Corvos Adoram Cheeseburgers – e Ficam com Colesterol Elevado

Mas ainda não se sabe se a comida “das pessoas” ingerida pelos pássaros urbanos lhes é verdadeiramente prejudicial.terça-feira, 3 de setembro de 2019

Cientistas alimentaram corvos com cheeseburgers para observar a forma como os restos de comida deixados pelos humanos podem afetar a sobrevivências das aves.
Cientistas alimentaram corvos com cheeseburgers para observar a forma como os restos de comida deixados pelos humanos podem afetar a sobrevivências das aves.
fotografia de Andrea Townsend

Quando era criança, Andrea Townsend adorava alimentar pardais no seu quintal, mas interrogava-se se isso seria bom para as aves.

Townsend é agora ornitóloga no Hamilton College, em Clinton, Nova Iorque, e continua a preocupar-se com o que os pássaros comem. Geralmente, dá-lhes petiscos naturais, como amendoins sem sal, mas, para fins de investigação, experimentou um alimento muito popular entre os humanos: cheeseburgers.

Num estudo publicado no dia 26 de agosto, na revista The Condor, Townsend e a sua equipa mostram como a vida urbana afeta a saúde dos corvos-americanos, incluindo os níveis de colesterol, e também mostra o que acontece a uma população rural de corvos quando os hambúrgueres se tornam parte da sua dieta.

Corvos e cheeseburgers
Tal como muitos outros animais que prosperam em ambientes urbanos, também os corvos sobrevivem, em parte, graças à nossa comida. Muitas vezes, isso significa que comem o que encontram no lixo, incluindo alimentos processados que não existem na natureza. (Veja porque é que os corvos e as gralhas são as aves mais inteligentes do planeta.)

Estudos feitos anteriormente já tinham demonstrado que em áreas urbanas, ou em áreas com muito turismo, os animais, como os pardais e as iguanas, tinham níveis elevados de colesterol.

Townsend decidiu descobrir se os corvos urbanos também tinham níveis mais altos de colesterol do que os seus parentes rurais.

Primeiro, a equipa fez testes em 140 crias de corvos, em Davis, na Califórnia, ao longo de uma faixa que passou de urbana a rural ao longo de 3 anos. E, de facto, quanto mais urbana era ave, mais elevado era o seu colesterol.

Depois, suplementaram a dieta de uma população de corvos na zona rural de Clinton, em Nova Iorque, com alimentos humanos com elevados níveis de colesterol – cheeseburgers – encomendando 100 cheeseburgers do McDonald's de cada vez.

“Eles pensavam que era uma brincadeira”, diz Townsend.

Os corvos da área de Clinton devoravam os 3 hambúrgueres que os investigadores colocavam diariamente debaixo das suas árvores de ninho, com alguns adultos a levarem hambúrgueres para as suas crias e outros a comerem ou a armazenarem a comida.

Comparando as taxas de colesterol e de sobrevivência dos corvos que comiam hambúrgueres com os de corvos que viviam nas proximidades, mas que não foram suplementados com fast food, a equipa descobriu que os níveis de colesterol não tinham um efeito percetível na sobrevivência das aves.

Veja: Corvo Vence Contentor de Lixo
Veja: Corvo Vence Contentor de Lixo

No entanto, independentemente dos níveis de colesterol, as aves urbanas tiveram taxas de sobrevivência mais baixas do que as aves rurais. Não se sabe porque razão as aves urbanas tiveram mais dificuldades, embora possam existir muitos fatores que contribuam para isso – como colisões com carros, doenças, predadores e a má qualidade dos alimentos em estágios críticos de desenvolvimento.

As crias que estavam prestes a abandonar o ninho e que tinham níveis de colesterol mais elevados – depois de comerem uma dieta rica em hambúrgueres – tinham realmente uma condição corporal “melhor” do que a dos seus parentes do campo. A condição corporal, no sentido científico, significa apenas que, para o tamanho que têm, os pássaros pesam mais do que deviam.

"Basicamente, considera-se que um corvo gorducho tem uma boa condição", diz Townsend, observando que essa definição é passível de debate.

Em pequenas doses, o colesterol é uma coisa boa, observa Townsend. “É essencial para o funcionamento do corpo e faz parte da estrutura das células, atuando como precursor das hormonas e componente da bílis, que decompõe a gordura. O colesterol em excesso é que está associado a doenças.”

Nos humanos, os níveis de colesterol mais elevados só ganham relevância em estágios mais tardios da vida, por assim dizer, sob a forma de doença cardíaca. Os corvos, "que conseguem viver mais de 15 anos na natureza, também podem desenvolver doenças mais tarde na vida", mas isso precisa de mais investigações para ser confirmado, diz Townsend.

O corvo-americano (Corvus brachyrhynchos) tornou-se numa visão comum em áreas urbanas e suburbanas da América do Norte. E come quase tudo – desde insetos e sementes a lixo e até carne em decomposição.
O corvo-americano (Corvus brachyrhynchos) tornou-se numa visão comum em áreas urbanas e suburbanas da América do Norte. E come quase tudo – desde insetos e sementes a lixo e até carne em decomposição.
fotografia de Donna Ikenberry, Art Directors/Alamy

Animais urbanos
Kaeli Swift, investigadora de pós-doutoramento na Universidade de Washington,  passou vários anos a observar o comportamento de corvos e diz que está feliz por conhecer alguns destes resultados.

Swift, que não participou no estudo, diz que os investigadores fizeram um ótimo trabalho a demonstrar que a abundância de "comida das pessoas" nas paisagens urbanas não é nociva para os corvos, pelo menos a curto prazo.

Isto não significa que os cheeseburgers devem fazer parte da dieta normal das aves – para as pessoas que costumam dar de comer a corvos no seu quintal, é preferível dar-lhes algo o mais natural possível, diz Townsend, que também não quer desencorajar a alimentação das aves.

“Acho que a cultura de que não devemos dar fast food aos animais selvagens já está entre nós”, acrescenta Swift.

E também diz que este estudo oferece uma apreciação mais detalhada sobre os efeitos que temos nos animais que vivem nos mesmos espaços que nós. Os corvos e outros habitantes animais da cidade "prosperam connosco e sentem-se atraídos por nós, e é importante sabermos como é que eles lidam com o que partilhamos com eles.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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