Animais

Mais de 100 Leões Negligenciados Descobertos em Cativeiro Sul-Africano

Os animais doentes estavam a ser criados, surpreendentemente, por um membro de uma organização que defende cuidados responsáveis para os leões.quinta-feira, 16 de maio de 2019

Por Rachel Fobar
Dos 108 leões mantidos em Pienika Farm, uma instalação de reprodução em cativeiro na África do Sul, 27 foram encontrados com sarna, uma doença de pele causada por ácaros parasitas. A situação foi tão grave que os leões perderam o pelo.

Os sul-africanos afirmam que este é um dos casos mais chocantes de negligência animal que alguma vez testemunharam – mais de 100 leões e outros animais foram encontrados doentes, em espaços sobrelotados e, em alguns casos, quase a morrer. Tudo isto acontece numa instalação de reprodução em cativeiro, na província Noroeste da África do Sul.

A situação foi tornada pública depois de um informador anónimo ter entrado em contacto com um jornalista que depois contactou o Conselho Nacional de Sociedades para a Prevenção da Crueldade contra os Animais (NSPCA), que é responsável pelo cumprimento da legislação e do bem-estar animal na África do Sul.

Quando os inspetores da NSPCA visitaram as instalações, na Pienika Farm, encontraram 27 leões com sarna, uma doença de pele causada por ácaros parasitas. O seu estado era tão grave que os leões tinham perdido quase todo o pelo. Os inspetores relataram que os animais estavam encarcerados em recintos imundos e superlotados, com mais de 30 animais mantidos em espaços destinados para dois. Pelo menos três crias sofriam de uma condição neurológica chamada meningoencefalite, uma inflamação no cérebro que as impede de andar. E foi necessária a eutanásia de uma das crias, feita por um veterinário nas instalações.

“É difícil de descrever, quando sabemos que temos o rei da selva nestas condições ficamos com uma sensação de vazio”, diz Douglas Wolhuter, gerente da unidade de proteção de vida selvagem da NSPCA que inspecionou as instalações. "É algo que nos destrói a alma."

Diversos relatórios, feitos sobre a indústria dos leões em cativeiro na África do Sul, revelam que os animais são frequentemente mantidos em condições inaceitáveis.

A Pienika Farm é propriedade de Jan Steinman, que está listado online como sendo membro do conselho da Associação Sul-Africana de Predadores (SAPA). Esta organização promove a criação em cativeiro e afirma que a caça é “legítima e ecologicamente responsável”. Mas a associação também exige que os seus membros “mantenham altos padrões de ética”. A NSPCA acusou Steinman de violar a Lei de Proteção dos Animais da África do Sul de 1962, podendo agora incorrer no pagamento de uma multa de até € 2.400, ou um ano de prisão por cada acusação que termine em condenação.

Steinman não respondeu aos pedidos para comentar.

Deon Swart, o CEO da SAPA, nega que Steinman faça parte do conselho de liderança. “Ele é apenas um membro normal da organização”, diz.

No dia 8 de maio, através de um comunicado de imprensa, a SAPA anunciou que tinha “efetuado uma investigação pormenorizada” e que iria “tomar ações disciplinares institucionais contra o Sr. Steinman”.

No seu website, a SAPA enumera normas e padrões para o bem-estar dos animais, incluindo que “nenhum animal deve sofrer indevidamente de fome, sede, desconforto, doença ou dor”. Audrey Delsink, diretora do departamento de vida selvagem na Humane Society International-Africa, diz que a palavra indevidamente é uma falha no sistema – "uma pequena rota de fuga" para os criadores em relação ao que constitui sofrimento.

Indevidamente é uma terminologia muito vaga e cinzenta”, diz Delsink. “E não pode ser cinzenta, tem de ser preta ou branca. Não podemos ter zonas cinzentas quando estamos a lidar com animais e podemos comprometer a sua saúde e segurança.”

O documentário de 2015, Leões de Sangue, estimava que entre 6000 e 8000 predadores – a maioria leões – estavam a ser mantidos em instalações de reprodução em cativeiro na África do Sul. Ian Michler, protagonista e narrador do filme, que trabalhou como operador de safaris, jornalista e defensor da conservação durante mais de 25 anos, estima que o número atual possa ascender aos 10.000.

Nesses locais, os turistas pagam para acariciar, alimentar e tirar selfies com as crias de leões criadas em cativeiro – e até caminhar ao lado de animais adultos. No final das suas vidas, diz Michler, a maioria dos leões em cativeiro é baleada por caçadores de troféus – vindos geralmente dos Estados Unidos – em caças "contidas", que são mantidas em áreas cercadas, das quais os leões não conseguem escapar. Os caçadores de troféus guardam as peles e as cabeças, mas os ossos e as outras partes do corpo são exportados para a Ásia, onde são usados na medicina tradicional. A África do Sul estabelece uma quota anual para o número de esqueletos de leões que podem ser exportados legalmente.

Michler diz que os leões de Pienika Farm estavam provavelmente a ser criados para o comércio de ossos de leão, que serve como alternativa ao comércio de ossos de tigre para a medicina tradicional na Ásia. Os animais usados para o turismo ou para a caça de troféus precisam de parecer saudáveis, diz Michler, mas é comum os leões destinados ao comércio de ossos serem negligenciados. "Se estivermos a fazer criação de leões para o comércio de ossos, não nos importamos com a sua aparência", diz. "Porque ao final do dia, eles vão apenas acabar num saco, um saco de ossos que vai para a Ásia".

Michler duvida que este caso resulte em alterações substanciais para os predadores criados em cativeiro na África do Sul. Ele acredita que os acusados irão simplesmente contratar um advogado poderoso, arrastar o caso e no final não acontece nada.

"Se os leões tivessem uma voz, é claro que iriam rugir para que os tribunais prestassem atenção e tomassem decisões – para dizer que precisamos de padrões justos e de primeiro mundo para o bem-estar da nossa espécie", diz. "Mas não estou a prever um resultado que acabe com as práticas de criação, ou com o comércio de ossos de leão."

Por enquanto, os leões de Pienika estão a ser mantidos nas mesmas instalações. O seu destino depende dos resultados da investigação e do subsequente processo judicial. Delsink, da Humane Society, diz que as coisas são “muito incertas”. Ela diz que se os leões sobreviverem, não podem ser libertados na natureza porque viveram sempre em cativeiro, e na África do Sul não existem santuários em condições para acolher tantos animais.

“O futuro destes felinos é sombrio”, diz Delsink, “porque as opções disponíveis são muito escassas.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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