Animais

Peixe com 112 Anos Quebra Recorde de Longevidade

De acordo com a datação por radiocarbono, quando este peixe nasceu, a Primeira Guerra Mundial ainda não tinha começado.segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Por Sean Landsman
Este peixe búfalo-boca-grande (Ictiobus cyprinellus) foi fotografado no Gavins Point National Fish Hatchery Aquarium, na Dakota do Sul. A datação por carbono confirmou que esta espécie de peixe de água doce tem a maior longevidade de que há conhecimento.

Os cientistas adicionaram recentemente um peixe enorme à crescente lista de animais centenários que provavelmente irão viver mais tempo do que todos nós.

Um novo estudo, que usou datação por radiocarbono artificial, revelou um peixe búfalo-boca-grande que viveu uns impressionantes 112 anos, quebrando assim o anterior recorde de longevidade máxima para a espécie – 26 anos.

Assim sendo, este peixe, nativo da América do Norte e capaz de atingir pesos a rondar os 35 quilos, é o peixe ósseo de água doce – um grupo que abrange cerca de 12.000 espécies – com a maior longevidade até agora validada.

“Um peixe que vive mais de 100 anos? É algo de extraordinário”, disse Solomon David, professor assistente na Universidade Estadual Nicholls, no Louisiana, que não esteve envolvido no estudo.

Nos últimos anos, graças às técnicas de datação mais avançadas, os cientistas descobriram que muitas das espécies de peixes vivem mais tempo do que se pensava anteriormente – o tubarão-da-Gronelândia, por exemplo, consegue viver mais de 270 anos. Embora a idade dos peixes seja um aspeto básico da sua biologia, ainda não se sabe muito sobre a sua esperança média de vida.

Datação por carbono
Antes de os autores do estudo datarem a idade de um único peixe, já tinham um palpite de que estes animais, que vivem principalmente no norte dos EUA e no sul do Canadá, tinham uma longevidade maior do que se pensava.

A equipa removeu fatias muito finas de otólito – pequenas estruturas calcificadas que ajudam a equilibrar os peixes enquanto nadam – de 386 peixes búfalo-boca-grande capturados na natureza, a maioria colhida em pesca com arco. Depois, os investigadores usaram um microscópio para contar os anéis de crescimento em cada fatia de otólito. As primeiras contagens revelaram estimativas de peixes que vivem mais de 80 e 90 anos de idade.

Quando o autor principal do estudo, Alec Lackmann, viu estes números pela primeira vez, a sua reação foi: “Não pode ser!”

Para validar estas estimativas extraordinárias, Lackmann, estudante de pós-graduação na Universidade Estadual da Dakota do Norte, e os seus colegas recorreram à datação por radiocarbono artificial (carbono bomba). Este método compara a quantidade do isótopo carbono-14 no tecido animal com as concentrações de carbono-14 lançado na atmosfera, em meados do séc. XX, durante os testes da bomba atómica. Este método tem sido usado para datar tudo, desde restos mortais humanos a tubarões.

A equipa fez um cruzamento de dados entre os resultados dos otólitos e a datação por radiocarbono artificial e encontrou uma correspondência – validando as estimativas de um ciclo de vida entre os 80 e os 90 anos, de acordo com o estudo, publicado recentemente na revista Communications Biology.

No total, 5 peixes búfalo-boca-grande ultrapassavam os 100 anos de idade, mas foi uma fêmea com 10 quilos, capturada perto de Pelican Rapids, no Minnesota, que bateu o recorde de 112 anos. “Esta fêmea está no espectro mais pequeno dos indivíduos maduros”, realça Lackmann.

Envelhecimento da população
Os primeiros 16 peixes datados por Lackmann tinham todos mais de 80 anos, destacando outra descoberta surpreendente: muitos dos peixes nasceram antes de 1939, sugerindo uma falha reprodutiva que durou décadas. Uma das causas prováveis para esta falha pode dever-se à construção de barragens, que impedem – ou bloqueiam definitivamente – o movimento da espécie para montante, até às áreas de desova.

Os peixes búfalo-boca-grande são frequentemente apelidados de “peixe lixo”, porque geralmente não são bons para comer e são erroneamente confundidos com espécies invasivas dos EUA, como as carpas comuns. Mas Lackmann argumenta que "devemos evitar desse termo, porque abrange demasiadas espécies nativas".

David concorda e afirma que isto diminui automaticamente o valor do próprio organismo que, no caso do peixe búfalo-boca-grande, tem um papel importante na manutenção da saúde dos seus rios nativos – deslocando carpas invasoras. (Mergulhe no Mundo Esquecido dos Animais de Água Doce.)

Apesar de historicamente esta espécie não ser popular na pesca desportiva, o peixe búfalo-boca-grande tem sido cada vez mais o alvo de pescadores com arco, que pescam com arco e flechas, geralmente de noite e com holofotes.

Quase todos os estados dos EUA onde se encontram estes peixes não têm limites para a sua captura desportiva ou comercial. A espécie não é considerada ameaçada nos EUA, mas no Canadá a sua conservação é motivo de cuidados especiais. Lackmann e David esperam que esta descoberta, sobre a incrível longevidade do peixe búfalo-boca-grande, ajude a melhorar a sua imagem perante o público.

"Espero que, conhecendo este facto espetacular sobre estes peixes, as pessoas olhem para a espécie com mais atenção", diz David.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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