Animais

Segredos de Gigantes Ameaçados Desvendam-se nos Açores

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Por Nuno Vasco Rodrigues
Agregação de Jamantas-chilenas na baixa do Ambrósio, Santa Maria

A origem vulcânica dos Açores confere a este arquipélago características peculiares, tanto acima como abaixo da linha de água. Os montes submarinos, estruturas geológicas que se erguem dos fundos oceânicos, são um dos indícios mais simbólicos dessa origem vulcânica, e podem propiciar a ocorrência de fenómenos biológicos fascinantes. Junto ao topo, são autênticos oásis, desempenhando um papel importante no ciclo de vida de diversas espécies oceânicas, que aqui encontram condições propícias para se alimentar, crescer e reproduzir. Nelas se incluem mamíferos marinhos, tartarugas, aves e grandes peixes pelágicos como atuns, tubarões e também jamantas. Esta riqueza singular tem atraído a atenção de mergulhadores de todos os cantos do mundo, sendo os Açores atualmente um dos hot-spots para mergulho com jamantas. Estes animais, aparentados com as raias, atingem grandes dimensões, vivem na coluna de água e podem formar agregações numerosas.  

Atualmente sabe-se que existem três espécies de jamantas nos Açores: a Manta-oceânica, Mobula birostris, a Jamanta-gigante, Mobula mobular e a Jamanta-chilena, Mobula tarapacana. Das três, a última é a mais abundante e a única que forma agregações numerosas nos Açores, durante os meses de verão, particularmente junto ao topo de dois montes submarinos, o banco Princesa Alice (situado 50 milhas a sudoeste da ilha do Pico) e a baixa do Ambrósio (na ilha de Santa Maria). 

Ana Filipa Sobral fotografa uma Jamanta-chilena. A imagem será inserida na base de dados do “Manta Catalog Azores”.

A sua presença assídua e numerosa tem também atraído a comunidade científica, a qual admite muito pouco saber ainda acerca destes gigantes misteriosos, que se encontram ameaçados de extinção. “São animais pelágicos, difíceis de observar devido ao seu vasto habitat oceânico, deslocam-se rapidamente e nem sempre permitem a aproximação”, refere Ana Filipa Sobral, bióloga marinha e investigadora da Universidade dos Açores, que se dedica ao estudo das Jamantas dos Açores. “Além disso, a maioria dos locais de agregação conhecidos encontram-se em locais remotos, onde a presença destes animais é sazonal. Assim sendo, muitas questões permanecem por responder relativamente a estas espécies e às suas estratégias de vida”, acrescenta. O grau de ameaça em que se encontram deve-se essencialmente a atividade humanas como a pesca (dirigida e acidental), poluição, destruição de habitat, e turismo não regulamentado. A estes fatores somam-se questões ecológicas intrínsecas à sua biologia como uma maturação tardia e reduzido número de descendentes, tornando-as extremamente vulneráveis. Esta situação levou Ana Filipa a criar o Manta Catalog Azores há cerca de 7 anos, um projeto que tem como objetivo aumentar o conhecimento acerca do modo de vida destes animais, com vista à sua conservação. Essa dedicação valeu-lhe recentemente o 2º lugar do prémio Terre de Femmes, uma iniciativa promovida pela Fundação Yves Rocher, que todos os anos distingue mulheres com projetos a favor do ambiente. O prémio, para além de trazer visibilidade para estes animais, trouxe financiamento que permitirá aumentar a aposta em ações de sensibilização e criação de materiais com vista à sua conservação, em paralelo com o trabalho no terreno, possível graças ao apoio de instituições como o Oceanário de Lisboa e a Save our Seas Foundation.

Projeto criado pela bióloga marinha Ana Filipa Sobral

O Manta Catalog Azores consiste numa base de dados fotográfica, alimentada por mergulhadores, turistas e cidadãos comuns que fotografem ou filmem jamantas nos Açores. Esta abordagem, conhecida por ciência-cidadã, “é uma alternativa valiosa para a recolha de informação ecológica relevante, que seria extremamente desafiante em termos económicos e logísticos se fosse feita apenas por investigadores, especialmente tendo em conta que os locais de agregação são bastante remotos. Assim, os investigadores beneficiam através da quantidade e extensão geográfica dos dados disponíveis e os cidadãos cientistas têm uma experiência educacional”, refere a investigadora. “Facilita ainda a colaboração entre investigadores em diferentes locais, o que é crucial para o estudo de espécies altamente migratórias como as jamantas”, acrescenta.

Através das imagens submetidas, é possível identificar a espécie, sexo e maturidade, bem como analisar comportamentos. Adicionalmente, imagens onde seja visível a zona ventral das Jamantas podem ter um valor acrescentado. Segundo Ana Filipa, “os padrões presentes na zona ventral dos indivíduos destas espécies são únicos, um pouco como as nossas impressões digitais. Tal significa que as fotografias desses padrões podem ser usadas para identificar diferentes indivíduos, num método chamado foto-identificação.”

Ventre de Jamanta-chilena ostentando um padrão único, que é usado na identificação do indivíduo

Cruzando o local e a data de uma foto, consegue-se o “rastreamento” de cada indivíduo ao longo do tempo. Assim, a base de dados do projeto pode revelar informação acerca da constituição da população e das migrações e movimentos dentro e fora dos Açores, algo que Ana Filipa considera crucial para a futura gestão e conservação destas raias, a nível local e global. Usando apenas dados fornecidos pelos cidadãos cientistas e empresas marítimo-turísticas locais foi possível a identificação de 173 indivíduos diferentes (144 Jamantas-chilenas e 29 Mantas-oceânicas) bem como a obtenção de dados relativos a mais de 2000 mergulhos. Re-avistamentos de diversos indivíduos de Jamanta-chilena ao longo dos anos (um deles com intervalo de 9 anos) validam a foto-identificação como ferramenta de estudo para esta espécie (algo inédito a nível mundial) e confirmam o regresso destes animais em anos diferentes aos Açores, reforçando a importância da região para o ciclo de vida desta espécie e, consequentemente, a necessidade de a proteger.

Paralelamente à componente fotográfica, Ana Filipa recolhe amostras de tecido das Jamantas para posterior análise genética. Segundo a investigadora, “tal permitirá estudar a estrutura da população nos Açores e a possível conectividade entre populações dos Açores e de outras regiões no Oceano Atlântico.”

Ana Filipa Sobral colecta uma amostra de tecido de uma Jamanta-chilena usando uma vara de biópsia

O mediatismo que as Jamantas “Açorianas” gozam hoje pode ser capitalizado no sentido de promover a sua conservação junto do grande público. Tal é também desenvolvido pelo Manta Catalog Azores, “particularmente junto das camadas jovens, em atividades que temos desenvolvido e materiais que concebemos em conjunto com parceiros como o Observatório do Mar dos Açores, que têm vindo a ser implementados nas escolas da região”, refere Ana Filipa. Num futuro próximo o projeto pretende “alargar o número de colaboradores envolvidos, de modo a aumentar a base de dados, para que possamos decifrar o porquê destas agregações nos Açores” e “continuar a trabalhar para a consciencialização do grande público para a importância da conservação destes animais”, acrescenta.

As Jamantas gozam hoje de um mediatismo sem precedentes nos Açores

Se estes objetivos forem alcançados, estarão criadas condições favoráveis à conservação destes animais em águas Açorianas. Quanto ao seu futuro, esse parece estar nas mãos de uma nova geração já “abençoada” pela ação desenvolvida pelo Manta Catalog Azores. E isso é motivo de esperança.

Como participar neste projeto:
Envie as suas fotografias e/ou vídeos e os respetivos dados dos avistamentos (data; local; número de animais avistados; etc.) através deste site.

Se tiver alguma questão, contacte a equipa do projeto através deste email.

 

Nuno Vasco Rodrigues é biólogo marinho,  Assistente de Curador no Oceanário de Lisboa, investigador no MARE IPLeiria e fotógrafo subaquático.

Ana Filipa Sobral é bióloga marinha, estudante de doutoramento na Universidade dos Açores e autora do projeto Manta Catalog Azores.

Continuar a Ler