animais à morte, que podem ir da depressão e ausência de participação social, a sinais de tensão evidentes na sua postura corporal e vocalização”, disse à National Geographic, em 2017, Barbara J. King, antiga professora de antropologia na Faculdade William e Mary, e autora do livro How Animals Grieve.

O tempo que os gorilas passam em contacto com os corpos também tem suscitado preocupações relacionadas com a transmissão de doenças como o Ébola, responsável pela morte de milhares de gorilas na África Central. Essa pode ser uma das maiores formas de transmissão de vírus entre gorilas, alertando para a urgência da conservação de um animal que já se encontra em perigo crítico.

Para Angelique Todd, investigadora na Fauna & Flora Internacional, que estuda o comportamento de gorilas há décadas e colabora atualmente num estudo sobre a interação dos gorilas com doentes e mortos, a transmissão do Ébola é o que faz desta investigação um acontecimento importante.

“Assim que o vírus é transmitido às populações de primatas, sobretudo em grandes densidades populacionais, propaga-se como se fosse um incêndio”, diz Todd. Os gorilas são mais afetados que os chimpanzés porque as suas áreas de alcance sobrepõem-se mais, existindo assim mais contacto entre grupos de gorilas diferentes, diz. “Estes resultados são muito pertinentes, dada a presença atual do vírus Ébola na parte oriental da República Democrática do Congo, ameaçando não só os humanos, mas também os gorilas-das-montanhas, os gorilas-de-grauer e os chimpanzés orientais. Se o vírus Ébola atingir estas populações ameaçadas, a comunidade de conservação vai ter de agir rapidamente para proteger estas populações altamente valiosas.”

Porter tem esperança de que os comportamentos observados e os dados recolhidos possam vir a desempenhar um papel importante na proteção dos gorilas, que estudam há tanto tempo.

“Nós conhecemos todas as suas ligações sociais, conhecemos o seu parentesco genético, conhecemos o contexto da morte”, diz. “Ter isto tudo, mais essas observações tão raras na natureza, é realmente algo de muito especial.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

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