Animais

Primeiras Raias-Borboleta Nascidas em Cativeiro

Depois do nascimento histórico em cativeiro, em agosto de 2018, de 5 raias-borboleta, um aquário no Brasil está agora pronto para a chegada das próximas crias.Friday, July 26, 2019

Por Jill Langlois
Uma raia-borboleta escondida na areia, camuflando-se para caçar pequenos peixes, crustáceos e moluscos. Estas raias foram criadas pela primeira vez em cativeiro em agosto, integradas num projeto que visa ajudar a conservar a espécie.

SÃO PAULO – Quase um ano depois do histórico nascimento de 5 raias-borboleta, no Aquário Marinho do Rio de Janeiro (AquaRio), biólogos e veterinários preparam-se agora para receber mais um grupo de pequenotes na família.

Em apenas seis meses (o período de gestação da Gymnura altavela, nativa das águas costeiras do Atlântico, incluindo as águas que fazem fronteira com o sudeste do Brasil), um número de crias ainda desconhecido vai juntar-se aos três machos e duas fêmeas que foram as primeiras raias nascidas em cativeiro, em agosto passado, um sinal positivo para uma espécie vulnerável à extinção.

Apesar de no Brasil a captura e venda destas raias ser ilegal, a pesca é uma das principais ameaças enfrentadas pelas raia-borboleta, que podem atingir mais de 2 metros de comprimento. As raias são o alvo de pescadores artesanais que as vendem comercialmente, e também são apanhadas acidentalmente na pesca costeira de arrasto. A outra ameaça que prejudica a sua população é a poluição. Estes fatores levaram a espécie a ser rotulada pela Lista Vermelha da UICN como vulnerável à extinção, com uma população em declínio. No Brasil, as raias enfrentam uma ameaça crítica devido à intensa atividade pesqueira junto à costa.

Lar doce lar
Estas primeiras raias nascidas em cativeiro só foram vistas pelo público quando a estação de televisão Globo recebeu permissão para as filmar, em finais de junho. Marcelo Szpilman, biólogo marinho e CEO do AquaRio, diz que as raias estão a prosperar e que a sua estreia ao público poderá ser feita em breve, no Tanque do Oceanário, onde irão desempenhar um papel importante na educação dos visitantes.

Três das primeiras raias-borboleta criadas em cativeiro a nadar num tanque do Aquário Marinho do Rio de Janeiro.

“Nós não preservamos o que desconhecemos”, diz Szpilman. "O aquário tem o papel de mostrar às pessoas as espécies ameaçadas e ajudá-las a compreender a importância da sua conservação. Nós precisamos de saber o que está a acontecer para as podermos preservar."

A gestação que antecedeu os nascimentos sem precedentes no AquaRio, e os cuidados prestados às cinco crias, fizeram parte de um processo muito delicado planeado pela equipa do aquário.

Como as raias-borboleta são particularmente sensíveis ao ambiente que as rodeia, os investigadores tiveram de criar condições excelentes para estas se sentirem confortáveis e viverem a vida naturalmente, tal como fariam no oceano. (Relacionado: Veja o primeiro estudo sobre a maior raia marinha conhecida.)

"Queríamos ter a certeza de que as raias tinham condições para se reproduzir por conta própria", diz Szpilman. O tamanho do Tanque do Oceanário, que contém 3,5 milhões de litros de água, a excepcional qualidade da água e a estabilidade do ecossistema gerada pelas várias espécies de tubarões, raias e peixes que ali vivem, fazem parte do sucesso, diz.

"Sempre que temos uma reprodução em cativeiro, é muito importante para a conservação da espécie", diz Patricia Charvet, do Grupo de Especialistas em Tubarões da UICN e bióloga especializada em tubarões e raias. "É importante porque é um sinal de que os animais estão a ser tão bem tratados que querem deixar descendentes".

Os nascimentos ocorreram num tanque mais pequeno, dentro do Tanque do Oceanário, que geralmente é usado pelos mergulhadores para cuidar isoladamente de espécies. Isto permitiu à fêmea permanecer no seu habitat enquanto os veterinários monitorizavam as crias com ultrassons – e ajudavam os recém-nascidos a entrar na água pela primeira vez. Nas raias, a mortalidade infantil é muito elevada devido aos seus predadores naturais, pelo que as cinco crias ficaram de quarentena, uma medida destinada a mantê-las longe dos tubarões do tanque grande.

Agora, com 11 meses de idade, estão bem de saúde e espera-se que sejam introduzidas brevemente no Tanque do Oceanário.

Regressar ao oceano
Para Izeni Pires Farias, bióloga e professora na Universidade Federal do Amazonas, a importância não está no facto de existirem mais raias em cativeiro, mas sim na possibilidade de serem reintroduzidas no oceano.

"Quando a reprodução em cativeiro é bem sucedida, o próximo passo deve ser a introdução destes indivíduos na natureza, para repovoar as áreas afetadas", diz Izeni.

Szpilman espera que um dia consigam reintroduzir as raias-borboleta na natureza – "Esse é o verdadeiro objetivo de todo este processo", diz – mas esse objetivo ainda está a uns anos de distância porque, sem uma população maior de raias machos e fêmeas criados em cativeiro, e sem melhores condições de sobrevivência na natureza, não vai fazer muita diferença.

Contudo, Szpilman tem a esperança de um dia conseguirem atingir esse objetivo. E se por alguma razão não o conseguirem, ele está certo de que o trabalho feito pela equipa no AquaRio ajudou a raia-borboleta a dar um passo para escapar da extinção.

“Quando um animal se extingue na natureza, se não existirem mais nenhuns em cativeiro, em jardins zoológicos ou em aquários, essa espécie fica extinta no mundo”, diz. “Se, por algum infortúnio, esta espécie de raia desaparecer na natureza – algo que pode mesmo acontecer – ao menos ainda temos esta biodiversidade, em cativeiro, no nosso planeta.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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