Animais

Animais que Fazem Casas Para Outras Espécies

Os elefantes, enquanto engenheiros de ecossistemas, deixam pegadas que se transformam em viveiros de rãs, e onde os sociáveis pássaros tecelão constroem “condomínios”.Thursday, July 4, 2019

Por Liz Langley
Pelo menos 20 espécies diferentes usam os ninhos de pica-pau como se fossem seus, fazendo destas aves uma espécie-chave no seu ecossistema.

Nada na natureza é desperdiçado – nem mesmo uma pegada.

As pegadas de elefantes-asiáticos são viveiros importantes para os ovos e girinos de rãs, sobretudo durante a estação de seca na Birmânia, afirma um estudo publicado na revista Mammalia.

Algumas das pegadas não são muito grandes, "talvez fiquem cheias com um copo de água", diz por email o coautor do estudo, David Bickford, biólogo da Universidade de LaVerne, na Califórnia. Mas, às vezes, as pegadas estão “muito próximas e em faixas, tornando-se assim mais atraentes para as fêmeas colocarem os ovos”.

Para além de agirem como zonas de reprodução, as poças nas pegadas dos elefantes também servem de refúgio para as rãs adultas, diz Bickford, e ajudam a unir habitats fragmentados de rãs, importante para manter a diversidade genética da população. O coautor deste trabalho, Thomas Rainwater, da Universidade de Clemson, salienta que as faixas são um bom habitat porque existem poucos predadores nas redondezas, se é que existem sequer.

Quando a água escasseia, fornecer poças para as rãs é apenas uma de muitas formas onde os elefantes atuam com engenheiros de ecossistemas. Os elefantes transformam florestas em pradarias (puxando árvores para comer as copas) e espalham sementes de árvores maiores que ajudam a remover dióxido de carbono da atmosfera, entre outras coisas – alguns estudos demonstram que, em áreas onde os elefantes mudam o ecossistema, a biodiversidade de espécies é maior.

Existem muitos animais que fornecem serviços essenciais na criação de habitats para outras espécies que não o conseguem fazer por si próprias. No mundo humano, algumas dessas casas seriam como arranha-céus ou condomínios de luxo. Eis alguns animais que oferecem inconscientemente habitações aos seus vizinhos.

Pica-pau
As cavidades de nidificação perfuradas em árvores, ou até mesmo em postes de utilidade pública, por esta ave laboriosa são usadas como abrigo por muitos outros pássaros e mamíferos que não conseguem fazer esse trabalho.

Em 2002, um estudo do Serviço Florestal dos EUA descobriu que, no noroeste do Pacífico são conhecidas pelo menos 20 espécies que usam locais de nidificação de pica-pau, incluindo grandes morcegos castanhos, algumas espécies de guaxinins e os esquilos-voadores do norte.

Graças aos abrigos que estas aves criam para outras espécies, “muitos pica-paus são considerados espécies-chave dentro da sua comunidade”, disse por email Walter Koenig, ornitólogo na Universidade Cornell. Uma espécie-chave é aquela que tem um impacto desproporcionalmente grande no seu habitat e preenche um nicho que une o ecossistema.

Tartaruga gopher
Outra espécie-chave é a tartaruga gopher da Flórida, do sul da Geórgia e do Alabama. As suas tocas são enormes – algumas com 7 metros pés de profundidade e 15 metros de comprimento, de acordo com o Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA. Estas tartarugas partilham as suas tocas – que mantêm a uma temperatura e humidade constantes, independentemente das condições acima do solo – com até 360 outras espécies, incluindo tatus, corujas-pigmeu, raposas, sapos e cobras.

Pássaro tecelão

Os ninhos de pássaros tecelões, como este, na Namíbia, são como condomínios. Estes ninhos albergam dezenas de famílias de pássaros tecelões, bem como aves de outras espécies.

De acordo com o Zoo de San Diego, estas aves minúsculas, da região de Calaári, na África meridional, constroem condomínios de aves em árvores para se afastarem dos predadores. Os ninhos, vistos do exterior, parecem uma casa na árvore, mas no seu interior podem estar até 100 famílias. Aves mais pequenas, como as Agapornis roseicollis e as Oenanthe familiaris, podem conviver lado a lado nesta mansão aviária, ao passo que os abutres, ou as águias, podem descansar no telhado.

Térmitas
Algumas térmitas constroem montes – arranha-céus de insetos com torres cónicas de até um metro de altura. Muitas vezes, estas estruturas enormes são partilhadas com outras espécies.

De acordo com um relatório de 2013 sobre montes de térmitas nas Ilhas Barrow, na costa da Austrália, os répteis em particular, incluindo cobras, lagartos e osgas, procuram abrigo nos montes de térmitas. Os montes também são boas incubadoras para os ovos de répteis.

As raposas-orelhas-de-morcego, como esta família no Botswuana, costumam usar antigos montes de térmitas como covis.

Marsupiais como o Planigale maculata, que parece um rato, e o bandicoot-dourado, que parece uma ratazana, também podem procurar abrigo nos montes.

Todas estas espécies são insetívoras e alimentam-se alegremente das criaturas que lhes fornecem abrigo.

J. Scott Turner, biólogo na Faculdade de Ciências Ambientais e Florestais da Universidade Estadual de Nova Iorque, diz por email que os lagartos Varanus, da África subsaariana, incubam os seus ovos em montes de térmitas. Na África do Sul, os escorpiões escavam debaixo dos montes, "presumivelmente à procura de benefícios térmicos".

Em ambos os casos, as térmitas protegem-se “isolando simplesmente o ninho com novas construções”.

Ser prestável não custa nada.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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