Animais

Olhos dos Cães Evoluíram Para Comunicar Connosco

Séculos de domesticação modificaram inadvertidamente e radicalmente a anatomia das sobrancelhas dos cães, tornando os seus focinhos facilmente legíveis para as pessoas.terça-feira, 25 de junho de 2019

Por Carrie Arnold
Um labrador preto levanta as sobrancelhas quando encontra o olhar do fotógrafo.

Existe uma razão pela qual usamos designações como “olhinhos de cão” para descrever as inocentes expressões caninas cheias de alma que conseguem demover até o mais frio dos humanos.

Isso não acontece por acaso, revela agora um novo estudo. Séculos de domesticação remodelaram radicalmente a anatomia das sobrancelhas dos cães, fazendo com que os seus focinhos – e emoções – sejam facilmente legíveis.

Quando os cães cruzam o seu olhar com o de uma pessoa, costumam levantar o músculo interior da sua sobrancelha, fazendo com que os seus olhos pareçam maiores e mais apelativos.

“Não existem provas de que os cães movam este músculo (da sobrancelha) intencionalmente, mas esse movimento exagerado é algo que para nós significa ‘cão’”, diz Juliane Kaminski, autora do estudo e psicóloga na Universidade de Portsmouth, no Reino Unido.

O movimento das sobrancelhas desempenha um papel muito importante na comunicação humana, diz Kaminski: “Eu estou a fazê-lo neste momento enquanto falo consigo, mesmo que você não me consiga ver.”

O estudo é o exemplo mais recente de como 20.000 anos de coabitação tornaram os animais de estimação caninos melhores intérpretes das emoções humanas – possivelmente mais do que qualquer outra espécie.

Levantar sobrancelhas
Nas suas investigações anteriores, Kaminiski descobriu que os cães são especialistas em compreensão gestual, superando até os primatas não humanos, como os chimpanzés.

Há vários anos, Kaminski começou a investigar o outro lado desta relação, observando a forma como as pessoas decifram o comportamento dos cães. Numa das suas experiências, publicada em 2013, Kaminski filmou cães num canil para ver se algum dos seus comportamentos estava ligado à rapidez com que eram adotados.

Entre todos os fatores examinados por Kaminski, só um sobressaía como relevante: o movimento das sobrancelhas dos cães para cima e para dentro.

“Inicialmente, os resultados foram muito surpreendentes. Não esperávamos que algo tão pequeno, como o movimento das sobrancelhas, tivesse um efeito tão grande”, diz Kaminski.

Mas existia outra questão pendente: saber se o movimento das sobrancelhas era exclusivo dos cães, ou se também poderia ser encontrado no seu antepassado, o lobo-cinzento.

No novo estudo, publicado no início de junho na Proceedings of the National Academy of Sciences, Kaminski e os seus colegas dissecaram e analisaram os músculos faciais de seis cães – incluindo um mestiço, um labrador, um sabujo, um husky siberiano, um chihuahua e um pastor alemão – bem como quatro lobos-cinzentos selvagens. Todos os animais tiveram morte natural e os seus corpos foram doados à ciência.

A equipa descobriu que o anguli oculi medialis, um músculo grande e proeminente responsável por levantar as sobrancelhas, estava presente em todas as seis espécies de cães – mas estava quase completamente ausente nos lobos.

Kaminski e os seus colegas também descobriram que o músculo de retração, anguli oculi lateralis, era mais pequeno e com variáveis de tamanho maiores nos lobos do que nos cães, sendo que a única exceção era o husky siberiano – uma raça de cão mais antiga e próxima dos lobos.

Este músculo, que percorre a orla exterior dos olhos, expõe mais as zonas brancas dos mesmos – fazendo com que os cães se assemelhem mais aos humanos.

"Quando se trata de mudanças na anatomia, as pequenas alterações podem ter impactos perceptíveis", diz Molly Selba, estudante de doutoramento na Universidade da Flórida que estuda a evolução e domesticação dos cães. "Os músculos das expressões faciais são relativamente pequenos, mas podem ter um grande impacto na forma como fazemos a leitura de um focinho", diz Selba, que não participou na investigação.

Vantagem evolucionária

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Brian Hare, antropólogo evolucionista na Universidade Duke, nos EUA, refere que anatomicamente os cães e os lobos são muito semelhantes – os músculos dos olhos são a exceção.

“Este novo estudo mostra que estas alterações morfológicas evoluíram com a interação entre cães e humanos ao longo dos últimos 20.000 anos”, diz Hare por email (Hare também não esteve envolvido no estudo).

“Esta evolução não terá certamente acontecido devido a uma seleção intencional, mas sim para dar uma vantagem aos cães nas suas interações com os humanos.”

Agora, Kaminski espera examinar uma variedade mais ampla de raças de cães, incluindo raças mais antigas e cães de rua, para entender com precisão como é que  estas mudanças musculares evoluíram.

Kaminski também quer aprofundar as suas investigações sobre a forma como reagimos aos olhos dos cães – e porque razão não lhes conseguimos resistir.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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