Animais

Os Escaravelhos Navegam Pelo Mundo de Forma Sofisticada

Cientistas descobriram outra das formas como estes mestres navegadores se orientam.Thursday, July 4, 2019

Por Jason Bittel
No laboratório, um escaravelho pausa para reparar na direção do vento e na localização do “sol” (um LED verde), em preparação para empurrar a sua bola de excrementos para um lugar seguro.

Na África do Sul, quando um búfalo-africano morre, os leões, as hienas e os cães-selvagens aparecem rapidamente para lutar pela sua carcaça. Mas o que a maioria das pessoas não sabe é que sempre que um destes búfalos defeca, acontece a mesma coisa – mas são escaravelhos que lutam pelos espólios.

Usando detetores de cheiro nas suas antenas, os escaravelhos concentram-se numa pilha de fezes e atacam-na em massa. Cada escaravelho apressa-se para arrancar um pedaço, para enterrar e devorar os excrementos antes que os outros escaravelhos consigam fazer o mesmo. Mas a forma como estas criaturas são capazes de navegar para longe da confusão, em linhas retas e eficientes, tem sido objeto de intenso estudo.

Em 2003, uma cientista chamada Marie Dacke descobriu que as espécies noturnas de escaravelhos, como o Scarabaeus zambesianus, conseguem navegar sob a luz polarizada da lua. Dez anos mais tarde, Marie descobriu que outra espécie, o Scarabaeus satyrus, usa a luz da Via Láctea quando a lua não está visível. Um ano depois, Marie revelou que as espécies diurnas, como o Scarabaeus lamarcki, usam o sol como estrela de navegação.

Agora, Marie descobriu outra ferramenta nas capacidades sensoriais dos escaravelhos.

De acordo com um estudo publicado na Proceedings of National Academy of Sciences, quando o sol está no seu ponto mais alto (e não pode ser utilizado para fins de orientação), os escaravelhos decidem seguir o vento.

Estas descobertas sugerem que os animais conseguem interpretar dois tipos de sinais diferentes e optam pelo melhor, dependendo das condições.

“Estes sistemas parecem ser extremamente flexíveis”, diz Marie. “Se tivermos em consideração que estamos perante cérebros do tamanho de uma semente de sésamo, é fascinante.”

Contra o vento
Para tentar descobrir como é que os escaravelhos conseguem navegar sem a bússola solar, Marie e os seus colegas precisavam de controlar as variáveis.

A equipa começou por construir cúpulas com 60 centímetros de largura que imitavam o habitat natural dos escaravelhos. Depois, realizaram uma série de experiências onde um LED ajustável simulava o sol. Também usaram ventiladores para criar diferentes velocidades e direções no fluxo do vento. Isto permitiu aos cientistas medir o desempenho dos escaravelhos sob uma variedade de condições e demonstrar que, quando o sol artificial estava no seu zénite, os escaravelhos optavam por empurrar as suas bolas de excrementos em direção ao vento – mesmo quando este mudava de direção.

"Os escaravelhos seguem o vento porque não têm outra fonte de orientação", diz Marie, especialista em neuroetologia – o estudo de como o sistema nervoso controla o comportamento. "Se mudarmos a direção do vento em 180 graus, os escaravelhos também mudam a sua direção em 180 graus".

Mas as coisas ficaram mais interessantes quando a equipa privou os escaravelhos de acederem a alguns dos seus sistemas sensoriais.

Numa das experiências, os cientistas removeram as pontas das antenas dos insetos, algo que se acredita ser usado para ajudar a detetar odores. Esses escaravelhos seguiam o vento da mesma forma, independentemente do sol estar no seu ponto mais elevado. Isto sugere que os escaravelhos sentem o vento ao invés de seguirem odores.

Mas os escaravelhos a quem foram removidas as antenas por completo, empurravam as suas bolas de excrementos em direções aleatórias, como se estivessem perdidos. Os animais não conseguiam sentir o vento e, como resultado, não se conseguiam orientar.

Dentro da mente de um escaravelho
Paul Graham, que estuda a navegação das formigas na Universidade de Sussex, no Reino Unido, diz que as conclusões do estudo são perfeitamente claras.

"Uma das belezas deste sistema de navegação é estarmos perante um comportamento fácil de interpretar; uma direção consistente mostra-nos claramente que os escaravelhos estão a usar o vento como um sinal direcional", diz Graham por email.

Para além disso, é importante realçar que os escaravelhos pareçam fundir dois tipos diferentes de informação – uma mecânica e outra visual – numa só região do seu cérebro. Graham sugere que, "mesmo os animais com cérebros mais pequenos fazem processamentos sensoriais, uma reminiscência daquilo que algumas pessoas chamariam de cognição".

Agora, o passo seguinte é investigar como é que os escaravelhos avaliam as informações fornecidas pelo vento ou pelo sol, e como é que optam por um desses elementos.

“Vamos fazer registos dos próprios neurónios, dentro da ‘bússola’ do escaravelho”, diz Marie.

Depois de mais de 15 anos a estudar insetos aparentemente simples e a forma como estes interpretam o mundo à sua volta, ainda existem muitos mistérios por desvendar.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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