Animais

Aranha Mais Rápida que um Foguetão

Segundo um novo estudo, as aranhas que tecem teias triangulares acumulam quantidades impressionantes de energia nas suas teias, uma capacidade única no reino animal. Monday, May 20, 2019

Por Kenrick Vezina
Uma aranha de teias triangulares, do género Hyptiotes, aguarda as suas vitimas numa teia acabada de fazer.

Para a maioria das pessoas, uma teia de aranha é apenas uma rede de seda pegajosa – passiva, ainda que construída de forma exemplar.

Mas existe um tipo de aracnídeo que leva as suas teias a outro nível, construindo engenhos carregados de tensão que nada ficam a dever aos dos engenheiros medievais. Falamos das aranhas que tecem em triângulos, do género Hyptiotes, encontradas nos Estados Unidos e em muitas outras partes do mundo.

Depois de construir uma teia em forma de triângulo, a aranha prende-se a um galho com seda do seu abdómen e puxa uma linha de ancoragem central, esticando a estrutura cada vez mais.

Está a carregar a teia com energia potencial, como a corda de uma besta, mas uma besta onde o seu corpo é o mecanismo de libertação que mantém todo o sistema esticado – até ao preciso momento de disparar.

Numa experiência feita em laboratório, a Hyptiotes cavatus mantém a sua teia esticada, com a linha de ancoragem à esquerda e a linha de armadilha à direita.

Quando um inseto colide com a teia, a aranha solta a linha de ancoragem e relaxa o abdómen, catapultando a teia (e ela própria) para a frente, capturando o inseto em seda.

O efeito é "como uma arma de rede", diz Daniel Maksuta, estudante de doutoramento na Universidade de Akron, no Ohio, e coautor de um novo estudo sobre esta aranha. Às vezes, a aranha até "recarrega" e "dispara" a teia algumas vezes para garantir que a sua presa está incapacitada, diz.

Agora, um novo estudo, que recorreu a câmaras de alta velocidade, revela que estas teias armazenam e libertam quantidades impressionantes de energia.

O efeito de fisga da Hyptiotes cavatus consegue atingir acelerações superiores a 770 metros por segundo ao quadrado, ou cerca de 26 vezes a aceleração máxima de um vaivém espacial da NASA.

Os autores do estudo debatem se no reino animal este é o único exemplo conhecido de um sistema de amplificação de potência externo – onde é utilizado um objeto exterior para acumular e multiplicar energia que é depois completamente libertada de uma só vez.

Aranhas Velozes
Para este novo trabalho, a líder do estudo, Sarah Han, estudante de doutoramento na Universidade de Akron, e os seus colegas capturaram aranhas Hyptiotes cavatus selvagens e criaram-nas dentro de portas.

Neste ambiente, as aranhas constroem as teias tal como o fazem na natureza, e a equipa registou a forma como estas interagem com as suas presas.

Imagens em vídeo revelaram que cada vez que uma aranha contrai a sua teia, é como girar a manivela de uma catapulta para a colocar sob tensão. Um braço oscilante só consegue gerar uma determinada força com uma única contração, mas a elasticidade da teia permite armazenar a força de muitas contrações e libertá-la de uma só vez – essa é a amplificação de potência.

A equipa também criou modelos computadorizados de teias e fez simulações a comparar uma aranha a usar a amplificação de potência da teia; a saltar só com o poder dos seus músculos; e a usar a sua energia interna como uma pulga aos saltos.

De acordo com os resultados dos modelos, a energia aumentada pela teia sob tensão é o que permite à aranha capturar as suas presas.

Esta estratégia também é melhor para as aranhas: nas observações de laboratório, as aranhas que não libertavam as suas teias não conseguiam capturar presas, de acordo com o estudo publicado no dia 13 de maio na revista Proceedings of the National Academy of Sciences. Mas se os aracnídeos usarem as suas teias adequadamente, têm uma taxa de sucesso de aproximadamente 70%.

Desvendar os Mistérios da Seda
Existem outros invertebrados que produzem seda, como as larvas das traças, mas “não de uma forma tão difundida e funcionalmente diversa como nas aranhas”, explica Paul Selden, paleontologista aracnólogo na Universidade do Kansas.

Existem quase tantas formas de utilização da seda como existem espécies de aranhas (mais de 45.000), e mesmo entre as aranhas-bolas que atiram seda, as sorrateiras aranhas Ctenizidae e as aranhas bebé que voam através de electroestática, as Hyptiotes conseguem destacar-se.

“Não consigo pensar numa forma de evolução adicional para este sistema de captura usado pelas aranhas, não existe nada comparável noutras espécies”, diz Selden.

Ainda existem muitas questões pertinentes. Por exemplo, quando as Hyptiotes estão a segurar e a esticar as suas teias, os seus joelhos parecem manter-se dobrados, algo que para a maioria dos animais seria extremamente cansativo.

“Como o conseguem fazer?” Sarah Han planeia descobrir.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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