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Dispositivo Portátil de Testes ADN Consegue Identificar Barbatanas de Tubarão Ilegais

O dispositivo, que tem sido usado para detetar o vírus Ébola e perfilar tumores geneticamente, está agora a ser aplicado na luta contra os crimes de vida selvagem.Wednesday, April 24, 2019

Por Joshua Rapp Learn
Assim que uma barbatana é removida do corpo de um tubarão, é muito difícil para as autoridades confirmar se esta pertence a uma espécie protegida. Mas testes rápidos de ADN, feitos no local, podem alterar essa situação.

Estávamos em abril de 2017, num enorme mercado de peixe a noroeste de Mumbai, na Índia. As barbatanas de tubarão, com destino à China, estavam empilhadas sobre as mesas com uma boa dose de sangue por todo o lado. Todos os anos morrem dezenas de milhões de tubarões devido ao comércio das suas barbatanas, destinadas principalmente a sopa de barbatana de tubarão, e um quarto dos tubarões do planeta, incluindo raias e quimeras (um peixe cartilaginoso também conhecido por tubarão-fantasma) são espécies consideradas ameaçadas. O comércio internacional é proibido em muitas espécies, mas aplicar a lei é uma tarefa quase impossível, mesmo para especialistas como Shaili Johri, investigadora de pós-doutoramento em biologia na Universidade Estadual de San Diego, que não consegue distinguir a que espécie pertencem as barbatanas depois de terem sido separadas dos corpos.

As amostras podiam ser enviadas para laboratório, para se fazerem testes de ADN, mas são 8 horas de caminho, e as análises demoram um dia inteiro a processar. Contudo, Johri tinha um truque futurista na manga – um dispositivo portátil, que parecia ter saído do Star Trek, capaz de dizer a que espécie pertence uma parte do corpo, numa fração de tempo, usando apenas uma pequena amostra de tecido. A sequenciação de genes efetuada pelo dispositivo MinION, que Johri estava a testar no mercado de peixe, é uma nova ferramenta promissora para ajudar a combater o comércio ilegal de barbatanas de tubarão.

Johri e Elizabeth Dinsdale, professora de biologia no estado de San Diego, são coautoras de um estudo publicado recentemente na revista Scientific Reports, que detalha a primeira utilização do dispositivo para fins de conservação da vida selvagem. O aparelho, do tamanho de um smartphone, anunciado em 2012 e lançado em 2015, é fabricado pela Oxford Nanopore Technologies, sedeada no Reino Unido. O MinION tem sido utilizado na deteção do vírus Ébola, na África Ocidental, usado para traçar o perfil genético de tumores, e na rápida identificação da origem de um surto de salmonela, entre outros. É claro que também tem potencial para ajudar na luta contra os crimes de vida selvagem.

Hollie Booth, conselheira sobre tubarões e raias na organização sem fins lucrativos Wildlife Conservation Society, não participou na investigação de Johri, mas está impressionada: “A tecnologia é muito fixe e tem muito potencial”, diz. “Basicamente, tem a capacidade de fornecer informação fidedigna sobre determinada espécie, que pode ser usada na monitorização do comércio e na aplicação da lei”, diz Hollie.

O MinION
Requer uma pequena amostra de tecido, para extrair ADN, e um computador portátil. Não é preciso ligação à internet, desde que os bancos de dados genéticos já tenham sido descarregados. Johri diz que normalmente costuma demorar 48 horas a obter uma boa parte da sequência de um genoma, mas o dispositivo consegue revelar uma espécie em cerca de três ou quatro horas – e às vezes em apenas alguns minutos.

O lado negativo – não é barato. O MinION em si custa € 1.000, incluindo dois cartuchos iniciais. Os cartuchos sequenciadores, que conseguem fazer 12 amostras de uma vez, custam mais € 500. Dá um valor aproximado de € 42 por amostra. Por outro lado, o método de análise de ADN convencional pode rondar os € 5 por amostra.

Mas o MinION revela mais informações, para além do tradicional código de barras, identificando uma espécie através de um pequeno fragmento padronizado de ADN, e consegue sequenciar grande parte do genoma de forma mais barata, quando comparado com empresas como a Illumina, que atualmente fazem toda a sequenciação em laboratório. Para além disso, a Oxford Nanopore introduziu recentemente no mercado um cartucho mais barato, com uma capacidade de sequenciação mais baixa, por € 100.

RASTREAR A FONTE DO CONTRABANDO
Hollie diz que o MinION tem um potencial enorme, não só a controlar o contrabando de vida selvagem nas fronteiras, como nos mercados ilegais de peixe.

E as possibilidades oferecidas por este dispositivo não se limitam apenas aos tubarões. Estas ferramentas podem ser usadas para identificar e rastrear marfim de elefante, escamas de pangolim e outros tipos de contrabando de vida selvagem, diz Johri.

ADN retirado de marfim de elefante, apreendido pelas autoridades, ajudou a identificar pontos críticos de caça ilegal, contribuindo na luta contra essas atividades, mas as análises de ADN são geralmente feitas nos EUA.

“O MinION pode mudar o paradigma, pode ser usado localmente pelas autoridades de vida selvagem”, escreve Johri por email. “Isso vai acelerar a identificação e resolução de marfim contrabandeado... e permitir a aplicação da lei de forma expedita.”

Os criadores do MinION também ganharam um prémio em 2016, atribuído pela Wildlife Crime Tech Challenge, uma competição global que premeia inovações científicas e tecnológicas focadas em questões relacionadas com o tráfico de vida selvagem, patrocinada em parte pela National Geographic. No seu discurso de agradecimento, os criadores disseram: “Um teste rápido de ADN, que pode ser feito num mercado, num posto alfandegário ou numa área protegida, pode permitir a prisão de criminosos e a confiscação de provas para processos criminais. Um teste deste género pode ser uma força dissuasora muito poderosa, reduzindo potencialmente a procura ilegal de produtos de vida selvagem.

Johri diz que as provas fornecidas pelo MinION ainda não foram usadas em processos legais, pois o dispositivo é demasiado recente, mas é apenas uma questão de tempo para que isso aconteça, porque a sua capacidade de sequenciação oferece níveis de precisão extraordinários.

“Temos de o encarar como uma ferramenta integrada em esforços mais amplos, que vai fortalecer a capacidade de monitorização, de forma generalizada, de muitas espécies”, diz Hollie.

NOVA SUBESPÉCIE
O MinION consegue sequenciar genomas completos, permitindo aos investigadores identificar novas espécies no terreno. Pode ser utilizado para fazer estimativas populacionais, que podem ser extrapoladas com a comparação de sequências de diferentes animais da mesma espécie, obtendo a diversidade genética. E também consegue identificar subespécies regionais, geneticamente distintas, que necessitem de proteção das convenções de vida selvagem.

Dinsdale diz que o dispositivo pode preencher uma lacuna enorme no nosso conhecimento – atualmente, em todo o mundo,  só foram sequenciados 5 genomas de tubarões. “Só agora é que começámos a explorar as maravilhas genéticas dos tubarões”, diz.

Tudo o que conseguirmos aprender com a sequenciação de genomas de tubarão pode ter implicações na saúde. Os dados genéticos obtidos pelo MinION podem ajudar-nos a perceber porque é que os tubarões não têm cancros, porque vivem tanto tempo e porque recuperam tão depressa de lesões, diz Johri.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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