Animais

Baleias e Golfinhos Militares: Quem os Usa e Para Quê?

Apesar de toda a tecnologia de ponta, nada bate a capacidade dos mamíferos marinhos em encontrar coisas no oceano. Segunda-feira, 13 Maio

Por Jane J. Lee

Em abril, quando uma baleia-branca se aproximou de barcos de pesca e começou a puxar cordas, perto de uma pequena cidade norueguesa, houve quem achasse aquele comportamento suspeito. De acordo com o jornal The Guardian, a baleia tinha um arnês que parecia poder transportar uma câmara, e no interior do suporte dizia “Equipamento de São Petersburgo”.

Especialistas marinhos sugeriram que a baleia fazia parte de um programa militar russo que treina cetáceos para operações militares. Pode parecer estranho, mas não é inédito.

Em 2017, a televisão estatal russa informou que o país estava a testar o uso de baleias-brancas, golfinhos roazes-corvineiros e várias espécies de focas para proteger as entradas das suas bases navais, auxiliar mergulhadores e possivelmente matar estranhos que tentem entrar no seu território. No entanto, quando descobriram que as baleias adoeciam depois de nadarem durante longos períodos de tempo em águas polares geladas, retiraram as baleias do programa.

Em 2014, de acordo com as notícias avançadas pela CNN, quando a Rússia invadiu a Crimeia também se apoderou da unidade militar ucraniana que incluía golfinhos. Os "golfinhos de combate" ucranianos, com base em Sebastopol, foram treinados para localizar e identificar minas submarinas ou nadadores indesejados que tentam aceder a zonas interditas, diz a agência de notícias russa RIA Novosti.

A utilização de mamíferos marinhos para fins militares não é exclusiva da Rússia – a Marinha dos Estados Unidos tem um programa semelhante desde a década de 1960. A capacidade desses animais em detetar e encontrar alvos a grandes profundidades ou em águas turvas é algo que a tecnologia ainda não consegue replicar, mas que os militares consideram muito valiosa.

A Marinha dos Estados Unidos treina os seus mamíferos marinhos – incluindo leões-marinhos-da-califórnia e golfinhos roazes-corvineiros – para encontrar e recuperar equipamentos perdidos no mar e identificar intrusos em áreas restritas. Os golfinhos também são usados para detetar minas enterradas no fundo do mar ou ancoradas debaixo de água.

NADA BATE A NATUREZA

“Os golfinhos são melhores do que qualquer máquina a detetar minas”, diz Paul Nachtigall, chefe do programa de investigação de mamíferos marinhos da Universidade do Havai, em Kane'ohe Bay. E também detetam minas muito mais depressa do que uma máquina.

Os golfinhos conseguem ser particularmente eficazes junto à costa, onde o surf e o tráfego de navios gera muito barulho, diz Nachtigall. Os sistemas mecânicos podem ficar confusos com tantos sinais concorrentes, mas os golfinhos não.

Isto acontece porque o sonar dos golfinhos é muito apurado. Os golfinhos e os seus parentes, como as orcas, enviam uma série de sons que fazem ricochete nos objetos e nos ambientes circundantes. Os mamíferos captam os ecos de retorno e formam uma imagem acústica do seu ambiente, uma habilidade conhecida por ecolocalização.

Experiências realizadas por Nachtigall com um golfinho chamado BJ, em meados da década de 1990, demonstraram bem esta capacidade sensitiva. Nachtigall pediu a BJ para distinguir entre cilindros de metal feitos de aço inoxidável, latão e alumínio. Mesmo enterrando os objetos de 10 centímetros de comprimento debaixo de mais de meio metro de lama, BJ passou nos testes com distinção.

Nachtigall afirma que os investigadores não sabem como é que os golfinhos fazem isto. Mas é um tópico que cativa a atenção de militares e de cientistas há várias décadas.

FORA DO LUGAR

Os leões-marinhos, apesar de não possuírem capacidades de sonar, têm uma visão excelente. “São realmente bons a encontrar coisas fora do lugar, como equipamento perdido”, diz Nachtigall.

A marinha dos EUA usa-os para encontrar e recuperar munições de teste desarmadas, como minas de treino. Os tratadores colocam um sistema de fixação que é transportado pelos leões-marinhos na boca e enviam-nos para o mar. Assim que um destes mamíferos encontra o seu alvo prende-lhe o dispositivo de fixação e os tratadores, num barco à superfície, conseguem puxar o objeto.

Em 2011, numa demonstração feita à comunicação social, na Baía de San Diego, na Califórnia, os militares colocaram um antigo mergulhador da Marinha dos Estados Unidos a tentar infiltrar-se no porto com uma mina desarmada. Depois, enviaram os golfinhos e os leões-marinhos para patrulhar a área. Nas cinco tentativas de infiltração, tanto os golfinhos como os leões-marinhos conseguiram apanhar o mergulhador. Um dos leões-marinhos até conseguiu prender um sistema de fixação à perna do mergulhador, e os tratadores puxaram-no para a superfície como se fosse um peixe.

Tanto os leões-marinhos-da-califórnia como os golfinhos roazes-corvineiros são bastante resistentes, inteligentes e fáceis de treinar, diz Nachtigall. Os leões-marinhos também têm a vantagem de ser anfíbios. É por isso que a Marinha dos EUA os prefere em detrimento de outros mamíferos marinhos, como as falsas-orcas ou as baleias-brancas, que também foram observadas.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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