Animais

Pinguim e Lobos-Marinhos de Cores Pálidas Raros Avistados Numa Ilha Remota

O pinguim-rei e os lobos-marinhos avistados nas Ilhas Geórgia do Sul têm mutações que afetam a forma como os seus corpos produzem diversas pigmentações.Tuesday, May 7, 2019

Por Douglas Main
Nesta fotografia, tirada na Baía de St. Andrews, nas Ilhas Geórgia do Sul, em março de 2019, um pinguim-rei de cor estranha destaca-se dos restantes.

As remotas Ilhas Geórgia do Sul, a pouco mais de 1930 km a este da ponta austral da América do Sul, são o lar sazonal de algumas dezenas de humanos – e de largos milhares de focas, pinguins e outras criaturas.

Numa expedição recente da National Geographic à ilha, o fotógrafo Jeff Mauritzen descobriu alguns animais com plumagens fora do normal: Um pinguim-rei e dois lobos-marinhos com mutações genéticas raras que lhes conferem uma aparência pálida.

O impressionante pinguim foi avistado numa manhã chuvosa, e por sorte as nuvens abriram durante uns 10 minutos, dando tempo suficiente para obter algumas fotografias, diz Mauritzen.

Tal como acontece com outras aves, os pinguins-rei podem ter várias mutações que afetam a forma como os seus corpos produzem pigmentos. A mutação mais extrema, o albinismo, resulta na ausência total de pigmentação, corpos completamente brancos e problemas de visão.

CRIATURAS ESTRANHAS
A maior parte das mutações é mais ligeira. Neste caso, o pinguim tem quase de certeza a aberração “castanha”, provocada por uma mutação num gene recessivo envolvido na produção de eumelanina, o pigmento responsável pelas cores preta, cinzenta e castanha nas penas, diz Hein van Grouw, ornitólogo no Museu de História Natural em Tring, Inglaterra.

A mutação provoca uma oxidação completa no pigmento, tornando-o sensível à luz solar, branqueando de forma gradual a plumagem até que esta fica com uma cor semelhante a branco sujo.

Isso também explica a razão pela qual as restantes cores do pinguim-rei são pouco vibrantes. “Também podemos observar que as penas amarelas não são afetadas, pois a sua cor não deriva da melanina, mas sim de carotenoides, que são imunes à mutação castanha”, diz Júlia Finger, bióloga na Universidade do Vale do Rio dos Sinos, no Brasil.

O castanho é um dos tipos de mutação de cor mais comum entre os pinguins, e tem sido encontrado em várias espécies de pinguins, como os pinguins-gentoo, pinguins-de-magalhães e pinguins-de-adélia. Mas continua a ser uma mutação rara.

Esta mutação afeta o gene TYRP1, localizado no cromossoma Z, o equivalente ao cromossoma X humano. Portanto, os machos podem ser portadores da mutação sem o demonstrarem, explica van Grouw. “No entanto, metade das suas filhas serão castanhas e metade dos seus filhos também serão portadores (silenciosos)”, diz por email.

Uma cria de lobo-marinho de cores pálidas descansa numa praia, na Baía Right Whale, na Ilhas Geórgia do Sul. Este lobo-marinho sofre quase de certeza de leucismo, uma condição que afeta a capacidade do corpo em produzir pigmentos como a melanina.

LOBOS-MARINHOS PÁLIDOS
Por outro lado, os dois lobos-marinhos sofrem provavelmente de uma condição chamada leucismo. Com esta condição, o corpo não produz pigmentos escuros, chamados melanina, em quantidades suficientes, e ocasionalmente também não produz outros pigmentos.

Embora esta seja uma condição fora do vulgar em lobos-marinhos nas Ilhas Geórgia do Sul, fora da ilha costuma encontrar-se com uma prevalência de 1 em 400, ou de 1 em 1500 – de acordo com um estudo de 2005, publicado na revista Polar Biology.

Este fator pode dever-se ao facto das populações de mamíferos marinhos ter sido excessivamente dizimada pela caça até ao início do século XX. Desde essa altura, estas populações têm sido capazes de recuperar, mas é provável que um individuo (ou dois) com leucismo tenha sobrevivido nas Ilhas Geórgia do Sul, contribuindo para a existência desse traço na região, um fenómeno chamado efeito fundador.

PROBABILIDADES DE SOBREVIVÊNCIA
Os investigadores afirmam que estas mutações de cor não têm normalmente um impacto mensurável no comportamento ou nas capacidades de sobrevivência.

Na realidade, tal como destacado por Mauritzen, o pinguim e os lobos-marinhos agiam normalmente, e não pareciam ser tratados de forma diferente pelos outros.

“Na minha opinião, a maior parte das mutações de cor não afeta muito a taxa de sobrevivência de um individuo, e muitos indivíduos de cores estranhas conseguem sobreviver durante muito tempo na natureza, acasalando com parceiros de cores normais”, diz van Grouw.

Júlia concorda, apesar de acrescentar que se essas mutações afetarem as capacidades de mimetismo de um animal – e a capacidade de se camuflar, útil para caçar ou evitar ser caçado – as suas probabilidades de sobrevivência diminuem.

“Mesmo assim, descobri que a maior parte das aves consegue lidar bem com as suas mutações de cor e são bem aceites entre os seus pares”, diz Júlia.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler