Animais

Como os Oceanos se Tornaram Hostis para os Animais

As alterações climáticas e a pesca em excesso abalaram a vida nos oceanos – mas algumas espécies sobrevivem melhor que outras.Tuesday, April 23, 2019

Por Natasha Daly

O oceano não é tradicionalmente um lugar hostil para viver. As espécies que fazem do oceano a sua casa têm evoluído ao longo de milénios para subsistir nas suas  profundezas.

Coisas que para nós parecem incompreensíveis – como a capacidade de um peixe viver 8 mil metros debaixo de água, por exemplo – é normal para outros animais. "Esse ambiente não lhes é hostil – é como se estivéssemos nas nossas salas de estar", diz Matthew Savoca, investigador de pós-doutoramento na Estação Marinha Hopkins, da Universidade de Stanford, em Monterey.

Nadar com até seis peixes machos permanentemente fundidos com o seu corpo, por exemplo, é apenas uma parte normal da vida de um tamboril fêmea. O macho crava os dentes e todos os seus órgãos na fêmea, exceto os testículos, e definha, até que se transforma num parasita pendurado no seu corpo. Não é nada fora do normal – faz apenas parte da vida de um tamboril em alto-mar.

Apesar dos oceanos se alterarem com o tempo, como aconteceu quando a Terra entrou e saiu dos ciclos da idade do gelo, essas alterações acontecem gradualmente, e as espécies evoluem de maneira a lidar com a situação.

“Mas os humanos prejudicam os oceanos de forma global, seja através da pesca em excesso, através dos plásticos, ou seja lá pelo que for – e fazemo-lo extremamente depressa”, diz Savoca. “É um ataque recorrente, frequente, constante.”

Para muitos animais, a sua evolução não consegue acompanhar as alterações provocadas pelo homem. O plástico, a pesca insustentável, a acidificação dos oceanos, as águas em aquecimento, entre muitas outras coisas, tudo contribui para que o oceano seja cada vez mais hostil para com os animais que nele habitam.

Os animais que vivem mais tempo, como os albatrozes e as baleias-azuis, evoluem muito lentamente ao longo de milhares de anos, porque as suas gerações são muito espaçadas no tempo. Mas o plástico, por exemplo, só existe há 60 anos – é basicamente o tempo de vida de um animal. Seriam necessários 60.000 anos para que as gerações destas espécies, com tempos de vida mais longos, se adaptassem a viver com o plástico, diz Savoca. Basicamente, o oceano transformou-se num campo de minas de plástico. (Leia sobre Baleia Grávida Morreu Com 22 Quilogramas de Plástico no Estômago.)

Os animais que se reproduzem com mais frequência têm uma esperança média de vida mais curta, como os peixes mais pequenos e o plâncton, e também evoluem mais depressa. “As suas espécies podem ser salvas pela evolução”, diz Savoca.

A forma como os animais vivem no oceano também influencia a sua capacidade de adaptação às alterações. Geralmente, as espécies animais assentam algures ao longo de um espectro. De um lado estão os especialistas, que normalmente são predadores de topo, como as orcas e os tubarões, que evoluíram para prosperar num ambiente muito particular e comer presas específicas. Como o seu foco é tão limitado, são profissionais a explorar o seu habitat, mas são terríveis a adaptarem-se às mudanças, diz Savoca. À medida que os seus ambientes mudam ou sua principal fonte de alimento se esgota, ficam em circunstâncias desconhecidas, onde lutam para se adaptar.

Depois, temos os generalistas – o bacalhau e o linguado do Atlântico, por exemplo – que “se adaptam a tudo, mas que não controlam nada”, diz Savoca. São capazes de prosperar em diversos ambientes diferentes e comem uma dieta variada. Apesar dos generalistas não dominarem o que os rodeia, como acontece com os predadores de topo, conseguem adaptar-se quando esse ambiente se torna imprevisível.

Mas as vantagens só vão até certo ponto.

Campanhas de extermínio, como os séculos de pesca de bacalhau ou a caça à baleia no Atlântico Norte, afetam igualmente as espécies generalistas e especialistas. E essa “matança de corte e queima”, diz Savoca, cria efeitos de onda em ecossistemas e cadeias alimentares inteiras.

“Nós explorámos 95% das baleias em menos de 100 anos, sendo a perda mais rápida de biomassa da história”, diz Savoca. "Os humanos são máquinas de matar tão eficientes que somos capazes de remover espécies inteiras do nosso planeta em menos de um século."

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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