Animais

Insetos Gigantes Alimentam-se de Tartarugas, Patos e Cobras

Predador aquático destemido emerge de um novo estudo que compila décadas de investigação.Tuesday, April 16, 2019

Por Joshua Rapp Learn
Um inseto de água gigante, Lethocerus deyrollei, ataca um peixe em Saitama, no Japão.

Os gigantescos insetos aquáticos são predadores vorazes que eliminam tudo, desde patos a cobras venenosas – de acordo com um novo estudo que reúne décadas de investigação sobre insetos aquáticos.

São predadores “pacientes”, diz Charles Swart, professor universitário na Trinity College, em Connecticut, que estudou insetos de água gigantes.

“Eles assumem posições de caça junto a plantas na água, e tudo o que passa à sua frente é capturado e potencialmente comido.”

A investigação, publicada em março na revista Entomological Science, observa de perto a ecologia de insetos aquáticos gigantes, que são encontrados em quase todo o mundo e incluem cerca de 150 espécies conhecidas. Os maiores, Lethocerus grandis e Lethocerus maximus, vivem na América do Sul e podem atingir tamanhos superiores a dez centímetros.

O autor do estudo, Shin-ya Ohba, professor-adjunto de entomologia na Universidade de Nagasaki, no Japão, é fascinado por estes insetos desde os sete anos de idade, altura em que viu um numa loja de animais.

"Os entomologistas japoneses gostam de insetos aquáticos gigantescos porque têm uma morfologia fixe", diz. As suas patas dianteiras, por exemplo, fazem lembrar o Popeye, o marinheiro, quando este fletia os braços.

CARDÁPIO ABRANGENTE

Para o seu estudo, Ohba leu trabalhos existentes sobre insetos aquáticos, muitos dos quais investigados por ele no Japão, onde as quatro espécies nativas – incluindo a bem estudada Kirkaldyia deyrolli – são as principais predadoras em campos de arroz e zonas húmidas.

Começou a emergir um padrão consistente: estes insetos parecem quase destemidos nos seus atos predatórios. Por exemplo, em 2011, Ohba relatou a primeira observação de um inseto gigante a atacar uma tartaruga.

Kirkaldyia deyrolli ataca uma tartaruga – uma observação rara.

Apesar do seu tamanho, os insetos acastanhados ficam bem camuflados entre as plantas sobre as quais se apoiam, ficando de cabeça para baixo, para poderem respirar através de um “respirador” que têm nas costas.

Assim que uma presa está ao seu alcance, os predadores encaixam rapidamente as suas pernas da frente na criatura, prendendo-a com as outras pernas. Depois, perfuram-na com uma probóscide parecida com uma adaga, injetando-lhe enzimas e possivelmente substâncias químicas anestésicas.

Swart, que não esteve envolvido no estudo, realça que não se sabe exatamente o que compõe as toxinas dos insetos aquáticos – e se são realmente venenosas.

“Desfazem o tecido e depois sugam-no novamente”, diz, acrescentando que em presas maiores este processo pode demorar algumas horas – parte das quais as vitimas ainda estão vivas.

Swart diz que a nova investigação é uma "revisão realmente abrangente de tudo o que sabe sobre estes seres".

MÃES INFANTICIDAS

Os insetos de água gigantes são incomuns entre as criaturas onde os machos assumem a responsabilidade de cuidar dos ovos.

Em algumas espécies, os machos protegem as ninhadas de ovos – até cinco de cada vez – protegendo-as de predadores como as formigas. Noutras, as fêmeas colam os seus ovos diretamente nas costas dos machos, e os machos transportam-nos até estes eclodirem, sob a forma de ninfas.

O estudo de Ohba também revela que em algumas espécies, como a K. deyrolli, as fêmeas estão tão empenhadas em encontrar um parceiro que comem os ovos de outras fêmeas.

“Ao destruir os ovos da sua competidora, a fêmea consegue ficar com o parceiro de acasalamento da rival, certificando-se de que o macho cuida dos seus ovos”, escreve Ohba.

Além disso, as ninfas de insetos aquáticos – cuja fase de vida dura até 60 dias – parecem ser tão destemidas quanto os adultos. Na maior parte das espécies, as ninfas eclodem numa época em que as presas menores são menos abundantes, forçando-as a perseguir presas aparentemente impossíveis, como girinos ou peixes pequenos.

De acordo com Ohba, as ninfas estão armadas com pernas dianteiras muito curvadas, algo que as ajuda a agarrar as presas com mais facilidade.

No entanto, tudo o que acontece na cadeia alimentar tem repercussões, acrescenta Swart – os insetos aquáticos gigantes costumam ser vítimas de peixes maiores, patos e possivelmente guaxinins ou tartarugas. Algumas pessoas também os comem fritos ou cozidos, no sudeste da Ásia.

A IMPORTÂNCIA DOS INSETOS GIGANTES

Apesar dos insetos gigantes poderem parecer assustadores, o seu estatuto enquanto predadores de excelência significa que desempenham um papel fundamental na manutenção de ecossistemas saudáveis.

A poluição da água pode prejudicar as suas populações, e os seus predadores incluem espécies exóticas de sapos e lagostins.

Isso significa que os cientistas devem trabalhar para se certificar que esta espécie crucial tem um ambiente de água doce imaculado.

“É possível conservar ecossistemas na sua totalidade através da conservação de insetos de água gigantes.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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