Animais

De Onde Vêm os Tubarões Bebés?

Se achava a estória da cegonha difícil de contar, espere até conhecer a dos tubarões. Com detalhes que parecem ter saído de um livro de Stephen King, o processo reprodutivo destes animais é dos mais fascinantes do reino animal.quinta-feira, 27 de junho de 2019

Por Luís Alves
Marcas de dentadas no dorso, como as que se vêem neste tubarão-azul fotografado nos Açores, são comuns em fêmeas durante a época de acasalamento.

Quando dois tubarões gostam muito um do outro…
À semelhança do que ocorre um pouco por todo o reino animal, cabe aos tubarões macho a tarefa de provar que são dignos de acasalar com as fêmeas. O processo, que varia de espécie para espécie, começa com uma corte em que os machos tentam impressionar as fêmeas a todo o custo – os enormes tubarões-frade realizam saltos acrobáticos, os machos de tubarão-branco realizam mergulhos sincronizados com as fêmeas e, os machos de tubarão-martelo realizam uma série de movimentos rápidos, numa espécie de flamenco subaquático.

Uma vez terminado o “namoro”, os tubarões têm um problema para resolver: contrariamente ao que acontece com a maioria dos peixes, os tubarões reproduzem-se através de fertilização interna. Este processo exige sincronismo de movimentos e posicionamento cuidadoso, uma coreografia particularmente difícil de executar debaixo de água. Não possuindo braços, os machos usam a boca para se agarrarem à fêmea, geralmente mordendo-a numa das barbatanas peitorais, mas a zona das brânquias ou o dorso também são opções. Este processo é violento e deixa marcas bastante visíveis nas fêmeas. Felizmente, para além de capacidades regenerativas dignas de um super-herói, as fêmeas têm alguns truques para suportarem a violência do acasalamento – as fêmeas de tubarão-azul, por exemplo, possuem uma pele que pode ser duas a três vezes mais grossa que a dos machos.

Geralmente, os tubarões acasalam lado-a-lado, mas ocasionalmente as fêmeas ficam por baixo dos machos, de barriga para cima. Surpreendentemente, os machos possuem não um, mas dois órgãos sexuais. Estes órgãos, chamados claspers, são modificações presentes nas suas barbatanas pélvicas e, em algumas espécies, quando erectos, têm protuberâncias semelhantes a espinhos, para garantir que não saem do lugar durante o acasalamento. Uma vez corretamente posicionado, o macho introduz um dos seus claspers na cloaca da fêmea, depositando o seu sémen. Cumprido o objetivo, o tubarão macho abandona a fêmea e é possível que nunca mais se tornem a cruzar – tanto quanto se sabe, os tubarões não formam casais para a vida.

Mãe, há só uma! Já pai…
A luta pelo acasalamento é feroz, com muitos machos a competirem pela oportunidade de transmitirem os seus genes. Em certas espécies as fêmeas podem acasalar com múltiplos machos e, à semelhança do que acontece com algumas ninhadas de gatos, nem todas as crias geradas provêm do mesmo pai.

Como a gestação é um processo extremamente exigente, caso as condições para reprodução não sejam as ideais, as fêmeas podem guardar o sémen dos machos para uma fertilização futura – existem vários casos conhecidos de fêmeas em cativeiro que deram à luz crias provenientes de acasalamentos ocorridos vários anos antes. Mais impressionante ainda é o facto de, em situações extremas, algumas fêmeas de tubarão conseguirem gerar crias sem que os ovos tenham sido fertilizados por um macho! Tubarão-martelo e tubarão-zebra são duas das poucas espécies em que este “milagre da Natureza” já foi confirmado, mas é possível que todas as espécies de tubarão possuam esta capacidade.

O período de gestação dura em média 9-12 meses, mas existem espécies onde o processo é bastante mais demorado. Os cientistas acreditam que a gestação do tubarão-cobra (Chlamydoselachus anguineus), visitante ocasional das águas portuguesas, é a mais longa de entre todos os vertebrados, chegando a ultrapassar os 3 anos e meio!

Não há duas sem três!
Com mais de 500 espécies de tubarão em existência, não é estranho que nem todas se reproduzam da mesma forma. São três os métodos tradicionais de reprodução que podemos observar no reino animal – oviparidade, viviparidade e ovoviviparidade – e para cada um há exemplos de espécies de tubarão. O número de crias também varia imenso – as fêmeas de anequim raramente dão à luz mais que duas crias, já as de tubarão-azul podem ultrapassar uma centena.

Aproximadamente um terço das espécies depositam ovos, sendo por isso designadas de ovíparas. Estes ovos, também conhecidos por bolsas de sereia, têm na sua maioria uma cor acastanhada e possuem fendas laterais que permitem a entrada e saída de água, para renovação de oxigénio. Escondidos pelas fêmeas entre rochas e algas, começam por ser bastante maleáveis, mas vão endurecendo para proteger a cria no seu interior. Terminado o desenvolvimento, o pequeno tubarão abre caminho à dentada e, uma vez vazios, os ovos tendem a ser levados pelas correntes até à costa – é provável que já tenham passado por muitos na praia, confundindo-os com algas secas.

Da esquerda para a direita, um ovo de Pata-roxa (S. canicula), de Leitão (G. melastomus) e de Pata-roxa-gata (S. stellaris). As três espécies podem ser encontradas em águas portuguesas e os ovos vazios dão frequentemente à costa.

Em espécies vivíparas, à semelhança do que acontece nos seres humanos, os embriões crescem dentro do corpo da progenitora, recebendo nutrientes através de uma placenta até ao nascimento. Esta é considerada a técnica de reprodução mais avançada e geralmente ocorre em espécies com dimensões consideráveis como o tubarão-azul ou tubarão-martelo.

Finalmente, surge uma estratégia que de certo modo combina as duas mencionadas anteriormente e é por isso apropriadamente chamada ovoviviparidade. Nas espécies ovovivíparas, os embriões também se desenvolvem dentro de ovos, mas estes maturam e acabam por eclodir ainda dentro da fêmea. Depois da eclosão, os fetos terminam o crescimento no útero, alimentando-se dos restos dos ovos, de fluidos uterinos e, em alguns casos, comendo os irmãos mais pequenos. Conhecem-se mais de 10 espécies de tubarão onde se verifica canibalismo intrauterino, mas o mais famoso acontece com os tubarões-touro – as fêmeas produzem muitos ovos em cada útero, mas regra geral só nasce uma cria de cada. Estratégias como esta parecem cruéis, mas acabam por ser uma maneira eficaz de garantir que as crias que nascem têm nutrientes e mobilidade para sobreviverem sozinhas após o nascimento. Prova disso é o facto de as crias desta espécie nascerem com cerca de um metro de comprimento, maiores que qualquer outra (incluindo as de tubarão-baleia).

Luís Alves é o atual presidente da A.P.E.C.E. (Associação Portuguesa para o Estudo e Conservação de Elasmobrânquios), doutorando do MARE e desenvolve o seu trabalho de investigação no grupo Lemos Lab do Instituto Politécnico de Leiria.

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