O Comércio de Carapaças de Tartaruga é Maior do que se Suspeitava

Registos feitos desde meados do século XIX mostram que foram caçadas milhões de tartarugas. quarta-feira, 10 de abril de 2019

A carapaça de uma tartaruga-de-pente adulta consiste em cerca de uma dúzia de escamas sobrepostas, coloridas com listas douradas, castanhas, laranja e vermelhas. Há muito tempo que as tartarugas-de-pente são caçadas pelas suas carapaças – os antigos romanos, por exemplo, transformavam as suas escamas em pentes e anéis.

As escamas desta tartaruga ainda são atualmente esculpidas e polidas em objetos decorativos e utilitários – joalharia, bugigangas e óculos de sol. Mas a diferença é que hoje em dia é proibido matar tartarugas-de-pente. Tem sido assim desde 1977, altura em que a Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagem Ameaçadas de Extinção (CITES), órgão que regulamenta o comércio transfronteiriço de animais selvagens, atribuiu à tartaruga-de-pente o maior nível de proteção.

Enquanto isso, a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), que define o estatuto de conservação de animais e plantas, lista a tartaruga-de-pente como "espécie em perigo crítico".

As tartarugas-de-pente estão entre as tartarugas marinhas em menor número, com uma população estimada de menos de 25 mil fêmeas, que nidificam ao longo do seu raio de alcance nos trópicos. Embora as tartarugas-de-pente estejam amplamente distribuídas, as maiores concentrações de fêmeas em nidificação são encontradas na região das Caraíbas, representando entre 20% a 30% da população, de acordo com o Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA.

Esquerda: Apesar das tartarugas-de-pente estarem amplamente distribuídas, a UICN lista a espécie como estando em perigo crítico, com uma população estimada de menos de 25 mil fêmeas que nidificam ao longo do seu raio de alcance nos trópicos. Direita: Entre 1844 e 1992, foram caçadas 9 milhões de tartarugas-de-pente, afirmam os investigadores.
Fotografia de Britta Jaschinski

Agora, um novo estudo, publicado no dia 27 de março na Science Advances, pinta um cenário negro sobre o impacto histórico do comércio de tartarugas-de-pente.

De acordo com o artigo, que se baseou em dados dos oceanos Atlântico, Pacífico e Índico, foram capturadas, pelo valor das suas carapaças, quase nove milhões de tartarugas-de-pente, durante um período de 148 anos, de 1844 a 1992. Como as informações sobre tartarugas-de-pente nos oceanos Atlântico e Índico eram inconsistentes, os investigadores afirmam que a sua análise não representa provavelmente a magnitude total do comércio mundial desta espécie.

Os números, diz Emily Miller, investigadora-assistente no Monterey Bay Aquarium e autora principal do estudo, são "impressionantes".

David Godfrey, diretor executivo da Sea Turtle Conservancy, uma organização sem fins lucrativos da Flórida que se dedica a garantir a sobrevivência de tartarugas marinhas nas Caraíbas, no Atlântico e no Pacífico, diz: “Não foi demasiado chocante saber que os números eram tão elevados, conhecemos a seriedade do declínio das populações”. Godfrey diz que o estudo ajuda a ter uma noção do tamanho histórico da população de tartarugas e que as novas informações poderão ajudar os conservacionistas a desenvolver planos de recuperação para a espécie. "É muito difícil obter dados históricos sobre a abundância destes animais", diz.

Num relatório de 2008 da UICN, onde foram incluídos estudos feitos em 1987 e 1989, estimava-se que cerca de 1,4 milhões desses animais tinham sido retirados da natureza, desde 1950 a 1992. O novo estudo amplia a linha temporal até há 106 anos atrás, com base em dados comerciais obtidos a partir de arquivos alfandegários japoneses por Yoshikazu Uni, professor na Universidade de Agricultura de Tóquio, em Abashiri, no Japão.

De acordo com Miller, as avaliações anteriores não consideraram as diferentes idades e tamanhos das tartarugas, assumindo que todas as tartarugas comercializadas eram adultas. Esta suposição distorceu as estimativas para quantidades menores, porque os estudos usaram pesos de embarque determinados a partir de registos de importação, para calcular o número de tartarugas adultas.

No início, quando as tartarugas eram mais abundantes, diz Miller, é provável que os alvos mais fáceis fossem os primeiros a ser apanhados – neste caso, fêmeas adultas a nidificar. Mas, como as tartarugas adultas se tornaram cada vez mais difíceis de encontrar, os jovens adultos mais pequenos e as tartarugas mais novas passaram a ser os alvos. Tartarugas mais pequenas pesam menos, portanto, os carregamentos com idades e tamanhos misturados contêm mais indivíduos.

Esta teoria de “pesca na teia alimentar” foi corroborada pelas análises da equipa feitas a apreensões de carregamentos recentes, compostos maioritariamente por tartarugas mais jovens, indicando que os pescadores da atualidade estão de facto a perseguir animais mais pequenos.

PADRÕES DE COMÉRCIO
Os investigadores descobriram que a exploração mais intensa de tartarugas-de-pente – três quartos de todo o comércio feito desde 1844 – ocorreu entre 1970 e 1985, com exportações da Indonésia, Malásia, Filipinas, Belize e Honduras, e todas aumentaram antes da interdição ao comércio feita pela CITES em 1977.

O artigo aponta a China como um dos grandes consumidores atuais de carapaças, negociadas ilegalmente na Indonésia, Malásia e Filipinas.

A Sea Turtle Conservancy afirma que o mercado negro do Japão também constitui uma ameaça à sobrevivência da espécie. Há mais de 300 anos que as carapaças de tartaruga-de-pente são muito populares no Japão, e muitas mulheres usam-nas nos seus trajes de casamento.

De acordo com a UICN, as tartarugas-de-pente também estão em risco devido à perda de habitat, com o desenvolvimento residencial e comercial a invadir os terrenos de nidificação. Outras ameaças incluem a extração de petróleo e gás, pesca, poluição, acidez e aumento da temperatura dos oceanos associado às alterações climáticas, degradando os habitats de corais das tartarugas. As tartarugas marinhas são importantes no oceano porque ajudam a manter a saúde dos recifes de coral e das ervas marinhas. Segundo o estudo, o declínio da população de tartarugas marinhas alterou provavelmente a dinâmica dos ecossistemas marinhos.

Os investigadores também repararam numa ligação entre os padrões comerciais e as tendências de pesca ilegal, não declarada e não regulamentada. Mapearam áreas com os níveis mais altos de exportação de carapaças e, diz Miller, descobriram que essas áreas “encaixam nos países que têm os níveis mais altos de pesca ilegal”. Seis países – Indonésia, Tailândia, Índia, Filipinas, Malásia e Vietname – tiveram uma  correlação direta entre as exportações históricas de tartarugas, até 1844, e a quantidade de pesca ilegal, com a Indonésia no topo de ambas as listas.

Miller diz que é provável que as tartarugas-de-pente sejam alvo de pescarias artesanais de pequenas dimensões, com ligações a redes internacionais, e que também sejam capturadas enquanto efeito colateral, por pescadores que procuram outras espécies. “As fortes ligações entre a pesca e o tráfico ilegal de vida selvagem marinha sublinham a necessidade de monitorização e gestão, não só da pesca costeira de pequenas dimensões, como das frotas comerciais em alto mar”, diz o estudo.

Miller acrescenta que os consumidores também podem ajudar, comprando marisco de fontes sustentáveis e evitando vendedores que estejam potencialmente envolvidos nas práticas ilegais de pesca que ameaçam as tartarugas-de-pente.

Kyle Van Houtan, diretor de ciência no Monterey Bay Aquarium e um dos autores do estudo, espera que as descobertas da equipa, relativamente à magnitude do comércio de tartarugas-de-pente, traga para a ribalta uma das espécies de tartarugas marinhas mais ameaçadas da atualidade.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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